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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sermão X - Maria Rosa Mística, de Padre António Vieira.

Edição de base:
Sermões Escolhidos, vol. III,
Edameris, São Paulo, 1965.

Beatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti
(I).
As coisas que se guardavam na Arca do Testamento. Se as Tábuas da Lei sempre se guardaram na Arca, o Maná, por que se não guardou sempre nela. A lei escrita, representação e figura do que depois havia de ser. A aparente sem-razão do Testamento Velho. O mistério da Arca declarado por uma mulherzinha do povo. Assunto: o Rosário, para ser bem rezado, não se há de rezar só com a boca, senão com o coração e com as mãos.



Sobre as coisas que se guardavam na Arca do Testamento, quais e quando, há grande questão entre os expositores sagrados. Três, porém, são certas, e de tão oculto mistério como de particular reparo. A primeira é que houve tempo em que na Arca do Testamento só estiveram as Tábuas da Lei, porque assim o diz expressamente o texto, no Terceiro Livro dos Reis. In arca autem non erat aliud nisi duae tabulae lapideae, quas posuerat Moyses
(2). - A segunda, que também houve tempo em que esteve na mesma Arca a urna do Maná, porque assim o afirma S. Paulo, na Epístola aos Hebreus: Arcam testamenti, in qua urna aurea habens manna (3). - A terceira, que depois deste tempo a mesma urna do Maná, que estava dentro da Arca, foi colocada fora, mas junto a ela, no Sancta Sanctorum, porque assim o tinha mandado Deus, como consta no Livro do Êxodo e que sempre estivesse em sua presença: Repone coram Domino (4).
Suposta esta verdade da História Sagrada, se passarmos a inquirir a razão e mistério dela, quem haverá que no-lo diga literalmente? Se as Tábuas da Lei sempre se guardaram na Arca, o maná por que não se guardou sempre nela? E se o maná esteve algum tempo dentro na mesma Arca, porque depois se tirou fora? E se esteve fora, por que não em outro lugar, nem longe, senão junto à mesma Arca? A razão e mistério literal desta tão notável variedade em matéria tão grande sempre esteve oculto até hoje. Hoje, porém, o descobriu e declarou, quem? Na parte que pertence ao mana, uma mulherzinha do povo, que não tinha mais ciência que a sua devoção, dizendo: Beatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti - e na parte que pertence às Tábuas da Lei, o mesmo Autor da Lei e a mesma Sabedoria eterna, respondendo: Quinimmo beati, qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud
(5).
Para inteligência do que digo, havemos de supor, com S. Paulo, que tudo o que sucedia, pela maior parte, ou se fazia no tempo dos patriarcas e da lei escrita, era representação e figura do que depois havia de ser no tempo da lei da graça: Haec autem omnia in figura contingebant illis
(6). Este é o princípio fundamental por que a muitas coisas daquele tempo não achamos a razão de a fazerem, antes parecem feitas contra toda a razão, ainda entre homens santos. E a razão de se lhes não achar razão é porque a razão da figura não está na figura, senão no figurado. Se víssemos que um pintor pintava um rei pastando entre os animais e comendo feno, e outro com o braço esquerdo muito curto, e o direito muito comprido, parecer-nos-ia isto uma grande impropriedade. Mas se o pintor nos respondesse que no primeiro retratava a Nabucodonosor, e no segundo a Artaxerxes, que pela desigualdade dos braços se chamou Longimano, acharíamos a razão da pintura, não nos retratos, senão nos retratados. Da mesma maneira em outros casos do Testamento Velho. Que coisa mais fora de razão que levar Jacó o morgado a Esaú, sendo Esaú o primogênito, e Jacó o filho segundo? E que maior sem-razão outra vez, que servir Jacó sete anos por Raquel, e darem-lhe em lugar de Raquel a Lia? Mas, se olharmos para os originais destas mesmas figuras, acharemos neles as razões que nelas de nenhum modo apareciam. Jacó e Lia representavam o povo gentílico. Esaú e Raquel o judaico. E levou Jacó o morgado a Esaú, porque ó morgado da fé e da graça, que era do povo judaico que foi o primeiro, se havia de passar ao povo gentílico, que é o segundo. E sendo Jacó figura de Cristo, que serviu pela sua Raquel, que era o povo judaico, como ele mesmo disse: Non sum missus nisi ad oves, quae perierunt domus Israel (7) - desposou-se primeiro com Lia, que é o povo gentílico, e depois se há de desposar também com Raquel, que é o povo judaico, porque como diz S. Paulo: Donec plenitudo gentium intraret, et sic omnis Israel salvus fieret (8).
Ao nosso ponto agora. Estar primeiro o maná dentro da Arca, e depois fora e junto a ela, ninguém houve jamais que desse ou pudesse dar a razão de uma mudança tão notável. Mas, se pusermos os olhos nos originais que estas duas figuras representavam, acharemos a razão tão clara, que uma mulher sem letras a entendeu e publicou ao mundo. A Arca do Testamento era figura da Virgem Maria; o maná, de seu Filho, Cristo: e primeiro esteve o maná dentro na Arca, porque primeiro o concebeu a Virgem, e o trouxe em suas entranhas: Beatus venter qui te portavit. - E depois esteve fora, mas não apartado, senão junto à mesma Arca, porque a Senhora o teve depois em seus braços, e o criou a seus peitos: Et ubera quae suxisti. - E por que razão as Tábuas da Lei sempre estiveram na Arca, assim quando o mana esteve dentro nela, como quando esteve fora? A razão e o mistério é porque a mesma Virgem Maria, significada na Arca, em todo o tempo de sua vida, ou tendo dentro em si, ou não tendo dentro em si ao Filho de Deus, sempre teve a lei do mesmo Deus dentro em si, e a guardou com a mais pura, com a mais perfeita e com a mais alta observância a que puderam aspirar homens nem anjos. E porque esta foi a maior e mais soberana prerrogativa da Virgem, Senhora nossa, por isso acudiu logo seu bendito Filho, declarando que, por ser a mais observante da Lei de Deus, era mais bem-aventurada ainda que por ser Mãe de Deus: Quinimmo beati, qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud.
Explicado assim o Evangelho, que direis sobre ele quanto à festa? O que determino dizer é que o Rosário, para ser bem rezado, não se há de rezar só com a boca, senão com o coração e com as mãos. O fundamento que para esta doutrina - mui necessária - nos dão as palavras do tema, dirá o discurso: Ave Maria.

§ II

A amorosa instrução de Deus a sua Mãe e a nossas almas: haveis-me de trazer estampado no coração e estampado no braço. Os dois modos com que a Virgem, Senhora nossa, trouxe a Deus interiormente no coração e nos afetos, e exteriormente nas mãos e nas obras.
Pone me ut signaculum super cor tuum, ut signaculum super brachium tuum
(9): Para me agradares inteiramente, Esposa minha - diz Deus - haveis-me de trazer estampado no coração, e estampado no braço. - Os lugares hão de ser dois, um dentro, outro fora, mas a estampa dentro e fora há de ser uma só, e essa minha. Eu estampado no coração, porque eu hei de ser o sigilo de vossos pensamentos, e eu estampado no braço, porque eu hei de ser o caráter de vossas obras: In corde sunt cogitationes, in brachio operationes: super cor ergo, et super brachium sponsae dilectus ut signaculum ponitur (10) - diz S. Gregório Papa. - Mas com quem fala Deus nestas palavras, e a quem dá o seu cuidado esta amorosa instrução? Em primeiro lugar a sua Mãe, em segundo a nossas almas. Antes de ser Mãe de Deus, e depois de ser Mãe de Deus, sernpre a Senhora trouxe ao mesmo Deus dentro e fora, no interior e no exterior, no coração e nos braços, mas por diferente modo. Antes de ser Mãe de Deus, porque quanto cuidava e obrava tudo era de Deus, em Deus e por Deus. Os pensamentos e obras do Filho antes de ser Filho, ainda não eram humanas; mas as da Mãe antes de ser Mãe, por imitação do mesmo Filho, já eram divinas: Super cor Virginis et super brachium dilectus ponitur ut signaculum - diz Alano - quia in cogitationibus, quae notantur per cor, et in actionibus, quae per brachium, Virgo Filium imitatur (11). - E se isto foi antes de ser Mãe de Deus, depois de o ser que seria? Foi o mesmo, mas por modo singularíssimo, nem imaginado antes, nem inimitável depois a nenhuma criatura. Teve a Deus dentro e no coração: Ut signaculum super cor tuum - porque o teve em suas entranhas: Beatus venter qui te portavit - e teve-o fora e no braço: Ut signaculum super brachium tuum - porque o teve em seus braços e a seus peitos: Et ubera quae suxisti. - Assim comenta o texto dos Cânticos, com devota e douta novidade, Cornélio, e o concorda excelentemente com o do nosso Evangelho: Beata Virgo Christum posuit super cor suum, cum eum novem mensibus in utero portavit; super brachium vero, cum eum jam natum in ulnis et brachiis gestavit (12).
Estes foram os dois modos com que a Virgem, Senhora nossa, como exemplar de toda a perfeição imitável, e como exceção de toda a possível, observou aquele oráculo do Espírito Santo, de quem foi a primeira e principal Esposa, trazendo a Deus no coração e no braço, e a Cristo dentro em si e fora, bem assim como a Arca do Testamento a urna do maná. Um modo foi espiritual, outro corporal, e o corporal, com assombro da natureza e da graça, mais divino que o espiritual. Trouxe a Deus corporalmente no coração e no braço: Super cor et super brachium - porque corporalmente o concebeu e teve em suas entranhas, e corporalmente o criou a seus peitos e o trouxe em seus braços; e esta é a primeira bem-aventurança da Virgem Maria, singular e unicamente sua, e a nenhuma outra criatura comunicável: Beatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti. - E trouxe a Deus espiritualmente no coração e no braço, porque espiritualmente, em todos seus pensamentos e afetos, e espiritualmente, em todas suas obras e ações, interior e exteriormente trouxe sempre a Deus em si e consigo, e esta é a segunda bem-aventurança na qual, posto que a Senhora foi eminentíssimamente superior a todas as almas, é contudo imitável e comunicável a todas, e a que o Senhor preferiu à primeira: Quinimmo beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud. - E como este segundo modo de trazer a Deus interiormente, no coração e nos afetos, e exteriormente, nas mãos e nas obras, é o que todos podemos e devemos imitar, este é o que a Senhora do Rosário propõe hoje, e ensina a todos os seus devotos, exortando-os, com seu exemplo, a que não só tragam o Rosário na boca, senão também no coração e nas mãos: no coração, imitando, do modo que pode ser, o ato de ter Cristo em suas entranhas: Beatus venter qui te portavit - e nas mãos, imitando do mesmo modo o ato de o ter nas suas, quando o criou a seus peitos: Et ubera quae suxisti.

