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terça-feira, 26 de agosto de 2008
Vênus adormecida- Giorgiane (Georgio da Catelfrança)
O amor em Santo Agostinho

Marco Antonio Separavich
Santo Agostinho é entre os filósofos antigos aquele que mais destacou a importância do amor na vida intelectual e moral dos humanos.
O amor é substância da alma, eis porque todo homem é capaz de amar, e expressa a vontade em sua forma intensa. No processo cognitivo é o elemento que une ou separa a memória da inteligência. Aliás, é na tríade memória, inteligência e vontade que Santo Agostinho encontra a semelhança que o homem traz da imagem do Eterno impressa na parte mais excelente da sua alma, ou melhor, da mens.
É na mens que o homem se assemelha a Deus, podendo conhecer a si mesmo e ao Seu Criador, podendo também, por ela, discernir a justiça da injustiça, a verdade da mentira, o certo do errado etc. Conhecer plenamente é um ato de amor.
Como princípio instaurador da vida ética e moral, o amor se revela como início e fim último da existência humana. De um ponto de vista temporal, o amor em sua forma perfeita – charitas - ordena a vontade e os atos virtuosos na direção do Bem Imaterial, assegurando a possibilidade de o homem chegar à beatitude.
Partindo de uma leitura paulina do campo moral, Santo Agostinho ressalta que, todo homem pode amar, contudo, se tudo pode ser amável nem tudo deve ser amado. Explica-se: na economia moral agostiniana o amor é um bem médio, isso significa que pode ser dirigido tanto aos bens que nos aproximam como àqueles que nos afastam do Eterno, respectivamente aos bens superiores e inferiores. O homem deve amar acima de tudo o que é imutável, imortal, imperecível e incorruptível, o homem deve amar, portanto, primeiramente a Deus, único ser que possui simultaneamente estes “atributos”.
A ordem do amor normativa para a vida ético-moral estabelece a partir da divindade a ordenação dos bens para os quais deve se dirigir o amor: o homem deve amar o próximo como a si mesmo, amar primordialmente a alma ao corpo, a razão à paixão, a virtude ao vício, enfim, cumprindo essa ordem os humanos se aproximam do Bem Absoluto.
Somos aquilo que amamos, ou seja, o amor torna o amante parecido com o amado, sendo o amor um enlaçamento entre duas vidas, e implicando sempre na fruição daquilo que se ama. O amor quando o que se ama está ausente é desejo, quando na presença do ser amado torna-se fruição.
O cumprimento da ordem do amor possibilita ao homem a busca pela plenitude, a felicidade, aspiração de todos os humanos.
Para encontrar a plenitude, a vida feliz, o homem deve se religar ao Eterno. O amor é o meio pelo qual isso pode se dar, possibilitando a reorganização da vida interior humana: eis um dos aspectos fundamentais da teologia e filosofia agostinianas.
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Contato com o autor: croata_sp@bol.com.br
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Platão - A República e o Cidadão Ideais.
Rudini SampaioA filosofia platônica é uma grande reflexão sobre a totalidade da cultura e da vida do povo grego, com a finalidade de lançar bases ou fundamentos para uma construção sólida. Mas, sua filosofia também pode ser considerada atual pela sua abrangência e importância dos problemas discutidos.
Platão é um grande opositor de Homero e Hesíodo, devido a explicação da realidade através dos mitos, e é quem ultrapassa o grande abismo gerado pela contradição das filosofias de Parmênides de Eléia e Heráclito de Éfeso.
Discípulo de Sócrates, Platão vai concluir que o homem-medida (de Protágoras) é, por sua vez, medido por realidade superior; que o conceito repousa na transcendência do mundo ideal.
Os valores humanos, na apreciação de Platão, são perenes, não dependendo das convenções humanas. Eles repousam numa estrutura lógica de ser, que transcende a qualquer criação humana; e todo homem pode conhecê-la, através do uso reto da razão.
Platão fundou uma escola, a Academia, e escreveu os famosos diálogos, onde Sócrates quase sempre aparece como protagonista, a saber: Hípias menor, Alcibíades, Apologia de Sócrates, Eutífron, Críton, Hípias maior, Cármides, Laques, Lísias, Protágoras, Górgias, Mênon, Fédon, Banquete, Fedro, Ion, Menéxemo, Eutidemo, Crátilo, República, Parmênides, Teeteto, Sofista, Político, Filebo, Timeu, Crítias e Leis.
O ponto de partida dos vôos metafísicos de Platão é o conceito, a realidade subjetiva, que fundamenta o saber humano. Com o conceito, o conhecimento se define, se fixa e se constitui na sua essencialidade inteligível. Torna-se possível explicar a existência de um discurso válido, para todos os tempos.