§ III

Por que naquela instrução geral às almas devotas não faz Deus menção da boca? Profecia de Davi sobre as línguas enganosas. A visão dos vinte e quatro anciãos do Apocalipse. A oração das mãos no Salmo XLIV de Davi. Razão do nome Pro Rosis, dado pelo profeta a esse salmo. O Rosário, arco com que atiramos às nuvens as setas de nossas orações.
Para prova e entendimento deste ponto, tão importante e essencial à devoção do Rosário, o que noto, e é digno de grande reparo naquela instrução geral do Espírito Santo, é que só pede Deus às almas devotas que o tragam no coração e nas mãos, e não faz menção da boca: Pone me ut signaculum super cor tuum, ut signaculum super brachium tuum. - E não diz mais Davi, grande mestre da oração e da devoção? Diz que sempre trazia os louvores de Deus na boca: Semper laus ejus in ore meo
(13). - Pois, se Deus deseja, aconselha e pede às almas devotas que o tragam no coração e nas mãos, por e que lhes não diz também que o tragam na boca? Porque Deus naquelas palavras - como também a Senhora do Rosário hoje - não exorta a orar, mas ensina como se há de orar. Supõe que se ora e reza com a boca, e acrescenta que há de ser juntamente com o coração e mais com as mãos, porque, se o coração não forma as orações, e as mãos as não informam, se o coração as não forma com os afetos, e as mãos as não informam com as obras, por mais que a boca dê vozes, todas nos ouvidos de Deus são mudas. Assim o profetizou Davi de todas as línguas enganosas: Muta fiant labia dolosa (14) - mas, se as línguas enganosas tanto enganam e tanto falam, e são as que mais falam e as melhor ouvidas, quando, ou onde, ou diante de quem se cumpre esta profecia de que serão mudas? As línguas enganosas de que fala o profeta, como depois veremos, são as daqueles cujo coração e cujas mãos não dizem com o que a língua diz; e estas línguas, por mais que falem, e por mais bem faladas que sejam, para com Deus, a quem ninguém engana, são mudas. Só o coração e as mãos são as que dão voz à língua, e língua à oração diante de Deus.
Viu S. João no Apocalipse aqueles vinte e quatro anciãos que assistem ao trono de Deus, e diz que todos tinham nas mãos cítaras e redomas cheias de suavíssimos cheiros, e que deste modo se prestaram diante do Cordeiro, que é Cristo: Et viginti quatuor seniores ceciderunt coram Agno, habentes singuli citharas et phialas aureas plenas odoramentorum
(15). - Não sei se reparais nas mãos e nos instrumentos destes músicos do céu, e digo músicos, porque logo acrescenta o evangelista que cantavam uma letra nova: Et cantabant canticum novum (16). - Pois, se eles tinham as cítaras em uma mão, e as redomas na outra: Habentes citharas et phialas - como podiam tocar as cítaras? Saibamos primeiro quais eram as redomas, e elas nos soltarão a dificuldade, que não está mal argüida. Ruperto, Beda, Ansberto, Ricardo, Vitorino, Hugo Cardeal, Dionísio Cartusiano, a Glosa, e todos concordemente dizem que as redomas são os corações. E ainda que os corações estejam nas mãos, nem por isso as mãos deixam de tocar as cítaras; antes, quando as mãos e os corações juntamente as tocam, só então são as suas vozes agradáveis a Deus, porque desacompanhadas dos corações e das mãos, nem são agradáveis, nem têm consonância, nem são vozes. Serão vozes para os ouvidos humanos, mas para os divinos não são orações. O mesmo texto o declara admiravelmente: Habentes citharas et phialas plenas odoramentorum, quae sunt orationes sanctorum (Apc 5, 8 ): Tinham - diz - em umas mãos as cítaras e nas outras as redomas cheias dos suaves cheiros, que são as orações dos santos. - De sorte que as orações não estavam nas cítaras, senão nas redomas, porque a oração não consiste no som e nas vozes, senão nos corações e nas mãos em que as redomas estavam.
E, suposto que a réplica do oráculo de Salomão, Super cor et super brachium - foi o texto de seu pai, Davi, Semper laus ejus in ore meo - diga-nos o mesmo Davi se a sua oração, quando orava, era só de boca, ou de boca, de coração e de mãos. É texto que tem que entender, mas, bem entendido, admirável: Eructavit cor meum verbum bonum, dico ego opera mea regi. Lingua mea calamus scribae (Sl 44, 2): Saiu do meu coração com grande ímpeto uma palavra boa: eu digo a Deus as minhas obras; a minha língua é pena de quem escreve. - E que quer tudo isto dizer? Nem mais nem menos o que eu vou dizendo. Primeiramente, a matéria de que fala, e a que chama palavra boa, é o Salmo quarenta e quatro, cujo prólogo ou dedicatória a Deus é este primeiro verso. Diz, pois, Davi que tudo o que representa a Deus naquela sua oração são palavras boas: Verbum bonum - e acrescenta que todas lhe saíram do coração: Eructavit cor meum - e do coração, não de qualquer modo, fria ou negligentemente, senão com grande ímpeto e afeto, que isso quer dizer eructavit. - E já temos que as palavras com que Davi orava a Deus, não só eram de boca, senão de boca e de coração. Mas estas mesmas palavras boas, e saídas do coração quando Davi fala com Deus, não diz que são palavras, senão obras: Dico ego opera mea regi. - Pois, se já lhe tinha chamado palavras, como agora lhe chama obras? - Porque a minha língua, diz ele, é pena de quem escreve: Lingua mea calamus scribae. - Não se pudera declarar melhor nem mais discretamente. A pena é a língua das mãos, e assim como a língua da boca fala palavras, a língua das mãos fala obras: Dico ego opera mea. - De maneira que, ajuntando toda esta sentença, que parecia tão desatada, o que nos ensina Davi, com o exemplo da sua oração, é que quando oramos a Deus não basta que as palavras sejam boas e santas: Verbum bonum - nem basta que quando as pronunciamos falemos com Deus: Dico ego opera mea regi - mas é necessário que não só saiam da boca, senão do coração: Eructavit cor meum - nem só do coração, senão também das mãos. Lingua mea calamus scribae - e que o saírem do coração se prove com os afetos: Eructavi - e o saírem das mãos se prove com as obras: Opera mea.
Este é o modo com que digo, ou nos diz e ensina a Virgem, Senhora nossa, que havemos de rezar o seu Rosário: não com a boca somente, senão com o coração e com as mãos. E para que vejamos que o salmo de Davi, que acabo de explicar, fala com os professores do Rosário própria nomeadamente, leiamos-lhe o título ou sobrescrito, que é milagroso. O título deste salmo quarenta e quatro, na língua hebraica, em que foi escrito, é Susanim, que quer dizer: Pro rosis, para as rosas. E que tem este salmo com as rosas, ou as rosas com este salmo? Agora o veremos. Davi, quando compunha os seus salmos, conforme a composição e matéria deles, ordenava juntamente quais eram os instrumentos a que se haviam de cantar. Assim consta do título de muitos outros. E segundo este uso dizem graves expositores, e de grande erudição, como Mariana e Tirino, que a razão de dar Davi tal título a este salmo foi porque o nome do instrumento a que se havia de cantar era derivado de rosas, assim como as contas por onde rezamos se chamam Rosário. Pode haver maior propriedade? Pois ainda tem outra maior, porque a matéria e assunto de todo o salmo, não alegórica, senão literalmente, como dizem todos os doutores católicos e o confessam os mesmos rabinos é um epitalâmio ou poema nupcial do futuro rei Messias, que é Cristo, e da Rainha, sua esposa, que é a Virgem Maria. A primeira parte, que começa: Speciosus forma prae filiis hominum
(17) - contém os mistérios do Filho Deus feito homem; a segunda, que começa: Astitit regina a dextris tuis (18) - contém os mesmos mistérios, em que a Mãe Santíssima lhe foi sempre inseparável companheira, e por isso comuns a ambos. E porque estes mistérios são os mesmos de que se compõe o Rosário, esta foi a razão por que o salmo em que se profetizavam se mandou também cantar profeticamente, não a outro instrumento, senão aquele que se chamava das rosas: Pro rosis.
O que agora resta é que todos os devotos do Rosário se conformem com esta profecia em o trazer, não só na boca, senão no coração e nas mãos. A íris, ou arco celeste, com as três cores misteriosas que nele pintam e distinguem os reflexos do sol, já dissemos noutra ocasião que era figura do Rosário; agora nos ensina a Senhora como havemos de usar deste arco, para que as setas de nossas orações rompam as nuvens, penetrem os céus, e firam o coração de Deus. Notou engenhosamente Santo Ambrósio que o arco celeste não foi feito para Deus atirar setas aos homens, porque no tal caso havia de ter as pontas voltadas para o céu; mas tem as pontas voltadas para a terra, porque foi feito para os homens atirarem setas a Deus. Porém, isto não o podiam os homens fazer, nem no primeiro, nem no segundo estado do mundo, porque o arco não tinha corda. E quando a teve? Quando se deu princípio aos mistérios do Rosário no primeiro de todos, que foi a Encarnação do Verbo. As duas pontas do arco eram a divindade e a humanidade, e a união hipostática foi a corda que atou uma ponta com a outra. Armado assim este fortíssimo arco, formado dos mistérios de Cristo, divinos juntamente e humanos, que são os mesmos do Rosário, as setas, que são as orações vocais, como se hão de atirar? Hão-se de atirar como se atiram as setas. As antigas amazonas, cujas armas eram arco e aljava, para poderem atirar mais forte, e mais expeditamente as suas setas, cortavam os peitos direitos. Tanto importa para a força e impulso do tiro que entre o peito e a mão não haja impedimento, mas se ajuntem e unam. Pois, assim como a seta para adquirir violência há de sair da mão e do peito, assim o coração e as mãos são as que dão o impulso às nossas orações, que doutro modo não teriam força. Mas, para que buscamos semelhanças ou exemplos estranhos? O mesmo uso cristão, muito diverso do modo com que oravam os antigos, nos ensina praticamente estes dois preceitos ou segredos da arte de orar. Que fazemos quando oramos, se queremos orar devota e eficazmente? Não levantamos as mãos ao céu? Não as aplicamos ao peito? Não as pomos sobre o coração? E se a dor, ou a necessidade, ou a devoção é muita, não apertamos o mesmo coração com elas? Pois, isto que fazemos no exterior, é o que havemos de obrar interiormente quando oramos, não orando só com a boca, mas ajudando e acompanhando as nossas orações com o coração e com as mãos, e não só com o coração, ou só com as mãos, senão com o coração e com as mãos juntamente. Com o coração, isto é super cor, e nos afetos, imitando a Virgem Maria quando trouxe a Cristo em suas entranhas: Beatus venter qui te portavit - e com as mãos, isto é, super brachium, e nas obras, imitando a mesma Senhora quando o teve em seus braços e a seus peitos: Et ubera quae suxisti.

§ IV

O que pregou o profeta Jeremias à triste cidade de Jerusalém, quando chorava suas calamidades. Os dois impedimentos certos por que os rezadores não são ouvidos: ou porque estão longe de Deus, ou porque, como mudos, só movem os beiços. Quais são os Monges de Deus? Os dois instrumentos de falar do homem: a língua e o coração. Os homens de dois corações.
Isto é, devotos do Rosário, o que deverão fazer todos os professores deste santíssimo instituto; mas a causa de muitos o exercitarem com pouco fruto, muito temo que seja porque oram só com a boca, sem coração e sem mãos. Isto mesmo que eu tenho pregado, e pelos mesmos termos, pregou o profeta Jeremias à triste cidade de Jerusalém, quando chorava suas calamidades: Consurge, lauda, surge, ora et obsecra - lê o hebreu - effunde sicut aquam cor tuum ante conspectum Domini; leva ad eum manus tuas pro anima parvulorum tuorum
(19): Ora, Jerusalém, a Deus - diz o profeta - e ora com o coração e com as mãos: com o coração prostrado por terra e com as mãos levantadas ao céu. Effunde cor tuum et leva manus tuas - e deste modo, e nesta postura, que é a mais própria para mover as entranhas de Deus, roga à sua - divina misericórdia se compadeça da miséria de teus filho. Assim o pregou o profeta, e o persuadiu em parte, mas com pouco ou nenhum fruto, e sem remédio. Por quê? Porque, ainda que faziam sacrifícios e orações a Deus, os corações e as mãos não estavam com ele. Ouçamos primeiro as queixas dos corações, e logo ouviremos as das mãos.
Populus hic labiis me honorat: cor autem eorum longe est a me
(20). - Estas palavras disse antigamente Deus ao povo de Israel, por boca do profeta Isaías (21), e depois as repetiu Cristo por sua sagrada boca ao mesmo povo, e hoje, entre os cristãos, faz de nós a mesma queixa, e com maior razão. - Este povo - diz - louva-me com a boca, mas o seu coração está muito longe de mim. - Quem cuidara que da boca ao coração havia tão grandes distâncias! Deus está em toda a parte, e, se os corações destes que louvavam a Deus só com a boca, estavam longe de Deus, onde estariam? Ubi eras cum me laudarent astra matutina, et jubilarent omnes Filii Dei (22)? - Quando os outros que louvam a Deus com a boca e com o coração estão entre os coros dos anjos: Cum quibus et nestras voces (23) - tu, que verdadeiramente o não louvas, e só falas com a boca, onde tens o coração? - Boa pergunta era esta para a fazerem a si mesmos, não os devotos, mas os rezadores do Rosário. Homem, que com o Padre-nosso e a Ave-Maria na boca, tão divertidos trazes os pensamentos, e mais divertidos os afetos, por onde anda o teu coração no mesmo tempo? É certo que anda lá por onde andava o Filho Pródigo, pastoreando pode ser o mesmo gado, e sem dúvida outro ou outros tão poucos limpos como ele. Quando o Pródigo saiu da casa do pai, diz a sua história que foi para uma região muito longe: In regionem longinquam (Lc 15, 13) - E que região e que longe é este? O pai é Deus, o Pródigo são os que têm perdido ou esperdiçado a sua graça, a região muito longe são as cidades, ou os desertos, ou os jardins, ou os bosques, ou os montes, ou os mares, ou os horizontes remotíssimos por onde, segundo as diversas inclinações e afetos, trazem divertido o coração do homem os vícios e os pecados, que só são os longes de Deus, e infinitamente longes. E como os corações estão tão longe, esta é a primeira causa por que as vozes da boca não são ouvidas, e vemos tão pouco aproveitados os que assim rezam.
A segunda causa é porque, ainda que a boca fala, e parece que fala com Deus, se o coração está longe dele, também está mudo. Mudo e longe, vede como será ouvido? Quam multi sonant voce, et corde muti sunt: Quantos há que soam com a voz, mas com o coração estão mudos - diz Santo Agostinho. - E notai que não diz o maior doutor da Igreja que estes tais falam com a voz, senão que soam: Voce sonant. - Entre o falar e o soar há grande diferença. O falar é próprio e natural do homem, o soar - como balar e mugir - dos brutos. E é lástima grande, que o rezar e orar de muitos, por ser só de boca, sem coração, seja tão alheio de todo o racional humano, que mais se pareça com o soar dos brutos que com o falar dos homens. Os homens, não só têm obrigação, por lei da natureza, de falar como homens, mas podem falar como anjos e como Deus. Como anjos, diz S. Paulo: Si linguis hominum loquar, et angelorum
(24) - como Deus, diz S. Pedro: Si quis loquitur, quasi sermones Dei (25). - E há alguns homens que sejam também obrigados a falar como anjos, e como Deus? Se alguns há, são os que professam rezar o Rosário, porque a Ave Maria, pronunciada por S. Gabriel, são palavras de anjos, e o Padre-nosso, composto e ensinado por Cristo, são palavras de Deus. E homens que deveram falar como anjos e como Deus, que não cheguem a falar sequer como homens, porque as suas vozes são só de boca, e não de coração! Lástima é outra vez, não só grande, mas indigna da fé e da mesma natureza. Por isso Deus os não ouve, conclui o mesmo Santo Agostinho, e dá a razão: Quia ad cor hominis aures Dei, sicut aures corporales ad os hominis: Porque, assim como para os ouvidos dos homens se fizeram as vozes da boca, assim para os ouvidos de Deus as do coração. - Como o homem é corporal e espiritual juntamente, assim como Deus lhe deu dois instrumentos de ver, que são os olhos e o entendimento, assim o proveu também de dois instrumentos de falar, que são a língua e o coração: a língua para falar com os homens, e o coração narra falar com Deus. Essa é a discreta energia com que Davi repetia a Deus o que lhe tinha dito: Tibi dixit cor meum (26). - Não diz: Eu, Senhor, vos disse - senão: O meu coração vos disse: Tibi dixit cor meum - porque a Deus só o coração diz, e com Deus só coração fala. E como o coração é o instrumento e a língua de falar com Deus, assim como os homens só ouvem o que diz a língua, e não entendem o que diz o coração, assim Deus só ouve o que diz o coração, e não atende ao que diz a língua. Daqui vem que, se o coração não fala, ainda que o homem diga cento e cinqüenta vezes a mesma coisa, como diz quando reza o Rosário para com Deus não diz palavra, e verdadeiramente está mudo: Voce sonant, corde muti sunt (27). - E estes são os dois impedimentos certos por que os que chamei rezadores não são ouvidos. Uma vez, porque estão mudos, e como mudos só movem os beiços: Populus hic labiis me honorat (28) - e outra vez porque estão longe e muito longe de Deus: Cor autem eorum longe est a me (29).
Alegam, porém, ou podem alegar os que assim rezam que, ainda que os seus corações estejam longe de Deus, porque são pecadores, e o não amam de todo coração como deveram, contudo não rezam sem coração - porque nós - dizem - temos muito no coração a devoção da Virgem Santíssima e seu bendito Filho, e, senão com todo, ao menos com muito bom coração nos recomendamos em sua graça, e esperamos seus divinos favores. Assim o entendem e dizem, e deste seu dizer se segue que estes devotos do Rosário têm dois corações, como aqueles de quem disse o profeta: In corde et corde locuti sunt
(30) um coração que está longe, outro que está perto; um coração mudo, outro que fala; um coração que ofende a Deus, outro que se encomenda a ele. E que direi eu a esta réplica? Refere Plínio que as pombas de Paflagônia têm dois corações, e o profeta Oséias, falando da sua terra, faz menção de pombas sem coração: Quasi columba seducta non habens cor (31). - E na dúvida de dois corações, eu antes quisera homens sem coração que com dois, porque quem não tem coração não tem afeto, e quem tem dois corações pode ter afetos encontrados. Quem não tem afeto, nem obriga, nem ofende; quem tem os afeto encontrados, ofende e desfaz com um o que obriga com o outro. E tais são os afetos daqueles que, confessando têm o coração longe de Deus, dizem, contudo, que quando rezam ou oram o fazem com muito bom coração. Mas diga-nos o mesmo Deus, e ouçamos de sua boca a resposta desta mesma instância.
Primeiramente, Deus, que formou o homem, e lhe sabe melhor a anatomia, não admite nele mais que um só coração, e por isso diz: Cor autem eorum longe est a me
(32). - Admitindo, porém, a suposição dos dois corações, que os homens inventaram distinguem um do outro, não no mesmo, senão em diferentes sujeitos desta maneira : In ore fatuorum cor illorum, et in corde sapientium os illorum (Eclo 21, 29): Os néscios - diz Deus - tem o coração na boca, e os sábios têm a boca no coração. - Não se pudera distinguir nem declarar melhor a diferença dos que oram de um e outro modo. Os que oram com o coração na boca são os néscios, os que oram com a boca no coração os sábios. Os primeiros, néscios, porque toda a força das suas orações está na boca e nas palavras; os segundos, sábios, porque toda lhe sai do coração, e toda a põem nos afetos. Por isso estas orações são as ouvidas, e aquelas não: Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui (Sl 36, 4): Ponde os vossos afetos em Deus, e dar-vos-á as petições do vosso coração. - Do vosso coração - diz Davi - e não da vossa boca. Aos que oram e pedem com o coração ouve e despacha Deus suas petições, porque os seus afetos estão nele. E os que oram e pedem só com a boca saem escusados e sem despacho, porque os que haviam de ser afetos são somente palavras: Populus hic labiis me honorati - e porque saem só da boca, e não do coração: Cor autem eorum longe est a me (33).