Platão procurava entender a questão a respeito da origem da universalidade e da necessidade do conceito. No diálogo Mênon, ele parece resolver essa questão. Segundo ele, ao mundo subjetivo do conceito, corresponde o mundo objetivo das idéias. Resumidamente, uma cor não é sentida senão a forma subjetiva de uma realidade objetiva. Essa realidade, para Platão, é a idéia de cor. Existe, portanto, um mundo de realidades ideais, o mundo da plena inteligibilidade, o mundo das justificativas cabais de todo o processo racional, o mundo real por excelência.
Parmênides, e sua filosofia do ser, tornaram a reflexão infecunda. Platão supera esse obstáculo reconhecendo que, no âmago da idéia de ser, reside a contradição entre o uno e o múltiplo (verso). A partir daí, ele pode pensar a multiplicidade, sem negar a unidade, e vice-versa.
Platão estava inserido na cultura grega que tinha fé na inteligibilidade do real, que Parmênides já expressava com a sua doutrina sobre o ser. Platão conclui que, se partirmos da hipótese de que o real é inteligível, ou seja, pensável e justificável racionalmente, o processo lógico do pensamento, através de articulações racionais, é o caminho que nos leva ao próprio coração da realidade, a própria estrutura do ser.
A Dialética, para Platão, seria o processo de desdobramento do conteúdo racional do pensamento, pois esse desdobramento se efetua em força da contradição. Para ele, o dialético é o filósofo, aquele que sabe dividir, revelar as contradições, mas também sabe unir, superar as contradições numa unidade superior.
De degrau em degrau, dá-se a ascensão (dialética ascendente) à plenitude da inteligibilidade, a unidade absoluta. Chegando a esse ponto, Platão inverte a tese sofística de que a interioridade ou subjetividade do homem é o fundamento. A medida absoluta passa a ser Deus, a divindade, a unidade absoluta.
Deus, nos diálogos platônicos, é conclusão lógica de um processo racional, mas é também plenitude amorosa, Éros, que causa as tensões para se chegar a harmonia. Esses aspectos são abordados no Fedro (a beleza) e no Banquete (o amor). No plano transcendente do ser, é a idéia do Bem que explica toda a verdade, torna-a inteligível e boa.
O racionalismo de Platão é, contudo, realista. A idéia não é mera forma subjetiva, ela é a própria transparência do real, superando o relativismo moral e o ceticismo. À essa suposição platônica de que é possível para a razão intuir a estrutura inteligível do ser, numa visão de totalidade (visão da essência), costuma-se chamar hoje de Metafísica, em oposição a Dialética.
Em Platão, aparecem intimamente unidas dialética e concepção metafísica da filosofia, embora ele não tenha usado o termo metafísica, ainda não existente. Zenão de Eléia, discípulo de Parmênides, é considerado por Aristóteles o inventor da dialética, devido as famosas séries de argumentos paradoxais que refutam o que a experiência nos revela. Platão chamaria isso de Erística, num sentido pejorativo e oposto à Dialética. Para Platão, a dialética é um sério processo gradual da mente em busca do primeiro princípio absoluto, e não um jogo verbal ou virtuosismo da mente. Com a dialética, foi-lhe possível superar os paradoxos de Zenão, a teses paralisantes de Parmênides e o relativismo de Heráclito e dos sofistas.
Em diálogos como Fédon e República, Platão apresenta a dialética em seu aspecto ascendente: a partir da multiplicidade dos seres e da subjetividade, alcançar a idéia suprema, que é a suprema Bondade, contemplar o mundo das idéias. Em diálogos como Sofista, Político e Filebo, Platão faz o caminho inverso. É a dialética descendente: perceber na unidade, por um processo de divisão (diáiresis) e multiplicidade; colher as diferenças unidas na igualdade.
No contexto da reflexão platônica, por um lado, o homem é visto como ser racional, pois é o homem que instaura o processo de justificação racional da realidade. Por outro lado, Platão era obrigado a admitir que o homem é também sensibilidade e emoção; é um corpo que faz parte da physis. Como se fez a união de racionalidade e sensibilidade no ser humano?
Platão vai figurar ou conceituar esse dualismo em termos de idéia, que é realidade positiva, plenitude de ser; e de algo que é como pólo negativo, a receptividade absoluta, para o qual não encontra nome, e que Aristóteles aproxima da sua concepção de matéria (hylé).
No diálogo Timeu, Platão é mais minucioso, distinguindo a idéia, a matéria, o espaço (chora), a necessidade (ananké) e o demiurgo. O demiurgo usando da matéria que está no espaço onde vigora a necessidade (a desordem, a não-racionalidade) dá origem ao cosmos (ordem, beleza, racionalidade), enquanto aplica as idéias à matéria. A racionalidade é representada pelo demiurgo e pelas idéias; a irracionalidade é representada pela matéria, o espaço e pela necessidade. Esse dualismo espírito-matéria resume a compreensão platônica da estrutura interna do ser humano.