§ V
A oração desacompanhada e desassistida das mãos. O prodígio admirável da oração de Moisés em nascer dos exércitos de Josué. A vara de Deus levada por Moisés ao monte, figura do Rosário. A pureza das mãos na carta de S. Paulo a Timóteo. Qual era o incenso de que falam Davi e Isaías. As timiamas oferecidas com mãos infeccionadas e impuras. O sangue que contamina as mãos.
Tão justamente se queixa Deus de faltar às nossas orações a doce assistência do coração. Agora veremos se é igualmente justificada a sua queixa por lhe faltar a forte companhia das mãos. Quando Josué, na jornada do deserto, se pôs em campo contra o poder de Amalec, que impedia aos filhos de Israel o caminho da Terra de Promissão, subiu-se também Moisés a um monte, para dali encomendar o sucesso da batalha ao Senhor dos exércitos, sem cujo favor não há vitória. Orava o grande profeta com as mãos levantadas ao céu, as quais, porém, pesadas com a carga dos anos, desfaleciam pouco a pouco, até que outra vez as tornava a levantar; e aqui sucedeu um prodígio admirável, porque neste subir e descer das mãos de Moisés - como se elas foram o compasso das armas entre um e outro exército - quando se levantavam prevalecia Josué contra Amalec, e quando se abaixavam, ou descaíam, prevalecia Amalec contra Josué: Cumque levaret Moyses manus vincebat Israel: sin autem paululum remisisset, superabat Amalec
(34). - Agora pergunto: e quando as mãos de Moisés caíam, afrouxava ele também o arco da oração, e cessava totalmente de orar, ou orava menos intensamente? De nenhum modo. Sempre continuava e perseverava na oração com a mesma eficácia e com a mesma instância; antes, naturalmente, quando via do monte prevalecer o inimigo, então orava e implorava o socorro de Deus com maior aperto. Pois, se na oração não havia mudança antes crescia e se afervorava mais ardentemente, por que não seguiam os efeitos as instâncias da oração, senão os movimentos das mãos? Porque tanto importa que as mãos acompanhem a oração. A oração desacompanhada e desassistida das mãos, ainda que seja a de Moisés, não consegue o que pretende, antes tem os efeitos contrários. Vede agora que fruto se pode esperar do Rosário rezado sem mãos. Mas ainda não esta ponderada a maior circunstância do caso.
Quando Moisés disse a Josué que saísse a pelejar contra Amalec, o que acrescentou foi que ele subiria a orar ao monte, levando consigo a vara de Deus: Egressus, pugna contra Amalec: cras ego stabo in vertice collis, habens virgam Dei in manu mea
(35). - Isto disse Moisés a Josué e a todo o exército, para os animar à batalha, e certamente não podia haver motivo de confiança que maiores espíritos lhes infundisse e maior valor lhes metesse nos corações, pois aquela vara era a mesma que no princípio da mesma jornada tinha desbaratado e vencido, com tantos prodígios, os exércitos de Faraó, e seus carros, e todo o poder do Egito, muito superior ao de Amalec. Mas quem era estava nomeadamente chamada no caso presente, não vara de Moisés ou Arão, senão vara de Deus: Habens virgam Dei in manu mea? Esta vara de Deus era a Mãe do mesmo Deus, a Virgem, Senhora nossa, como o mesmo Deus depois declarou por boca de Salomão, dizendo: Equitatui meo in curribus Pharaonis assimilavi te, amica mea (36). - Assim entendem literalmente este texto Ruperto, S. Boaventura, S. Pedro Damião, S. Efrém, e outros padres. Pois, se aquela oração, não só era de Moisés, senão assistida e patrocinada da poderosíssima proteção e amparo da Virgem Maria, como não bastou tudo isto para que suprisse a falta das mãos de Moisés quando afrouxavam ou descaiam? Oh! grande desengano e exemplo para os que rezam o Rosário sem mãos! Rezam sem mãos, e toda a sua confiança põem em que o mesmo Rosário é da Mãe de Deus, que tudo pode, e enganam-se muito enganados. Se as mãos de Moisés não acompanhar a sua oração levantadas, mas a desamparam caídas, por mais que tenha consigo a vara de Deus, nem Deus ouvirá a oração de Moisés, nem a vara dará vitória a Josué, mas vencerá e prevalecerá Amalec: Cum paululum remisisset manus superabat Amalec (37).
E que mãos levantadas são estas, de que tanto depende a oração? Santo Agostinho o disse e em três lugares: basta que refiramos um: Per manus debemus opera accipere. Et quis bene manus levat? Ille utique qui implet illud Apostoli: levantes manus puras: Assim como no coração dissemos que se entendem os afetos, assim nas mãos - diz o santo - se entendem as obras. E que obras? Aquelas das quais diz o apóstolo S. Paulo, que, quando oramos a Deus, levantemos as mãos puras. - Suposto que Santo Agostinho se refere, e nos remete a S. Paulo, fui buscar o texto, que é da primeira Epístola a Timóteo, e confesso que, quando o li, fiquei tremendo. Oh! quantos são os que rezam o Rosário, e quão poucos os que oram a Deus como devem! Exorta ali S. Paulo a todos, assim homens como mulheres - uns e outros nomeadamente - que façam instante oração a Deus com as mãos levantadas, advertindo, porém, e recomendando muito que sejam puras: Levantes puras manus
(38). - E para serem puras as mãos dos que oram, que será necessário? Não declara o Apóstolo o que é necessário para serem puras, mas declara muito expressamente o que basta para o não serem. Isto é o que me fez tremer, e deve confundir a todos os que porventura têm em mui diferente conta as suas contas. Vai o texto: Volo ergo viros orare in omni loco, levantes puras manus sine ira et disceptatione. Similiter et mulieres in habitu ornato, cum verecundia et sobrietate ornantes se, et non in tortis crinibus, aut auro, aut margaritis, vel veste pretiosa, sed quod decet mulieres promittentes pietatem per opera bona (1 Tim 8, ss): Quero - diz S. Paulo e eu vou construíndo as suas palavras uma por uma ao pé da letra - quero que os homens orem em todo o lugar sem ira, nem contenda; e que do mesmo modo orem as mulheres, vestidas honestamente, e com sobriedade - o cum verecundia entendam-no em latim - e que não usem de cabelos torcidos com artifício, nem de ouro, nem de jóias, nem de vestiduras preciosas, como é decente a mulheres que prometem piedade e boas obras. - Pois isto é, Apóstolo sagrado, cuja pena quando escrevia era movida e governada pelo Espírito Santo, isto é o que basta para as mãos que acompanham a oração não serem puras? Isto, e não diz mais. Eu cuidava que, falando S. Paulo dos homens, trouxesse aqui os homicídios, os roubos, os adultérios, e os outros pecados da primeira plana, e só fala na ira, nas contendas e emulações que pode haver sobre os lugares. E estes os defeitos, posto que tão ordinários, e que no conceito comum do mundo ofendem levemente a humildade e caridade, estes diz que bastam para impedir os efeitos da oração, e para que sejam impuras, nos olhos de Deus, as mãos que levantamos ao céu quando assim oramos. Também cuidava que, falando nas mulheres, trouxesse outros desmanchos de maior escândalo, e mais alheios da sujeição e recolhimento daquele estado, e só fala nas galas, no ouro, nas jóias e nos enfeites da cabeça. E, posto que estes cuidados, como o mesmo apóstolo diz, não prometam muito siso nem muita piedade, e o uso lhes tem concedido tais privilégios, que mais escrúpulos causam à inveja que à consciência, contudo torna a insistir S. Paulo, com a mesma asseveração, que as mãos que nestas vaidades se ocupam verdadeiramente são impuras, e que as orações que pretendem subir ao céu oferecidas por tais mãos, de nenhum modo chegam lá, nem as admite Deus. Vejam agora cada um e cada uma das que rezam o Rosário se são mais puras e inocentes as mãos por onde o passam todos os dias.
E se estas impurezas de mãos, que parecem veniais, tanto ofendem a Deus e o desagradam, que serão as de outro peso tão diferente, que S. Paulo não nomeou, nem elas têm nome! Ouçamos aos dois profetas maiores, Davi e Isaías, que, com vozes ao parecer encontradas, maravilhosamente apertam este ponto e apuram esta impureza. Davi o que desejava e pedia para sua oração é que ela subisse ao conspecto divino como incenso: Dirigatur, Domine, oratio mea sicut incensum in conspectu tuo
(39). - Pelo contrário, Isaías, em nome do mesmo Deus, protestava que o incenso para ele era abominação: Incensum abominatio est mihi (40). - Pois, se Davi, para que a sua oração fosse agradável a Deus, desejava que subisse como incenso, como diz Isaías que o incenso que se oferecia a Deus lhe era abominável? Ainda creio que não percebeis perfeitamente a energia e força de um e outro dito, porque poucos estareis bem informados de qual era o incenso de que ambos falam. Aquele incenso não era o que entre nós tem o mesmo nome, e na língua latina se chama thus, mas era uma confecção preciosíssima de todas as espécies aromáticas mas esquisitas, a qual ardia e se exalava em suavíssimos vapores diante de Deus, e no altar chamado das timiamas se queimava e oferecia por mãos dos sacerdotes. Pois, se esta timiama - a qual também tinha sido instituída por Deus, com cláusula de que no seu templo fosse rito sempiterno - se era, digo, de tanto preço, de tanta suavidade e fragrância, e tão aceita e agradável à divina Majestade que não desejava Davi outra maior aceitação para suas orações, porque o detestava Deus, e abominava com tal extremo, que não só lhe chama abominável, senão a mesma abominação: Incensum abominatio est mihi (Is 1, 13)? - Não dissemos já que este incenso ou timiama era oferecido por mãos dos ministros do Templo? Pois esta era a causa de Deus o abominar tanto. Estes ministros, no tempo de Isaías, eram homens de muito má vida, avarentos, ambiciosos, soberbos, hipócritas, sacrílegos. E, posto que as espécies aromáticas de que era composto o incenso, fossem muito cheirosas em si, e de grande suavidade, contudo eram aborrecidas e abominadas de Deus, porque lhe cheiravam às mãos dos que as ofereciam. Não basta que as timiamas, os incensos e as orações sejam por si mesmas muito gratas a Deus, se as mãos que as oferecem forem viciosas, infeccionadas e impuras: Sicut in coronis non satis est flores esse puros, nisi pura sit et manus eos contexens (41) - diz S. João Crisóstomo. E isto é que acontece às orações do Rosário, posto que as suas rosas sejam do cheiro mais celestial e divino. As espécies de que se compõe a confecção do Rosário são aquelas que nomeia, e de que se nomeia a mesma Senhora: Sicut cinnamomum et balsamum aromatizans odorem dedi, quasi myrrha electa dedi suavitatem odoris (42). - O cinamomo são os mistérios gozosos; a mirra os dolorosos, o bálssamo os gloriosos, e, sendo esta timiama a mais preciosa e odorífera que pode inventar a sabedoria divina, se, contudo, for oferecida a Deus por mãos infeccionadas com vícios e pecados, de nenhum modo lhe será aceita e agradável, senão aborrecida e abominada, porque cheirará às mãos que a ofereceram.
E porque a metáfora do incenso ou timiama não faça dúvida, o mesmo Deus no mesmo lugar se declarou, como se falara conosco, pelo próprio expresso nome de orações, e pelo próprio e expresso de mãos infeccionadas: Cum extenderitis manus vestras, avertam oculos meos a vobis; et cum multiplicaveritis orationem, non exaudiam (Is 1, 15): Quando levantardes as mãos a mim - diz Deus - eu voltarei o rosto, e apartarei os olhos de vós; e quando não fizerdes as vossas orações, por mais que as multipliqueis, não vos hei de ouvir. - E por que causa, Senhor, ou por que causas - que não podem deixar de ser muitas e grandes - um rigor tão extraordinário e tão alheio de vossa piedade infinita? Manus enim vestrae sanguine plenae sunt (Is 1, 15): Porque as vossas mãos estão cheias de sangue. - Acaba de dizer que não há de ouvir suas orações, e não põe o defeito nas orações, senão nas mãos. Não por que as vossas orações não sejam boas, pias e santas, mas porque as vossas mãos estão contaminadas de suas próprias obras, e cheias de sangue. Vejam agora lá muitos dos que trazem o Rosário nas mãos e os mais poderosos - se é que o rezam - e, olhando para as suas mãos, examinem bem se pode Deus formar contra elas um semelhante libelo: Manus enim vestrae sanguine plenae sunt: Porque as vossas mãos estão cheias de sangue. - E de que sangue? Do sangue da vingança pública ou secreta; do sangue que derramou a espada ou a pena; do sangue que ainda vive dentro das veias, e já está destinado a correr delas; do sangue dos pobres, do sangue dos inocentes, do sangue dos que não têm quem os defenda; do sangue de tantos mártires quantos a vossa potência, quantos a vossa soberba, quantos a vossa cobiça, quantos a vossa crueldade, quantos a vossa pouca fé, em comum e em particular, tem tiranizado e tiraniza. E cuidais que o Rosário, ou rezado ou trazido em tais mãos vos pode salvar? Enganais-vos que por isso fala Deus de tais orações, quais são no uso e modo de se rezarem as do Rosário somente, e nenhumas outras. Notai as palavras: Cum multiplicaveritis orationem: quando multiplicardes a oração. Nem a Igreja antiga multiplicava, nem na Igreja presente se multiplica a mesma oração, porque se não repete muitas vezes a mesma, mas sempre se varia. Os salmos antigamente todos eram diversos, e as orações hoje também são diversas, e só no Rosário se multiplica a mesma oração cento e cinqüenta vezes: Cum multiplicaveritis orationem. - Assim que, resumindo e atando os dois discursos que dividi, ambos se unem com maior força com o primeiro, e todos três nos têm provado que a Mãe de Deus nos ensina, com seu exemplo, que o seu Rosário não se há de rezar só com a boca, senão com o coração e com as mãos. Com o coração, assim como a mesma Senhora trouxe a Cristo nas suas entranhas: Beatus venter qui te portavit - e com as mãos, assim como o trouxe nas suas, e a seus peitos: Et ubera quae suxisti.
§ VI

A pureza de coração e a inocência das mãos tanto se requer para rezar bem o Rosário como para ir ao céu. As orações cheias de dolos e de enganos. Os que rezam o Rosário só com a boca. Supra a contrição o que até agora tenha faltado à vida.
Só me podem dizer - e acabo com satisfazer a esta dúvida - só me podem dizer os interessados ou empenhados na devoção do Rosário, que parece rigorosa e dura condição esta para os que houverem de rezar como devem. Para ir ao céu não nos pede Deus mais que a pureza do coração e das mãos. Assim o mandou apregoar o mesmo Deus, e fixar este seu decreto universal em todas as quatro partes do mundo: Domini est terra, et plenitudo ejus: orbis terrarum, et universi qui habitant in eo
(43). - Este é o princípio e a prefação do decreto. Logo pergunta quem são aqueles que da terra hão de subir ao céu, e permanecer lá eternamente: Quis ascendet in montem Domini, aut quis stabit in loco sancto ejus (44)? - E responde o mesmo Deus, sem exceção de pessoa nem estado, que só hão de subir ao céu aqueles que tiverem o coração limpo e as mãos inocentes: Innocens manibus et mundo corde (Sl 23, 4). - Logo, segundo o que temos dito, tanto se requer para rezar bem o Rosário como para ir ao céu? Primeiramente, não é muito que se requeira tanto para subir pela escada como para entrar pela porta, antes entrar é o fácil e o subir o dificultoso; e por isso diz o decreto: Quis ascendet? - Mas disto mesmo se colhe qual é a dignidade do Rosário. Para receber o Santíssimo Sacramento, que se requer? Estar em graça. E para ir ao céu, requer-se mais alguma coisa? Nenhuma. Grande é logo a dignidade daquele altíssimo Sacramento, que tanto se requer para o receber como para ir ao céu. E isto mesmo é o que devem inferir os devotos do Rosário, quando lhes pregamos que, para o rezarem como convém, é necessária a pureza do coração e a inocência das mãos. Não é condição dura, senão sublime; não é dura, senão admirável; não é dura, senão celestial e divina. E tanto mais divina quanto comparada. Pureza de coração e inocência de mãos para subir ao céu; pureza de coração e inocência de mãos para receber o Santíssimo Sacramento; pureza de coração e inocência de mãos para rezar como convém o Rosário: Innocens manibus et mundo corde.
Seja esta a primeira resposta em louvor grande do Rosário, mas a segunda, em igual confusão dos que sem esta disposição o rezam, é que o seu rezar não é rezar, nem o seu Rosário, Rosário, senão um dolo, um engano, e uma mera e expressa contradição de tudo quanto dizem a Deus, ou imaginam que dizem. Exaudi, Domine, justitiam meam; intende deprecationem meam. Auribus percipe orationem meam, non in labiis dolosis (Sl 16, 1): Ouvi, Senhor a minha justiça, atendei às petições que vos faço percebei a minha oração, porque a minha boca não vos fala com engano. - Estas palavras são de Davi, nas quais supõe que há orações justas e orações injustas; orações que ouve Deus, e orações que não ouve; orações a que atende, e orações a que não atende; orações que percebe e orações que não percebe. E para que Deus ouça e atenda e perceba a sua oração como justa, o que alega e representa é que, ainda que ora com a boca, não fala com dolo nem com engano: Non in labiis dolosis. - Pois, a Deus, que tudo vê, que tudo sabe, que nada se lhe pode encobrir nem dissimular, alega Davi que a oração da sua boca não tem dolo nem engano? Sim, porque muitas orações que saem da boca, se são só da boca, vão cheias de dolos e de enganos, com que queremos ou cuidamos que enganamos a Deus, e tão encontradas com o que oramos e pedimos que o mesmo Deus as não percebe. Tal é o Rosário rezado só com a boca, sem coração e sem mãos, sem afetos e sem obras. E se não, vede-o.
No Padre-nosso nomeamos a Deus como Pai: Pater noster qui es in caelis; na Ave-Maria, nomeamo-lo como Senhor: Ave gratia plena, Dominus tecum - e se a estes nomes de Pai e Senhor não responde o coração e as mãos, o coração amando-o como Pai, e as mãos servindo-o como Senhor, tudo é dolo e engano. Ouvi a Deus pelo profeta Malaquias: Filius honorat patrem, et servus dominum suum. Si ergo pater ego sum, ubi est honor meus? Et si dominus ego sum, ubi est timor meus (Mal 1, 6)? 0 filho honra ao pai, e o servo ao senhor: e se eu sou pai, diz Deus, onde está o meu amor? Se eu sou senhor, onde está, o meu temor? - Logo, se eu sou Pai e não me amais, e eu sou Senhor, e não me servis, dolo e engano é o chamar-me Pai, dolo e engano é o chamar-me Senhor: In labiis dolosis. - E se no Rosário rezado só da boca se acham estes dolos, não considerando os nomes com que nele invocamos a Deus, que será discorrendo pelas palavras verdadeiramente dolosas com que afetamos desejar sua glória, e muito mais naquelas com que lhe pedimos que nos dê o que não aceitamos nem queremos? Não é dolo dizer sanctificetur nomen tuum
(45) - quando tantos tomam seu santo nome na boca temerária e perjura, e muitos o blasfemam impiamente? Não é dolo dizer: Adveniat regnum tuum (46) - quando tantos se alistam e servem debaixo das bandeiras do demônio, e acrescentam vassalos e escravos ao reino das trevas? Não é dolo dizer: Fiat voluntas tua, sicut in caelo, et in terra (47) - quando tantos, e quase todos, não tratam mais que de fazer a própria vontade na terra, e, por um momento de gosto falso e torpe, se condenam a perder o céu por toda a eternidade? Desta maneira, como se pudéramos enganar a Deus, fingimos com a boca desejar sua glória e honra, quando não só a não desejamos nem procuramos, mas, como se não fora do Deus que nos criou e remiu, a desprezamos, e por tantos e tão insolentes modos lhe antepomos a nossa. E que direi do que pedimos para nós, em que os dolos e enganos são ainda mais palpáveis e manifestos? Pede a necessidade o pão nosso de cada dia e que fé há tão comedida que se fie da Providência quotidiana de Deus, e não deseje e ajunte pão para mais dias e anos do que há de viver; ou que cobiça tão moderada, que o pão que chama nosso o não misture e amasse com o alheio? Pede o vingativo a Deus que lhe perdoe, assim como ele perdoa, e, se Deus o fizer assim, lhe tirará logo a vida e o meterá no inferno, onde ele meteria, se pudesse, os que tem por inimigos, e os persegue e abate, e mete debaixo dos pés em tudo quanto pode. Pede o desonesto que Deus o não deixe cair em tentação, e ele é o tentador que busca, solicita e compra as tentações, não duvidando perder por elas a saúde, arriscar a vida, e dar de contado a graça, que vale mais que a mesma glória. Finalmente, pede a Deus que o livre daquele mal que só é mal, e todo o mal, porque nos priva do sumo bem, e ele está tão fora de se querer livrar, que estima mais o cativeiro que a liberdade, e, por se deixar estar cativo e escravo do pecado, renuncia o resgate que o mesmo Deus ofendido lhe oferece, sendo o preço infinito de seu sangue. Este é o modo com que rezam o Rosário os que rezam sem pureza de coração nem inocência de mãos, e somente com a boca cheia de dolos e enganos: In labiis dolosis - e por isso mais dignos de ser aborrecidos, abominados e castigados por Deus, que de ser ouvidos.
Seja, logo, a conclusão de tudo, para os que se acham neste estado, o conselho e inspiração do Espírito Santo por boca de Jeremias: Scrutemur vias nostras, et quaeramus, et revertamur ad Dominum
(48). - Examinemos nossas consciências, busquemos a Deus e convertamo-nos a ele; supra a contrição o que até agora tem faltado a vida; e com esta resolução digna de toda a alma cristã e que tem fé, que se conseguirá neste mesmo instante? Conseguir-se-á, acrescenta o profeta, que por este modo não só serão as nossas orações de boca, senão de coração e de mãos: Levemus corda nostra cum manibus ad Dominum (49). - E os que por mercê de Deus se acharem com esta mesma disposição, continuem e perseverem nela, porque, como bem diz S. Gregório Nazianzeno, em nenhuma ocupação se podem empregar nossos corações e nossas mãos, nem melhor, nem mais útil, nem mais necessária que em acompanhar as preces e orações com que recomendamos nossas almas a Deus, e lhe pedimos sua graça: Non opus est manuum melius quam tendere caelo Castas, et toto jungere corde preces. Mas o principal motivo de todos seja conformarem-se os devotos do Rosário com o exemplo da soberana instituidora dele, assim com o coração como com as mãos: como coração, imitando a mesma Senhora, enquanto trouxe ao Filho de Deus em suas entranhas: Beatus venter qui te portavit - e com as mãos, enquanto o teve nas suas, e a seus peitos: Et ubera quae suxisti.




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(1) Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos a que foste criado (Lc11, 27).
(2) Na arca, porém, não havia senão as duas tábuas de pedra que Moisés tinha metido nela (3 Rs 8, 9).
(3) A arca do testamento, na qual havia uma urna de ouro que continha o maná (Hebr 9, 4).
(4) Põe-no em reserva diante do Senhor (Êx 16, 33).
(5) Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem por obra (Lc 11, 28).
(6) Todas estas coisas, porém, lhes aconteciam a eles em figura (1 Cor 10, 11).
(7) Eu não fui enviado senão às ovelhas que pereceram da casa de Israel (Mt 15, 24)
(8) Até que haja entrado a multidão das gentes, e que assim todo o Israel se salvasse (Rom 11, 25s).
(9) Põe-me a mim como um selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço (Cânt 8, 6).
(10) No coração estão os pensamentos, nas mãos as obras: por isso o amado é estampado como um selo sobre o coração e sobre o braço da esposa (D. Greg. in eum locum).
(11) O amado é posto como um selo sobre o coração e sobre o braço da Virgem, porque a Virgem imita o Filho tanto nos pensamentos, significados pelo coração, como nas obras, significadas pelo braço (Alanus ibi).
(12) A bem-aventurada Virgem pôs a Cristo sobre seu coração quando o teve em suas entranhas pelo espaço de nove meses, e o pôs sobre o braço quando, depois de nascido, o teve em seus braços e a seus peitos (Cornelius in 3 sensu principali de Christo et B. V.).
(13) Seu louvor será sempre na minha boca (Sl 33, 2).
(14) Tornem-se mudos os lábios enganadores (Sl 30, 19).
(15) E os vinte e quatro anciãos se prostraram diante do Cordeiro, tendo cada um suas cítaras e suas redomas de ouro cheias de perfumes (Apc 5, 8).
(16) E cantavam um cântico novo (Ibid 9).
(17) Vistoso em formosura sobre os filhos dos homens (Sl 44, 3).
(18) Apresentou-se a rainha à tua dextra (Ibid 10).
(19) Levanta-te, louva, derrama o teu coração como água diante do acatamento do Senhor; levanta as tuas mãos a ele pela alma de teus filhinhos (Lam 2, 19).
(20) Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (Mt 15, 8).
(21) Is 29, 13.
(22) Onde estavas tu quando os astros da manhã me louvavam, e quando todos os filhos de Deus estavam transportados de júbilo (Jo 38, 4. 7).
(23) Às suas vozes - nós te rogamos - manda que se unam as nossas (Prefácio da Missa).
(24) Se eu falar a língua dos homens e dos anjos (1 Cor 13, 1).
(25) Se algum fala, seja como palavras de Deus (1 Pdr 4, ll).
(26) O meu coração te falou a ti (S1 26, 8).
(27) Soam com a voz, mas com o coração estão mudos (Agost.).
(28) Este povo honra-me com os lábios (Mt 15, 8).
(29) Mas o seu coração está longe de mim (Ibid).
(30) Falaram com coração dobrado (Sl 11, 3).
(31) Como uma pomba enganada sem ter coração (Os 7, 11).
(32) Mas o seu coracão está longe de mim (Mt 15, 8).
(33) Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (Mt 15, 8).
(34) E quando Moisés tinha as mãos levantadas vencia Israel; mas, se as abaixava um pouco, vencia Amalec (Êx 17, 11).
(35) Saindo, peleja contra Arnalec: amanhã estarei eu no cume do outeiro, tendo na minha mão a vara de Deus (Ibid 9).
(36) A minha cavalaria nos carros de Faraó eu te assemelhei, amiga minha (Cânt 1, 8).
(37) Se as abaixava um pouco, vencia Amalec (Êx 17, 11).
(38) Levantando as mãos puras (1 Tim 2, 8).
(39) Senhor, suba direita a minha oração como incenso na tua presença (Sl 140, 2).
(40) O ineenso é para mim abominação (Is 1, 13).
(41) Como nas coroas, não basta que as flores sejam puras, se as mãos que as tecerem não o forem igualmente (S. João Crisost.).
(42) Difundi um perfume como o cinamomo e o bálsamo aromático, e como mirra escolhida exalei suave cheiro (Eclo 24, 20).
(43) Do Senhor é a terra, e tudo o que a enche; a redondeza da terra, e todos os seus habitadores (Sl 23, 1).
(44) Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará no seu santo lugar (Ibid 3).
(45) Santificado seja o teu nome (Mt 6, 9).
(46) Venha a nós o teu reino (Ibid 10).
(47) Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu (Ibid 10).
(48) Esquadrinhemos os nossos caminhos, e investiguemo-los, e voltemos ao Senhor (Lam 3, 40).
(49) Levantemos ao Senhor os nossos corações com as mãos (Ibid 41).
Fonte: http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/sermx.html#-(1)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Um momento especial com meu amor.



Fugindo aos temas de filosofia acadêmica, hoje, quero prestar uma homenagem, a todos aqueles que durante mais de um mês, vêm participando de alguma forma do meu processo de restabelecimento.
Escolhi para representar tanta gente, a figura doce e suave de meu querido companheiro de jornada terrestre, que sofreu (amarelou e não quis assistir a cirurgia relizada por seu colega de turma, o neuro-cirurgião Jan K.J.B.Hlavnicka ), mas mesmo assim não deixou de estar ao meu lado com seu amor manifestado da forma mais terna possível e que eu não tenho condições de descrever.

Ando devagar - Almir Sater

Submeti-me, recentemente, a uma retirada de tumor de nervo perférico e, como consequência da cirurgia, perdi força e movimento do pé esquerdo.
Generosamente, minha irmã, enviou-me esta linda mensagem pela voz do grande Almir Sater, estimulando-me no processo de reaprender a andar.
Divido-a com vocês, meus queridos leitores, pois sei que caminhar não significa somente andar, e, sob certos aspectos, todos nós, estamos sempre recomeçando alguma coisa.