Com o passar do tempo, o pensamento platônico se reveste de maior religiosidade. Em As Leis, Deus torna-se a medida de tudo, contradizendo o homem-medida de Protágoras. Para Platão, existe o mundo espaço-temporal e o mundo das idéias, mundo imaterial ou ideal. O homem está como mediador, a meio caminho entre esses dois mundos: sua alma participa do mundo ideal, e o seu corpo participa do mundo espaço-temporal.
A alma se degrada no contato com a matéria, esquece todo o conhecimento obtido na contemplação das idéias. Recordá-las constitui o aprendizado (maiêutica), tese do conhecer como reconhecimento.
A matéria para Platão era fonte de limitação e até de maldade. Nos diálogos da maturidade como Fédon, Fedro, Banquete e República , o ideal ascético de vida aparece com forte luminosidade, recordando o pitagorismo. O sábio é sobretudo o asceta, o que se esforça para se libertar da sensibilidade e para integrar-se ao mundo das idéias.
Em diálogos posteriores, tais como Filebo, Timeu e Leis, Platão integra melhor nas exigências da racionalidade (prioritária) aquelas da sensibilidade e do prazer material. Sábio não é tanto o asceta espartano que renunciou a beber o vinho e a celebrar banquetes, para não se deixar perverter pelos atrativos deles. Sábio é muito mais o ateniense sóbrio, capaz de participar de banquetes, saborear vinhos, gozar da convivência, sem contudo se entregar à intemperança.
Em A República, Platão idealiza uma cidade, na qual dirigentes e guardiães representam a encarnação da pura racionalidade. Neles encontra discípulos dóceis, capazes de compreender todas as renúncias que a razão lhes impõe, mesmo quando duras. O egoísmo está superado e as paixões, controladas. Os interesses pessoais se casam com os da totalidade social, e o príncipe filósofo é a tipificação perfeita do demiurgo terreno. Apesar de tudo isso e desse ideal de Bem comum, Platão parece reconhecer o caráter utópico desse projeto político, no final do livro IX de A República.
Tendo em vista esse ideal, o trabalho manual continuava não valorizado no âmbito da cidade-estado. A classe dos trabalhadores não era classe cidadã, pois não lhes sobrava tempo para a contemplação teórica da verdade e para a práxis política. Para Platão, o ideal humano se realizava na figura do cidadão filósofo, livre das incumbências da sobrevivência, constituindo um ideal altamente elitista.
Para além de todas as utopias da sua república ideal, da figura dos reis filósofos, devemos apreciar o ideal ético de Estado e o esforço de Platão para desvendar os vínculos que ligam os destinos das pessoas ao destino da cidade.
Em Platão a filosofia é ética, dialética, metafísica, teologia, antropologia, estética; e é também cosmologia e pedagogia; é sobretudo política, ou melhor, crítica social. É por isso que ele foi considerado quase um deus por Plotino e a escola neo-platônica, foi traduzido para o cristianismo por santo Agostinho, e continua dando, ainda hoje, pistas válidas de reflexão filosófica.
Texto extraido de: http://www.ime.usp.br/~rudini/filos.platao.htm
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sábado, 16 de agosto de 2008
A Oratória de vieira
É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e, quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades em que não há mal nenhum que ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro: — o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.» Padre António Vieira , s.XVII.
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Extraido de http://www.silva.fonseca.blogspot.com/
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Platão e a Educação

Através dos programas descritos em duas das grandes obras de Platão, a República e as Leis, sabemos o que Platão pensava que deveria ser a educação.Platão, o mais famoso discípulo de Sócrates, divergiu do mestre num aspecto: não acreditava na difusão ampla, democrática da sabedoria. Para ele, ela só poderia ser alcançada pelo confinamento voluntário de aprendiz, da separação do iniciado do restante da sociedade. Nada de andar caminhando em meio a ágora (agora) tentando converter a gente comum às grandes idéias, embaraçando-as com exercício dialéticos como Sócrates costumava fazer. O conhecimento, episteme (episteme), era apanágio de alguns poucos, mantendo-se no alto, afastado do comum, como a acrópole encontra-se em relação à cidade. A fortaleza do saber demandava uma arte especial para conquistá-la, uma técnica que requeria o domínio da geometria, do raciocínio, da meditação e da reflexão disciplinada.
Na sociedade que Platão idealizou existem três classes: a classe dos artífices e comerciantes, cuja virtude é a temperança; a classe dos guerreiros, cuja virtude é a coragem e a classe dos filósofos cuja virtude é a sabedoria. Se a classe dos filósofos governar, se a classe dos guerreiros se encarregar da defesa e a classe dos artífices e comerciantes mantiver as duas outras classes, existirá harmonia e equilíbrio e a justiça poderá ser alcançada.Na República e nas Leis, para além de desenhar o seu estado ideal, Platão também define o sistema educacional que o manterá, apresentando assim as suas ideias sobre a educação, o valor da poesia e da música, a utilidade das ciências, da filosofia e do filósofo.
Platão começa por defender uma sólida formação básica que evolui até elevados estudos filosóficos, considerando que só indivíduos especialmente dotados poderiam chegar à filosofia.