Se gostou, pode divulgar que eu agradeço. É sempre bom repartir o belo!

Um pouco do poeta William Shekespeare

Há certas horas, em que não precisamos de um Amor...
Não precisamos da paixão desmedida...
Não queremos beijo na boca...
E nem corpos a se encontrar na maciez de uma cama...

Há certas horas, que só queremos a mão no ombro,
o abraço apertado ou mesmo o estar ali, quietinho, ao lado...
Sem nada dizer...

Há certas horas, quando sentimos que estamos pra chorar, que desejamos uma presença amiga, a nos ouvir paciente, a brincar com a gente, a nos fazer sorrir...

Alguém que ria de nossas piadas sem graça...
Que ache nossas tristezas as maiores do mundo...
Que nos teça elogios sem fim...
E que apesar de todas essas mentiras úteis, nos seja de uma sinceridade inquestionável...

Que nos mande calar a boca ou nos evite um gesto impensado...
Alguém que nos possa dizer:
Acho que você está errado, mas estou do seu lado...

Ou alguém que apenas diga:
Sou seu amor! E estou Aqui!

Fonte: http://www.pensador.info/p/poemas_de_william_shakespeare_amor/1/

Se gostou divulgue para que o amor se espalhe no espaço unindo os homens.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Fred Astaire and Ginger Rogers in Top Hat.

Fred Astaire, o renovador do sapateado, começou a estudar dança aos quatro anos e aos sete estreava profissionalmente ao lado de sua irmã Adele.
A deusa Fama e o deus Sucesso foram seus protetores durante toda a vida envolvendo sua carreira artístista na mais sublime aura de elegância e beleza.
Em 1933 foi para Hollwood . Formou dupla durante seis anos com Ginger Rogers, encantando o publico com seu sapateado. Juntos fizeram dez filmes dentre eles "Top Hat" e "Swing Time". Fred dançou, também, com Rita Haywoorth, Judy Garland, Cyd Charisse e Audrey Hepburn.
Em l949, ele foi agraciado com o Oscar por sua extraordinária arte. Veja-o com Ginger Rogers em "Top Hat":

Breve História do Cinema.

Desde o inicio dos tempos, o homem sempre desejou reproduzir o movimento. A prova disso são os desenhos encontrados nas cavernas de Altamira na Espanha onde um bisão desenhado a 12 mil anos apresenta 8 patas como se o autor tentasse decompor o movimento.
Fazendo um resumo dos precursores do cinema podemos citar:
Na China 5.000 anos antes de Cristo - as sombras chinesas que não passavam de silhuetas projetadas numa parede ou tela.
No século XVIII a lanterna mágica do alemão Athanasius Kircher composta de uma caixa, uma fonte de luz e lentes que enviavam imagem para uma tela.
No século XIX os franceses inventaram a fotografia.
Em 1833, o britânico W. G. Horner idealizou o zootrópio, jogo baseado na sucessão circular de imagens. Em 1877, o francês Émile Reynaud criou o teatro óptico, combinação de lanterna mágica e espelhos para projetar filmes de desenhos numa tela. Já então Eadweard Muybridge, nos Estados Unidos, experimentava o zoopraxinoscópio, decompondo em fotogramas corridas de cavalos. Por fim, outro americano, o prolífico inventor Thomas Alva Edison, desenvolvia, com o auxílio do escocês William Kennedy Dickson, o filme de celulóide e um aparelho para a visão individual de filmes chamado cinetoscópio.
Foi na França, na época em que os pintores impressionistas decompõem o movimento e a luz, que nasceu o cinematógrafo.
Embora seja a França o país que reivindica para si a descoberta do cinema, com a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Luis e Augusto Lumière, não se pode dizer que esta invenção aconteceu isoladamente. Em outros países, várias experiências também estavam sendo realizadas.
Os irmãos Louis e Auguste Lumière, franceses, conseguiram projetar imagens ampliadas numa tela graças ao cinematógrafo, invento equipado com um mecanismo de arrasto para a película. Na apresentação pública de 28 de dezembro de 1895 no Grand Café do boulevard des Capucines, em Paris, o público viu, pela primeira vez, filmes como La Sortie des ouvriers de l'usine Lumière (A saída dos operários da fábrica Lumière) e L'Arrivée d'un train en gare (Chegada de um trem à estação), breves testemunhos da vida cotidiana
Em 1872, um milionário americano fez uma aposta. Ele garantiu que, quando o cavalo galopa, há um momento em que este fica com as 4 patas no ar. O fotógrafo inglês Muybridge decidiu fazer a demonstração. Colocou lado a lado 24 câmeras fotográficas presas por fios que, ao serem tocados pelas patas do cavalo, acionam as máquinas tirando 24 fotos que registram todos os movimentos do galope. Ele provou assim que, de fato, há um momento em que as 4 patas não tocam o chão. Sem o saber, ele dava um passo fundamental para o nascimento do cinema.
Os filmes dos irmãos Lumière eram de curta duração (um minuto) e não contavam uma história. Apenas registravam cenas da vida cotidiana: a chegada de um trem na estação, a saída de operários da fábrica, a queda de um muro, um bebê sendo alimentado, etc. Para os irmãos Lumière, o cinematógrafo era apenas "uma invenção sem futuro". Mas o francês Georges Méliès não pensava assim e comprou um cinematógrafo, a máquina de filmar. Como Méliès era mágico e diretor de teatro, conseguiu dar uma expressão dramática a setis filmes usando atores, cenários e figurinos. Seu filme Viagem à Lua, de 1902, é considerado a primeira ficção científica do cinema. Dura 13 minutos e é inspirado nos romances de Julio Verne.
Hollywood Em 1896, o cinema substituía o cinetoscópio e filmes curtos de dançarinas, atores de vaudeville, desfiles e trens encheram as telas americanas. Surgiram as produções pioneiras de Edison e das companhias Biograph e Vitagraph. Edison, ambicionando dominar o mercado, travou com seus concorrentes uma disputa por patentes industriais.
Em 1903, o americano Edwin S. Porter fez um filme que acabou com as formas teatrais do cinema: O grande roubo de trem é considerado o primeiro bang-bang da história do cinema. Porter consegue descobrir o ritmo cinematográfico, mostrando várias ações simultâneas. Mas foi outro americano, David Ward Griffith, que mais contribuiu, na época, para a formação da linguagem cinematográfica. Dirigiu Intolerância (1915), com mais de duas horas de duração. Os filmes até então eram todos curtos. Enormes primeiros planos close, não somente de rostos, mas de mãos e objetos, mostravam a preocupação de Griffith em dar uma forma nova à narrativa, isto é, à maneira cinematográfica de contar história. Se Edwin Porter descobriu o tempo, Griffith colaborou para modificar o espaço. Nessa época, o filme era mudo. Não tinha som. Colocavam um pianista no palco para tocar, dando mais emoção às cenas. Em 1927, o cinema falado causou grandes modificações na linguagem do cinema, e também alguns problemas: disfarçar o ruído do motor da câmera, afastar alguns atores cujas vozes eram muito finas causando riso no público, etc
No início, só se filmava à luz do dia. Depois descobriram recursos do claro e escuro com a luz artificial. Por exemplo: o filme Nosferatu, o Vampiro (1922), inspirado nos quadros do movimento expressionista, dá à luz e à sombra um papel dramático. Novamente o cinema se inspira na pintura. Descobridor de grandes talentos como as atrizes Mary Pickford e Lillian Gish, Griffith inovou a linguagem cinematográfica com elementos como o flash-back, os grandes planos e as ações paralelas, consagrados em The Birth of a Nation (1915; O nascimento de uma nação) e Intolerance (1916), epopéias que conquistaram a admiração do público e da crítica. Ao lado de Griffith é preciso destacar Thomas H. Ince, outro grande inovador estético e diretor de filmes de faroeste que já continham todos os tópicos do gênero num estilo épico e dramático. Quando o negócio prosperou, acirrou-se a luta entre as grandes produtoras e distribuidoras pelo controle do mercado. Esse fato, aliado ao clima rigoroso da região atlântica, passou a dificultar as filmagens e levou os industriais do cinema a instalarem seus estúdios em Hollywood, um subúrbio de Los Angeles. Ali passaram a trabalhar grandes produtores como William Fox, Jesse Lasky e Adolph Zukor, fundadores da Famous Players, que, em 1927, converteu-se na Paramount Pictures, e Samuel Goldwyn. As fábricas de sonho em que se transformaram as corporações do cinema descobriam ou inventavam astros e estrelas que garantiram o sucesso de suas produções, entre os quais nomes como Gloria Swanson, Dustin Farnum, Mabel Normand, Theda Bara, Roscoe "Fatty" Arbuckle (Chico Bóia) e Mary Pickford, que, em 1919, fundou, com Charles Chaplin, Douglas Fairbanks e Griffith, a produtora United Artists. O gênio do cinema silencioso foi o inglês Charles Chaplin, que criou o inolvidável personagem de Carlitos, mescla de humor, poesia, ternura e crítica social. The Kid (1921; O garoto), The Gold Rush (1925; Em busca do ouro) e The Circus (1928; O circo) foram os seus filmes longos mais célebres do período. Depois da primeira guerra mundial, Hollywood superou em definitivo franceses, italianos, escandinavos e alemães, consolidando sua indústria cinematográfica e tornando conhecidos em todo o mundo comediantes como Buster Keaton ou Oliver Hardy e Stan Laurel ("O gordo e o magro"), bem como galãs do porte de Rodolfo Valentino, Wallace Reid e Richard Barthelmess e as atrizes Norma e Constance Talmadge, Ina Claire e Alla Nazimova.
Em 1917 foi criada a UFA, potente produtora que encabeçou a indústria cinematográfica alemã quando florescia o expressionismo na pintura e no teatro que então se faziam no país. O expressionismo, corrente estética que interpreta subjetivamente a realidade, recorre à distorção de rostos e ambientes, aos temas sombrios e ao monumentalismo dos cenários. Iniciara-se em 1914 com Der Golem (O autômato), de Paul Wegener, inspirado numa lenda judaica, e culminou com Das Kabinet des Dr. Caligari (1919; O gabinete do Dr. Caligari), de Robert Wiene, que influenciou artistas do mundo inteiro com seu esteticismo delirante. Outras obras desse movimento foram Schatten (1923; Sombras), de Arthur Robison, e o alucinante Das Wachsfigurenkabinett (1924; O gabinete das figuras de cera), de Paul Leni. Convictos de que o expressionismo era apenas uma forma teatral aplicada ao filme, F. W. Murnau e Fritz Lang optaram por novas vertentes, como a do Kammerspielfilm, ou realismo psicológico, e o realismo social. Murnau estreou com o magistral Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922; Nosferatu, o vampiro) e destacou-se com o comovente Der letzte Mann (1924; O último dos homens). Fritz Lang, prolífico, realizou o clássico Die Nibelungen (Os Nibelungos), lenda germânica em duas partes; Siegfrieds Tod (1923; A morte de Siegfried) e Kriemhildes Rache (1924; A vingança de Kremilde); mas notabilizou-se com Metropolis (1926) e Spione (1927; Os espiões). Ambos emigraram para os Estados Unidos e fizeram carreira em Hollywood. Outro grande cineasta, Georg Wilhelm Pabst, trocou o expressionismo pelo realismo social, em obras magníficas como Die freudlose Gasse (1925; A rua das lágrimas), Die Büchse der Pandora (1928; A caixa de Pandora) e Die Dreigroschenoper (1931; A ópera dos três vinténs).
O Filme: da Idéia à Sala de Projeção
Os vários passos em busca da melhor forma para contar uma história com imagens contribuíram para a linguagem cinematográfica que temos hoje. Esta caminhada foi gradativa. Cada passo seguinte dependeu do que fora feito anteriormente. A tela do cinema é bidimensional. Mas a realidade é tridimensional, os objetos, pessoas e animais têm volume. Como então mostrar isso na tela?
As primeiras câmeras eram pesadas. Com o tempo, conseguiram fabricar câmeras mais leves e isso facilitou o registro de pessoas, transportes, animais em movimento. Esse movimento chama-se "travelling". Ele permite maior mobilidade às cenas, deslocando a câmera para frente, para trás, para a direita, para a esquerda, para cima e para baixo. A panorâmica outro movimento importante, é diferente do "travelling" porque a câmera não sai do lugar, fica presa no tripé fazendo um movimento de 180 graus para a direita ou para a esquerda, imitando o olhar quando giramos a cabeça. Quando você assistir a um filme, repare: várias vezes ele começa com uma panorâmica, pois, com esse movimento, o cineasta estará mostrando ao espectador o cenário onde vai acontecer a história.
Mas para fazer um filme é preciso pensar tudo isso antes de começar a filmagem. E preciso planejar, para não desperdiçar o filme, que custa muito caro, e para não gastar tempo demais
Um filme é feito em várias etapas. A primeira etapa é o roteiro - história escrita na língua do cinema, com todos os seus termos técnicos - e nele de - vem estar indicados todos os planos, pontos de vista, enquadramentos, isto é: plano geral, plano médio, primeiro plano, etc, movimentos de câmera (travelling e panorâmica), diálogos, ruídos, elementos do cenário e figurinos.
Depois de tudo filmado, ainda há muito trabalho para fazer. Começa a fase da montagem. A montagem dá o ritmo do filme. Depois da filmagem, onde as cenas são repetidas várias vezes, o filme é revelado. O montador seleciona os planos melhores e faz a montagem.
Antes de filmar cada plano, usa-se a claquete, e, baseando-se nas numerações da claquete, é que o montador organiza a montagem.
Já em 1925 o cineasta russo Serguei Eisenstein mostra de forma magistral os recursos da montagem do filme O Encouraçado Potemkim. Som e imagens são registrados em películas separadas.
O montador faz a mixagem e depois faz a sonorização.
Dizem os especialistas que as artes se distinguem pela sua linguagem. A linguagem só existe a partir da repetição do uso e da aceitação de algumas formas que demonstraram maior comunicação. Você, portanto, vai completar. Ela depende de sua participação. Quando o cineasta aproxima a câmera num primeiro plano (close) destacando um objeto, este adquire maior importância dentro da história. Isto é linguagem. Mas, de um mesmo filme, eu posso ter uma interpretação e você outra. Nisso está a riqueza de uma obra de arte. Quando o cineasta e o espectador estão ligados pela mesma cultura, pelos mesmos fatos sociais e econômicos, a participação poderá ser ainda maior. Por exemplo, quando você assistir ao filme O menino maluquinho, de Helvecio Ratton, baseado no livro de Ziraldo, você vai entender muito mais, porque ele fala de um menino brasileiro. Se você tiver lido o livro, melhor ainda, porque vai poder comparar os dois, filme e livro, uma vez que cinema e literatura são linguagens que podem se enriquecer mutuamente.
Fonte: http://www.moviecom.com.br/cinema/
Imagens: http://www.prof2000.pt/users/albertina2/cinematografo.htm