Para se chegar a este nível de educação é necessário passar por um nível de formação básica, à qual terá dado o nome de educação preparatória. Esta terá por função desenvolver de forma harmoniosa o espírito e o corpo.
Segundo Platão, Atenas negligenciava a educação da juventude, desinteressava-se e deixava-a nas mãos dos particulares. O estado deveria preocupar com a formação daqueles que seriam os futuros cidadãos.
Para ele, a educação deveria tornar-se algo público, os mestres deveriam ser escolhidos pela cidade e controlados por magistrados especiais. Platão defendia ainda que a educação deveria ser igual para rapazes e raparigas, mas só até aos seis anos. A partir desta idade teriam mestres e classes diferentes.
Platão defendia que o ensino deveria durar 50 anos.Nos primeiros anos de vida, dos 3 aos 6 anos, as crianças deveriam participar em jogos educativos, em jardins especialmente concebidos para elas e sob atenta vigilância.
No entanto, para Platão, como para todos os gregos, a educação propriamente dita, só começaria aos 7 anos.
Como formação inicial, Platão conservou a antiga Paideia grega, escolha que se revestiu de enorme importância para o desenvolvimento da tradição clássica, permitindo a sua continuidade e o seu enriquecimento com a cultura filosófica.
A educação antiga da Grécia, era constituída por duas partes: gymnastiké (ginástica) para o corpo e mousiké para alma. Em relação à ginástica, Platão recrimina a função de competição que lhe fora atribuída ao longo dos tempos. Segundo ele, a ginástica deveria regressar à sua forma original, incidindo exclusivamente em exercícios de carácter militar, desempenhados tanto por rapazes como por raparigas, preparando-os para o combate. O seu programa de jogos incluia a luta, as corridas a pé, os combates de esgrima, os combates de infantaria pesada e de infantaria leve, o arremesso de flecha com arco, a funda, marcha e manobras tácticas, a prática do acampamento e a caça.
Esta preparação militar deveria ocorrer nos ginásios e nos estádios públicos, sob a direcção de monitores profissionais cujos honorários seriam pagos pelo Estado.
A ginástica seria iniciada neste nível mais elementar e continuaria até à idade adulta. A sua finalidade não era alcançar a força física de um atleta, mas contribuir para a formação do carácter e da personalidade. Platão considerava que os homens que se dedicavam exclusivamente à ginástica, acabavam por se tornar insensíveis à cultura e eram pouco mais do que selvagens.
Ainda em relação à ginástica, refira-se que Platão inclui nela todo o domínio da higiene, as indicações em relação ao regime de vida e especialmente ao regime alimentar, assunto intensamente tratado na literatura médica do tempo.
À ginástica Platão acrescentava ainda a dança, insistindo bastante na sua prática e ensino, pois considerava-a um meio de disciplinar a espontaneidade dos jovens, contribuindo para a disciplina moral.
No ciclo entre os 10 e os 13 anos, a criança deveria aprender a ler e a escrever, iniciando em seguida o estudo dos autores clássicos, integralmente ou em antologias (trechos escolhidos). Para além dos poetas, Platão defende também o estudo de autores em prosa.
Platão criticava o ensino dos poetas como Homero pois considerava que os mitos pervertiam a criança e não lhe ensinavam a virtude. Assim, para ele, as obras de poetas como Homero e Hesíodo davam uma ideia maliciosa das divindades. No período dos 13 aos 16 anos, a música ocupa um lugar de distinção. Para Platão a pessoa rectamente educada pela música, pelo facto de a assimilar espiritualmente, sente desabrochar dentro de si, desde a sua mocidade e numa fase ainda recuada do seu desenvolvimento, uma certeza infalível de satisfação pelo belo e de repugnância pelo feio, a qual o habilita mais tarde a saudar alegremente, como algo que lhe é afim, o conhecimento da verdade, quanto ele se apresentar.
A música contribui, assim, para a formação harmoniosa da alma. Segundo Platão, ela não abrange apenas o que se refere ao tom e ao ritmo, mas também, e até em primeiro lugar, a palavra falada, o logos.
O estudo das matemáticas foi sempre reservado a um grau superior do ensino. Para Platão, no entanto, as matemáticas deveriam encontrar o seu lugar em todos os níveis, começando pelo mais elementar, sendo aprofundada a partir dos 16 anos e prolongada nos estudos superiores.
Esta inovação de Platão inspira-se provavelmente nas práticas egípcias a que a ele teve acesso. Assim, à aritmética, acrescentou a prática dos exercícios de cálculo ligados a problemas concretos da vida e dos negócios. Estes primeiros exercícios possuíam já uma virtude formadora, sendo seu objectivo a aplicação da matemática à vida prática, à arte militar, ao comércio, à agricultura e à navegação.
Para além da geometria, a que dava a maior importância, Platão defende também o ensino uma ciência totalmente nova, a estereometria (cálculo do volume de sólidos). Prevê o estudo da astronomia que deveria permitir adquirir os conhecimentos mínimos para o uso do calendário. Segundo Platão, são precisamente as matemáticas que servem como meio de pôr à prova os espíritos mais aptos a tornarem-se um dia dignos da filosofia. Ao mesmo tempo que seleccionam os futuros filósofos, formam-nos e preparam-nos para os seus futuros trabalhos.
Aos 17 e aos 18 anos os estudos intelectuais interrompem-se por dois ou três anos porque aos jovens era imposto o serviço militar. Neste período, segundo Platão, a fadiga e o sono impedem qualquer estudo.
Aos 20 anos realiza-se uma selecção por meio da qual os menos dotados eram destinados ao exército; numa segunda selecção, levada a efeito mais tarde, a maioria dos jovens era encaminhada para diversas profissões e ofícios civis e só os mais dotados iniciariam os estudos superiores, mas não directamente para a filosofia. Durante ainda 10 anos, continuam o estudo das ciências, mas agora a um nível superior.
O programa é a aritmética, a astronomia e a música, a geometria (plana e no espaço). Todas estas ciências devem eliminar qualquer experiência prática tornando-se totalmente racionais, por exemplo, a astronomia deve ser uma ciência matemática e não uma ciência da observação.
As matemáticas são o instrumento da formação dos filósofos, que através dos problemas elementares de cálculo, devem ser encaminhados para um grau superior de abstracção. Platão diz que as matemáticas não devem preencher a memória com conhecimentos úteis, mas formar um espírito capaz de receber a verdade inteligível.
É interessante verificar que Platão não esquece o papel da educação literária, artística e física na personalidade e na harmonia do todo, mas este papel não tem comparação com o desempenho pela matemática na iniciação da cultura que leva à busca da verdade.
Somente aos 30 anos, no fim de um ciclo de matemáticas transcendentes e depois de um última selecção, se inicia o método propriamente filosófico, a dialéctica, discussão do problema do bem e do mal, do justo e do injusto, caminho para o conhecimento e a verdade.
Passados cinco anos os estudantes estarão na plena posse deste instrumento, o único que conduz à verdade. Os que chegarem a esta fase devem ser capazes de ultrapassar a percepção dos sentidos e penetrar o próprio Ser.
Durante quinze anos ainda, o homem já assim formado deve adquirir experiência participando na vida activa da cidade.
Aos cinquenta anos, estará completa a sua educação, se tiver sobrevivido e superado todas as provas. Ele reconhecerá a possibilidade de atingir a meta suprema que é a ideia do Bem. Poderá então exercer um cargo na direcção do estado, não como uma honra mas como um dever.
Este plano de Platão, que abarca a vida inteira, tem unicamente como objectivo formar um pequeno grupo de governantes - filósofos, aptos a tomar as rédeas do governo para o bem do estado.
Em suma, todo o sistema educativo de Platão se baseia na procura da Verdade cuja posse definirá o verdadeiro filósofo e também o verdadeiro político.
O curso de estudos, para Platão deveria ser de cinco períodos:
1º- dos 3 aos 6 anos:Prática do pentatlo (Nome colectivo de cinco exercícios que constituíam os jogos da Grécia, em que entravam os atletas: salto, carreira, luta, pugilato e disco. Dança e música para ambos os sexos).
2º- dos 7 aos 13 anos:Introdução paulatina da cultura intelectual e acentuação dos exercícios físicos. A partir dos 10 anos, aprendizagem da leitura e escrita e cálculo por processos práticos. Afasta-se assim dos costumes atenienses que começavam a educação intelectual antes dos 10anos.
3º- dos 13 aos 16 anos:Período da educação musical. O programa é dividido em duas secções: uma literária, compreendendo gramática e aritmética; outra musical, compreendendo poesia e música. Ensina-se a tocar a cítara e prefere-se a música dórica, enérgica e viril.
4º- dos 17 aos 20 anos:Período da educação militar. Os jovens deverão adquirir resistência e uma saúde a toda a prova. Será preciso harmonizar a música à ginástica, faziam-se os homens ferozes. Somente com a música, produzir-se-iam os afeminados.
5º- dos 21 anos em diante:Apenas os jovens mais capazes devem continuar a educação já com carácter superior e baseada nas Matemáticas e Filosofia. Entre eles, seleccionam-se os futuros governantes, prosseguindo sua educação até os 50 anos.
Essa educação pode ser distribuída da seguinte forma:· Dos 21 aos 30 anos: estuda-se com profundidade: aritmética, geometria e astronomia.· Dos 31 aos 35 anos: predomínio da formação filosófica e dialéctica, sem prejuízo dos estudos matemáticos.· Dos 35 aos 50 anos: O magistrado será incumbido de uma função pública e empregará os seus talentos para a prosperidade do Estado. Ninguém será admitido ao governo, antes dos 50 anos de idade.