Marilyn Monroe: a sedutora.

A sempre maravilhosa Julie Andrews.

O Jardim, de Joan Miró.


Nicolau Malebranche.

Com Spinoza, o racionalismo cartesiano entra em síntese com o panteísmo neoplatônico. Com Malebranche, o cartesianismo entra em síntese com o agostinianismo, sobre a base de um inicial platonismo comum. Mas, ao mesmo tempo, sofre um regresso sobre a linha do seu lógico desenvolvimento panteísta e racionalista, devido ao teísmo e ao cristianismo que Malebranche se esforça por conciliar com o cartesianismo.
Dos dois problemas fundamentais deixados em herança por Descartes (relações entre Deus e mundo, entre espírito e matéria),
Spinosa resolvera o primeiro mediante o seu rígido monismo da substância; o segundo, mediante o famoso paralelismo dos atributos extensão e pensamento na substância. Malebranche, pelo que diz respeito ao primeiro problema, chega a conceber Deus como causa única, entretanto não ousa afirmá-lo como substância única; pelo que diz respeito ao segundo, nega também ele - como Descartes e Spinoza - toda interação entre espírito e matéria, e também ele recorre a Deus para explicar as relações entre o espírito e a matéria.
Vida e Obras
Nicolau Malebranche nasceu em Paris em 1638. Estudou filosofia no colégio "De la Marche" e teologia na Sorbona. Entrando jovem na Congregação do Oratório, em 1660, foi ordenado padre em 1664. Foi profundamente influenciado pelo agostinianismo dominante no Oratório, e pelo cartesianismo. Estas são as duas fontes principais do seu pensamento, procurando conciliá-las no seu sistema filosófico. Faleceu em 1715.
As obras de Malebranche tiveram grande êxito e levaram-no a várias polêmicas. As principais obras são: Recherche de la vérité (1674-1675); Méditations chrétiennes et métaphysiques (1683); Traité de morale (1684); Entretiens sur la métaphysique et sur la religion (1688).
O Pensamento: A Gnosiologia
Como Descartes e o conseqüente racionalismo, a gnosiologia de Malebranche desvaloriza o conhecimento sensível, especialmente os sentidos externos e atribui às idéias todo o valor do conhecimento. Pisando as pegadas de Agostinho e de Descartes, declara as idéias eternas e imutáveis, claras e distintas e, portanto, verdadeiras objetivamente. Visto essas idéias serem necessárias e universais, não só não podem derivar da sensação, mas nem sequer ser produzidas pelo espírito humano, como a sensação, é particular e contingente. As idéias, pois, nada mais são que o próprio objeto inteligível presente ao nosso pensamento: são idéias ontológicas, exteriores ao sujeito que conhece, a saber, são os arquétipos eternos e imutáveis, necessários e universais, das coisas; tais idéias estão na mente de Deus e nele nós temos a intuição delas (ontologismo). Esta visão é possível porque Deus está intimamente presente ao nosso espírito e lhe pode revelar a sua essência porquanto é comunicável. Noutras palavras: nós vemos, não propriamente a Deus, mas apenas o que há nele de imitável.
A Metafísica
Se bem que malebranche afirme que Deus está intimamente presente ao nosso espírito como revelador das idéias, sente ele a necessidade de provar a existência de Deus na sua realidade subsistente e de determinar-lhe a natureza. Para demonstrar a existência de Deus, Malebranche recorre substancialmente ao sólito argumento ontológico, caro aos platônicos e aos agostinianos. A respeito da natureza de Deus, julga ele que seja essencialmente incognoscível, pois nós não temos uma idéia clara e distinta do infinito. A única idéia clara e distinta que temos é a de extensão inteligível (e de seus modos); isto é, vemos a extensão inteligível em Deus, e tal idéia se torna representativa de Deus pelo seu caráter de infinidade. A respeito das relações entre Deus e o mundo, Malebranche teística e cristãmente afirma Deus criador dos espíritos e da matéria: quer dizer, admite uma pluralidade de substância. Diversamente afirma a unidade da causa, porquanto não há causas segundas. Deus opera diretamente em todas as criaturas; ele só é causa e atividade, e as assim chamadas causas segundas não passam de ocasiões para o operar da causa única divina (ocasionalismo).
Como não temos uma idéia clara de Deus, assim não temos uma idéia clara da nossa alma, quer dizer, da sua natureza. Temos uma intuição da sua existência, um sentimento, que - ao contrário das idéias - é racionalmente confuso, mas, em todo caso, ele só atinge a existência contingente, o que as idéias não podem fazer.
Acontece o contrário a respeito do mundo físico, material. Temos dele uma idéia clara, porque temos a idéia clara de extensão inteligível. Temos, porém, um sentimento confuso da existência atual do mundo material; trata-se de uma percepção sensível inferior à da existência do espírito, tanto assim que é mister a revelação cristã, que nos diz ter Deus criado o mundo, para que estejamos propriamente certos da sua existência.
As relações - a interação entre as coisas materiais de um lado e os espíritos humanos do outro, isto é, entre alma e corpo - dependem de Deus e são produzidas diretamente por ele segundo a doutrina do ocasionalismo. Malebranche baseia esta doutrina em duas teses de origem cartesiana: em física, inércia natural da extensão, único elemento constitutivo das coisas materiais; em psicologia, a impossibilidade de uma interação entre corpo e alma, espírito e matéria. Não há, logo, causalidade ativa nem dos corpos entre si, nem da alma sobre o corpo, nem do corpo sobre a alma. Toda energia produtora de ser e de atividade pertence propriamente a Deus.
A Moral
Malebranche procura conciliar essa atividade universal divina com o live arbítrio humano. O homem é livre não no sentido de que seja capaz de fazer, produzir alguma coisa, mas no sentido de que é capaz de suspender a ação divina em si: suspensão (antes de que produção) de efeitos. Dessa maneira, a vontade, livre embora, não é causa produtora.
Aspecto característico da moral de Malebranche é o apelo para o cristianismo e, precisamente, para o pecado original, a fim de explicar plena e verdadeiramente o homem na sua realidade atual. A desordem das paixões, bem como o erro no conhecimento, encontram só no pecado original a causa única que os explica. Sem o pecado haveria perfeita harmonia entre corpo e espírito, sensibilidade e pensamento, impulso e vontade. Assim, os filósofos "são obrigados à religião (revelada), pois só ela pode tirá-los do embaraço em que se encontram".
Guilherme Leibniz
Spinoza tentara a síntese do racionalismo cartesiano com o panteísmo neoplatônico; Malebranche tentara a síntese do racionalismo com o platonismo agostiniano; Leibniz tentará uma síntese mais vasta, a do pensamento aristotélico-tomista com o empirismo moderno. Diversamente de Spinoza e de acordo com Malebranche, procurará compor a necessidade racionalista-matemática com a contingência e a liberdade. E chegará também à negação da realidade material, da res extensa, resolvendo a realidade material em uma aparência fenomênica do espírito. O resultado é que a necessidade universal permanece, e, logo, também o panteísmo; e que, com a supressão do mundo físico, o racionalismo abre as portas ao idealismo.
Vida e Obras
Guilherme Leibniznasceu em Leipzig, em 1646. Seu pai era um jurista, professor de moral na universidade. Foi um autodidata desejoso de tudo conhecer; estudou filosofia e
história da filosofia, matemática e jurisprudência, formando-se em direito em Altorf em 1666-1667. O barão de Boinebourg - convertido ao catolicismo - iniciou-o no conhecimento da igreja católica e introduziu-o na Corte eleitoral de Mogúncia.
Entre 1672 e 1676, chefiou uma missão diplomática junto de Luís XIV, para induzir o Rei Sol a dirigir contra os turcos a sua atividade de expansão, que constituía um perigo contínuo contra a Alemanha. A missão fracassou. Entretanto, Leibniz travou relações com os maiores filósofos e cientistas da época. Entre outros, tomou contacto com Malebranche. Durante uma viagem a Londres, conheceu também Newton, inventor, como ele, do cálculo infinitesimal.
Em 1676 foi convidado por João Frederico de Brunschwig para a corte ducal de Hannover, como conselheiro áulico e bibliotecário. Indo de Paris para a sua nova sede, parou na Holanda e visitou Spinoza. Ficou até à morte naquele emprego, ocupando-se com escrever a história da casa Brunschwig foi à Itália, visitando Veneza, Pádua, Florença, Roma e Nápoles. Realizou outras viagens a Viena e Berlim, onde fundou a Sociedade das Ciências, chamada, em seguida, Academia Prussiana. Fez tentativas para a união das igrejas protestante e católica e para a federalização política das nações cristãs, correspondendo-se com Bossuet para este fim. Faleceu em Hannover em 1716.
As fontes culturais e filosóficas de Leibniz são muitas e várias, também antigas e medievais, que ele fundiu em um ecletismo superior. Entre os filósofos antigos preferiu Platão e Plotino; Aristóteles influiu nele sobretudo pelo que diz respeito à lógica. Estudou Suarez e Tomás de Aquino, para os quais teve estima no que concerne ao pensamento, criticando entretanto a forma deles.
Conheceu certamente o pensamento da Renascença, em especial o neoplatonismo renascentista. Estudou também o empirismo, escrevendo contra o Ensaio sobre o Intelecto Humano de Locke os seus Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano. Entretanto foi o cartesianismo o sistema filosófico que influiu mais profundamente sobre Leibniz, devido sobretudo ao racionalismo matemático, que ele procurou conciliar com uma concepção dinâmica da realidade. Também Malebranche influenciou profundamente Leibniz, tanto assim que do ocasionalismo de Malebranche surgirá a harmonia preestabelecida de Leibniz. Mais profundamente ainda, Spinoza influiu sobre Leibniz, que pode ser considerado spinoziano de fato se não de intenção. Seu sistema é uma afirmação do monismo spinoziano, ainda que sobre um plano mais rico e superior.
As obras de Leibniz, escritas pela maior parte em francês e em latim, não constituem uma elaboração sistemática e completa do seu pensamento. São ensaios ocasionais e esporádicos, mas de grande penetração e agudeza crítica. Eis as principais: Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano (crítica ao Ensaio de Locke, composta em 1701, mas publicada postumamente em 1765); Teodicéia, escrita para resolver o problema do mal e publicada em 1710; Monadologia, escrita em francês para o príncipe Eugênio de Sabóia em 1714 e publicada postumamente. Deve-se ainda acrescentar uma copiosa correspondência filosófica.
O Pensamento: A Gnosiologia