Na sociedade que Platão idealizou existem três classes: a classe dos artífices e comerciantes, cuja virtude é a temperança; a classe dos guerreiros, cuja virtude é a coragem e a classe dos filósofos cuja virtude é a sabedoria. Se a classe dos filósofos governar, se a classe dos guerreiros se encarregar da defesa e a classe dos artífices e comerciantes mantiver as duas outras classes, existirá harmonia e equilíbrio e a justiça poderá ser alcançada.Na República e nas Leis, para além de desenhar o seu estado ideal, Platão também define o sistema educacional que o manterá, apresentando assim as suas ideias sobre a educação, o valor da poesia e da música, a utilidade das ciências, da filosofia e do filósofo.
Platão começa por defender uma sólida formação básica que evolui até elevados estudos filosóficos, considerando que só indivíduos especialmente dotados poderiam chegar à filosofia.
Para se chegar a este nível de educação é necessário passar por um nível de formação básica, à qual terá dado o nome de educação preparatória. Esta terá por função desenvolver de forma harmoniosa o espírito e o corpo.
Segundo Platão, Atenas negligenciava a educação da juventude, desinteressava-se e deixava-a nas mãos dos particulares. O estado deveria preocupar com a formação daqueles que seriam os futuros cidadãos.
Para ele, a educação deveria tornar-se algo público, os mestres deveriam ser escolhidos pela cidade e controlados por magistrados especiais. Platão defendia ainda que a educação deveria ser igual para rapazes e raparigas, mas só até aos seis anos. A partir desta idade teriam mestres e classes diferentes.
Platão defendia que o ensino deveria durar 50 anos.Nos primeiros anos de vida, dos 3 aos 6 anos, as crianças deveriam participar em jogos educativos, em jardins especialmente concebidos para elas e sob atenta vigilância.
No entanto, para Platão, como para todos os gregos, a educação propriamente dita, só começaria aos 7 anos.
Como formação inicial, Platão conservou a antiga Paideia grega, escolha que se revestiu de enorme importância para o desenvolvimento da tradição clássica, permitindo a sua continuidade e o seu enriquecimento com a cultura filosófica.
A educação antiga da Grécia, era constituída por duas partes: gymnastiké (ginástica) para o corpo e mousiké para alma. Em relação à ginástica, Platão recrimina a função de competição que lhe fora atribuída ao longo dos tempos. Segundo ele, a ginástica deveria regressar à sua forma original, incidindo exclusivamente em exercícios de carácter militar, desempenhados tanto por rapazes como por raparigas, preparando-os para o combate. O seu programa de jogos incluia a luta, as corridas a pé, os combates de esgrima, os combates de infantaria pesada e de infantaria leve, o arremesso de flecha com arco, a funda, marcha e manobras tácticas, a prática do acampamento e a caça.
Esta preparação militar deveria ocorrer nos ginásios e nos estádios públicos, sob a direcção de monitores profissionais cujos honorários seriam pagos pelo Estado.
A ginástica seria iniciada neste nível mais elementar e continuaria até à idade adulta. A sua finalidade não era alcançar a força física de um atleta, mas contribuir para a formação do carácter e da personalidade. Platão considerava que os homens que se dedicavam exclusivamente à ginástica, acabavam por se tornar insensíveis à cultura e eram pouco mais do que selvagens.
Ainda em relação à ginástica, refira-se que Platão inclui nela todo o domínio da higiene, as indicações em relação ao regime de vida e especialmente ao regime alimentar, assunto intensamente tratado na literatura médica do tempo.
À ginástica Platão acrescentava ainda a dança, insistindo bastante na sua prática e ensino, pois considerava-a um meio de disciplinar a espontaneidade dos jovens, contribuindo para a disciplina moral.
No ciclo entre os 10 e os 13 anos, a criança deveria aprender a ler e a escrever, iniciando em seguida o estudo dos autores clássicos, integralmente ou em antologias (trechos escolhidos). Para além dos poetas, Platão defende também o estudo de autores em prosa.
Platão criticava o ensino dos poetas como Homero pois considerava que os mitos pervertiam a criança e não lhe ensinavam a virtude. Assim, para ele, as obras de poetas como Homero e Hesíodo davam uma ideia maliciosa das divindades. No período dos 13 aos 16 anos, a música ocupa um lugar de distinção. Para Platão a pessoa rectamente educada pela música, pelo facto de a assimilar espiritualmente, sente desabrochar dentro de si, desde a sua mocidade e numa fase ainda recuada do seu desenvolvimento, uma certeza infalível de satisfação pelo belo e de repugnância pelo feio, a qual o habilita mais tarde a saudar alegremente, como algo que lhe é afim, o conhecimento da verdade, quanto ele se apresentar.
A música contribui, assim, para a formação harmoniosa da alma. Segundo Platão, ela não abrange apenas o que se refere ao tom e ao ritmo, mas também, e até em primeiro lugar, a palavra falada, o logos.
O estudo das matemáticas foi sempre reservado a um grau superior do ensino. Para Platão, no entanto, as matemáticas deveriam encontrar o seu lugar em todos os níveis, começando pelo mais elementar, sendo aprofundada a partir dos 16 anos e prolongada nos estudos superiores.
Esta inovação de Platão inspira-se provavelmente nas práticas egípcias a que a ele teve acesso. Assim, à aritmética, acrescentou a prática dos exercícios de cálculo ligados a problemas concretos da vida e dos negócios. Estes primeiros exercícios possuíam já uma virtude formadora, sendo seu objectivo a aplicação da matemática à vida prática, à arte militar, ao comércio, à agricultura e à navegação.
Para além da geometria, a que dava a maior importância, Platão defende também o ensino uma ciência totalmente nova, a estereometria (cálculo do volume de sólidos). Prevê o estudo da astronomia que deveria permitir adquirir os conhecimentos mínimos para o uso do calendário. Segundo Platão, são precisamente as matemáticas que servem como meio de pôr à prova os espíritos mais aptos a tornarem-se um dia dignos da filosofia. Ao mesmo tempo que seleccionam os futuros filósofos, formam-nos e preparam-nos para os seus futuros trabalhos.
Aos 17 e aos 18 anos os estudos intelectuais interrompem-se por dois ou três anos porque aos jovens era imposto o serviço militar. Neste período, segundo Platão, a fadiga e o sono impedem qualquer estudo.
Aos 20 anos realiza-se uma selecção por meio da qual os menos dotados eram destinados ao exército; numa segunda selecção, levada a efeito mais tarde, a maioria dos jovens era encaminhada para diversas profissões e ofícios civis e só os mais dotados iniciariam os estudos superiores, mas não directamente para a filosofia. Durante ainda 10 anos, continuam o estudo das ciências, mas agora a um nível superior.
O programa é a aritmética, a astronomia e a música, a geometria (plana e no espaço). Todas estas ciências devem eliminar qualquer experiência prática tornando-se totalmente racionais, por exemplo, a astronomia deve ser uma ciência matemática e não uma ciência da observação.
As matemáticas são o instrumento da formação dos filósofos, que através dos problemas elementares de cálculo, devem ser encaminhados para um grau superior de abstracção. Platão diz que as matemáticas não devem preencher a memória com conhecimentos úteis, mas formar um espírito capaz de receber a verdade inteligível.
É interessante verificar que Platão não esquece o papel da educação literária, artística e física na personalidade e na harmonia do todo, mas este papel não tem comparação com o desempenho pela matemática na iniciação da cultura que leva à busca da verdade.
Somente aos 30 anos, no fim de um ciclo de matemáticas transcendentes e depois de um última selecção, se inicia o método propriamente filosófico, a dialéctica, discussão do problema do bem e do mal, do justo e do injusto, caminho para o conhecimento e a verdade.
Passados cinco anos os estudantes estarão na plena posse deste instrumento, o único que conduz à verdade. Os que chegarem a esta fase devem ser capazes de ultrapassar a percepção dos sentidos e penetrar o próprio Ser.
Durante quinze anos ainda, o homem já assim formado deve adquirir experiência participando na vida activa da cidade.
Aos cinquenta anos, estará completa a sua educação, se tiver sobrevivido e superado todas as provas. Ele reconhecerá a possibilidade de atingir a meta suprema que é a ideia do Bem. Poderá então exercer um cargo na direcção do estado, não como uma honra mas como um dever.
Este plano de Platão, que abarca a vida inteira, tem unicamente como objectivo formar um pequeno grupo de governantes - filósofos, aptos a tomar as rédeas do governo para o bem do estado.
Em suma, todo o sistema educativo de Platão se baseia na procura da Verdade cuja posse definirá o verdadeiro filósofo e também o verdadeiro político.
O curso de estudos, para Platão deveria ser de cinco períodos:
1º- dos 3 aos 6 anos:Prática do pentatlo (Nome colectivo de cinco exercícios que constituíam os jogos da Grécia, em que entravam os atletas: salto, carreira, luta, pugilato e disco. Dança e música para ambos os sexos).
2º- dos 7 aos 13 anos:Introdução paulatina da cultura intelectual e acentuação dos exercícios físicos. A partir dos 10 anos, aprendizagem da leitura e escrita e cálculo por processos práticos. Afasta-se assim dos costumes atenienses que começavam a educação intelectual antes dos 10anos.
3º- dos 13 aos 16 anos:Período da educação musical. O programa é dividido em duas secções: uma literária, compreendendo gramática e aritmética; outra musical, compreendendo poesia e música. Ensina-se a tocar a cítara e prefere-se a música dórica, enérgica e viril.
4º- dos 17 aos 20 anos:Período da educação militar. Os jovens deverão adquirir resistência e uma saúde a toda a prova. Será preciso harmonizar a música à ginástica, faziam-se os homens ferozes. Somente com a música, produzir-se-iam os afeminados.
5º- dos 21 anos em diante:Apenas os jovens mais capazes devem continuar a educação já com carácter superior e baseada nas Matemáticas e Filosofia. Entre eles, seleccionam-se os futuros governantes, prosseguindo sua educação até os 50 anos.
Essa educação pode ser distribuída da seguinte forma:· Dos 21 aos 30 anos: estuda-se com profundidade: aritmética, geometria e astronomia.· Dos 31 aos 35 anos: predomínio da formação filosófica e dialéctica, sem prejuízo dos estudos matemáticos.· Dos 35 aos 50 anos: O magistrado será incumbido de uma função pública e empregará os seus talentos para a prosperidade do Estado. Ninguém será admitido ao governo, antes dos 50 anos de idade.
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Texto e imagem retirados de:http://www.beatrix.pro.br/educacao/platao.htm
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Universais
E. J. Lowe Universidade de Durham
Os universais são os hipotéticos referentes de termos gerais como "árvore", "mesa" e "vermelho", e consideramo-los entidades distintas de quaisquer das coisas particulares que podemos descrever com eles. Mas por que razão havemos de supor que tais entidades existem, e qual é a sua natureza, se é que existem realmente? Um dos argumentos tradicionais a favor da sua existência, que remonta a Platão, é que a sua existência é necessária para explicar por que razão todas as coisas que, digamos, são vermelhas, e apenas essas, podem ser correctamente descritas como vermelhas. É claro que todos estes objectos particulares devem possuir algo em comum para que possamos legitimamente classificá-los como idênticos — e o que é comum a todas as coisas vermelhas, e apenas a elas, é precisamente o universal vermelho. De acordo com a perspectiva "realista" tradicional, os objectos vermelhos são vermelhos em virtude da relação que mantêm com este universal. No entanto, se nos interrogarmos quanto à natureza desta relação e dos próprios universais, concluímos que os realistas se encontram divididos. Os "platónicos" sustentam que o universal vermelho possui uma existência não-espacio-temporal distinta de todas as coisas vermelhas que deve ser considerada em separado; nem é necessário que alguma dessas coisas particulares exista para que o universal exista. Os "aristotélicos", conversamente, defendem que a existência do universal vermelho é inseparável das coisas vermelhas particulares. A perspectiva platónica dá origem a dificuldades a respeito da relação existente entre os objectos vermelhos particulares e o universal vermelho, enquanto o ponto de vista aristotélico parece enfraquecer o sentido em que os universais são ditos "reais". Além disso, o argumento já mencionado a favor da existência de universais não é inteiramente convincente. O "conceptualismo" defende que as classificações que efectuamos dos objectos particulares segundo termos gerais são um produto de interesses humanos selectivos, e não o reflexo de qualquer verdade metafísica; por sua vez, os "nominalistas" defendem que as semelhanças existentes entre particulares é suficiente para justificar que lhes apliquemos o mesmo termo geral sem apelar a uma entidade adicional.
No entanto, o fracasso do argumento tradicional a favor do realismo e as dificuldades inerentes a certas posições realistas não são suficientes para rejeitar o realismo. Em anos recentes, foram propostos novos argumentos a favor do realismo que evocam os universais com o objectivo de explicar o estatuto das leis naturais bem como as generalizações causais que efectuamos. Filósofos como D. M. Armstrong afirmaram que a necessidade natural deve ser explicada como uma relação entre universais, e que apenas recorrendo a esta noção se torna possível estabelecer a distinção entre generalizações acidentais e generalizações baseadas numa lei. De acordo com esta perspectiva, não é necessário supor que qualquer termo geral dotado de sentido refere um universal dado apenas ser necessário admitir a existência daqueles universais que desempenham um papel nas leis científicas. A observação de Wittgenstein de que existem termos gerais como "jogo" para os quais é impossível isolar uma característica comum a todas as coisas a que o termo se aplica, não coloca dificuldades especiais a esta perspectiva.
Uma outra razão para que um realista não proceda indiscriminadamente a respeito de termos gerais é que esses termos recaem claramente sob diferentes categorias semânticas, e nem todas exigem ser tratadas de uma forma realista. Assim, dos termos gerais acima mencionados — "vermelho", "mesa" e "árvore" — apenas os dois últimos são termos categoriais, e destes, apenas o segundo diz respeito a uma categoria natural. Os termos categoriais distinguem-se dos termos gerais como "vermelho" pelo facto de fornecerem não apenas um critério para a sua aplicação como também um critério de identidade para os particulares a que se aplicam. Dado que os particulares não podem ser identificados excepto relativamente a uma classificação categorial apropriada, é argumentável que o realismo acerca de particulares exige o realismo acerca de pelo menos alguns universais, nomeadamente, aqueles universais que são a referência de categorias naturais bona fide.
E. J. LoweTradução de Paulo Ruas
Retirado de Crítica : http://criticanarede.com/fil_universais.html
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