A gnosiologia de Leibniz é fundamentalmente representada pela ciência geral ou lógica universal; esta deve proporcionar o método para inventar e demonstrar todas as ciências. A realidade apresenta-se indiscutivelmente sob dois aspectos: um idêntico, universal, necessário, e o outro diverso, particular, contingente. Leibniz distingue, portanto, as verdades de razão (juízos necessários de essência), que colheriam o primeiro aspecto da realidade, e as verdades de fato (juízos da existência contingente), que colheriam o segundo aspecto.
As verdades de razão fundamentam-se sobre o princípio de indentidade, imediatamente evidente, isto é, tais verdades reduzíveis a juízos, em que o predicado tem identidade com o sujeito, se pode ser tirado analiticamente dele. As verdades de fato seriam representadas por juízos de experiência, em que o predicado não se pode extrair analiticamente do sujeito; teria, porém, um fundamento, o princípio de razão suficiente na realidade criada.
Entretanto, estes juízos escapam às pretensões da necessidade racionalista. Então Leibniz procura conciliar a necessidade do racionalismo com as exigências da contingência: as verdades de fato seriam contingentes quoad nos, com respeito a nós, devido à nossa ignorância. Mas, de um ponto de vista absoluto, quoad se, seriam necessárias como as outras. Isto quer dizer, também as proposições contingentes verdadeiras seriam racionais e demonstráveis, porque o predicado é contido na noção adequada do sujeito. A definição do sujeito, para quem a penetrasse até o fundo, seria verdadeiramente o antecendente lógico infalível de cada um dos predicados.
A Metafísica
A Metafísica de Leibniz é a doutrina das mônadas (monadologia). Os elementos primeiros, fundamentais, da realidade, Leibniz chama-os mônadas; e são concebidos como átomos espirituais dotados de atividade, substâncias-forças. "A substância é um ser capaz de ação". A natureza das mônadas é espiritual, representativa: cada uma representa, reflete todo o universo de um determinado ponto de vista. Não apenas o homem é um microcosmo, mas cada ser é um microcosmo. Conforme o seu conteúdo representativo, mais ou menos elevado, as mônadas são dotadas de propriedade de perceber (pampsiquismo); entretanto, nem todas percebem conscientemente.
As mônadas são eternas, inúmeras, não há duas mônadas perfeitamente iguais, a sua imensa série se dispõe em escala hierárquica ascendente, contínua, da ínfima mônada até à suprema, Deus. Elas não têm relações recíproca: "as mônadas são sem janelas" - diz Leibniz. "Nesta escala, Leibniz distingue quatro grandes ordens: 1.ª) mônadas nuas, que constituem o reino mineral e as plantas, dotadas de representação insconsciente (pampsiquismo); 2.ª) mônadas sensitivas, capazes de representação consciente ou apercepção; constituem as almas dos brutos; 3.ª) mônadas racionais, ou almas humanas, enriquecidas de conhecimento científico e consciência reflexa; 4.ª) mônada suprema, ou Deus, absolutamente perfeita, causa eficiente de todas as outras". A ordem entre elas é explicada pela harmonia preestabelecida, que Deus introduziu na criação.
Afirma Leibniz, mais ou menos, o conceito tradicional de Deus. Deus seria a mônada suprema, criadora e ordenadora de todas as outras. Este Absoluto - realidade única informada por uma alma côsmica - recorda a tão combatida Substância spinoziana, feita por Leibniz dinâmica, ativa, desenvolvendo-se não apenas matematicamente, mas também finalisticamente.
O homem, o indivíduo humano, seria um conjunto de mônadas de grau diverso. A uma mônada central, consciente, dotada de percepção, constituindo a alma, unem-se mônadas subconscientes e mônadas inconscientes, que constituem o corpo. Este todo é regulado pela harmonia preestabelecida, em virtude da qual a uma modificação física corresponde uma modificação psíquica e vice-versa, pois o corpo não atua diretamente sobre a alma, nem esta sobre o corpo.
Para Leibniz, o mundo físico, a matéria, não tem existência real. A matéria, a corporeidade, é um fenômeno, uma aparência da psiquicidade. Negada às mônadas a faculdade de agirem transitivamente, uma sobre as outras, como explicar a ordem do universo? Leibniz responde com a célebre teoria da harmonia preestabelecida. Deus, ab aeterno, regularizou todas as ações das mônadas de tal forma que se correspondessem como se realmente houvesse entre elas um influxo mútuo de causalidade recíproca. "Assim, um hábil relojoeiro constrói dois relógios, que, sem se influenciarem mutuamente, marcam ao mesmo tempo as mesmas horas".
A Moral
A moralidade é reconduzida à atividade, que, no homem, é consciente e racional. No campo da moral, Leibniz interessou-se especialmente pelo problema do mal e da liberdade. Afirma ele a liberdade; e, por certo, no seu sistema subsiste a liberdade metafísica, a espontaneidade racional. Mas vem fenecer o livre arbítrio, a livre escolha, devido à sua tese da ação necessariamente dirigida para o melhor, quer no homem quer em Deus.
Pelo que diz respeito à solução do problema do mal, Leibniz - como é sabido - distingue o mal em metafísico, moral e físico. O primeiro não é verdadeiro mal, porquanto constitui a limitação necessária dos seres criados; pois a natureza destes seres é necessariamente limitada, enquanto são criados. Sem esta limitação não haveria sequer o mundo.
O mal moral, ao contrário, é devido à resistência voluntária dos entes criados, humanos, à ação de Deus. Também o mal moral é uma privação de ser, como o mal metafísico: tem uma causa deficiente e não eficiente, na resistência humana à ação de Deus.
Leibniz explica o mal físico mediante a estética. O mal dos vários seres se torna um bem para o conjunto; as desarmonias particulares realçam a harmonia do todo. Entretanto, esta explicação não serve no caso do homem, pois cada homem não é um meio e sim um fim, sendo um ser racional.
Cristiano Wolff
O racionalismo moderno toma uma sistematização rígida, formal, com Cristiano Wolff, vulgarizador do pensamento de Leibniz. Em Wolff, o racionalismo moderno manifesta explicitamente o seu caráter fenomenista abstrato. A filosofia, a metafísica deveria ser construída a priori, partindo dedutivamente, analiticamente, da idéia inata de ser.
Compreende-se, portanto, a reação kantiana e a acusação de dogmatismo movida contra essa orientação filosófica, que pretendia ser válido para a realidade concreta um sistema construído a priori: um mundo de idéias para um mundo de coisas, sem uma relação real entre as duas ordens. A reação é facilmente compreensível, se se considerar que os manuais de Wolff invadiram a cultura alemã da época, e Kant lecionava na universidade servindo-se da Metaphysica de Baumgarten, que tinha condensado e ordenado em mil parágrafos o prolixo sistema de Wolff.
Dado esse caráter apriorístico, racionalista-matemático, do pensamento de Wolff, compreende-se como ele se diferencia profundamente da escolástica clássica, aristotélico-tomista, a qual concebe, sim, a ciência como uma dedução necessária de elementos e princípios primeiros, mas estes se baseiam no terreno sólido da experiência. Se é que Wolff teve algum conhecimento particular da escolástica aristotélico-tomista, certamente não compreendeu o espírito íntimo desse sistema.
Vida e Obras
Cristiano Wolff nasceu em Breslau em 1679. Dedicou-se aos problemas morais e religiosos, estudando também matemática. Formou-se em filosofia em Leipzig em 1703. Entrou, desde logo, em relações com Leibniz, graças ao qual teve em 1707 uma cátedra de matemática e filosofia na Universidade de Halle. O seu ensino claro e metódico, racionalista, sistemático teve um êxito imenso. No entanto, em 1723, foi demitido sob acusação de ateísmo em religião e determinismo em moral. A primeira acusação tem um fundamento na afirmação de Wolff de que a moral estaria de pé igualmente, mesmo prescindindo da existência de Deus. A segunda explica-se pela sua adesão ao determinismo racionalista de Leibniz, em que a liberdade de Deus e do homem vêm fornecer, porquanto ambos atuam necessariamente, do modo melhor. Wolff retirou-se então para a Universidade de Marburgo, voltando, em seguida, para a Universidade de Halle, aí ensinando até à morte (1754).
As obras filosóficas de Wolff são constituídas por duas séries de manuais, uma em latim, e a outra em alemão. A série dos manuais em latim, compreende precisamente: Philosophia rationalis sive logica; Philosophia prima seu ontologia; Cosmologia generalis; Psychologia empirica; Psychologia rationalis; Psychologia practica universalis; Jus naturae; Jus gentium; Philosophia moralis seu ethica; Oeconomia. Tais manuais tiveram um grande êxito.
O Pensamento
Wolff divide a filosofia em lógica, especulativa e prática. A filosofia especulativa é, fundamentalmente, a metafísica, abrangendo a ontologia, a cosmologia geral, a psicologia, a teologia natural. A filosofia prática abrange, antes de tudo, a filosofia prática geral e o direito natural e, logo, a ética, a política, a economia. É notável o critério de verdade segundo Wolff: a verdade consiste exclusivamente na coerência entre as idéias. É a revelação completa so fenomenismo racionalista, pelo qual não há relação entre pensamento e ser. É bem diverso o critério de verdade do sistema aristotélico-tomista, pelo qual a verdade é, ao contrário, a adequação especulativa da mente com a coisa.
Quanto à idéia de ética, Wolff diz justamente que a lei moral não pode depender ao arbítrio divino; mas é absoluta, necessária, primitiva (isto é, diríamos, tomisticamente, derivante da própria natureza de Deus e das coisas por ele criadas). Diversamente, admite a obrigação absoluta da lei moral, mesmo no caso do ateísmo (como se a negação de Deus não implicasse necessariamente na negação de todos os valores).
Em todo caso, Wolff não nega Deus, nem a religião natural. Separa, porém, a filosofia que conhece a religião natural, da religião positiva, ou revelada. Desta o filósofo prescinde.
Wolff é o pai do Aufklärung, do iluminismo racionalista alemão, que sustenta o divórcio entre a religião natural e a religião positiva, e finaliza na negação desta ultima.
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/cartesianismo.htm

Imagem: www.memo.fr/en/dossier.aspx?ID=392

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Dançar Faz Muito Bem à Alma.

Edouard Manet - 1874.

Monet pintando em seu barco

Jardim da Casa de Monet.


ARTE ALÉM DA MORAL E ALTERIDADE NO UNO

Gustavo Gadelha
Mestre em Filosofia pela PUC-Rio



Palavras-chave: tragédia, niilismo e cultura
Resumo: Apoiando-nos em apontamentos de Gilles Deleuze e Karl Löwith buscaremos em Nietzsche os elementos trágicos capazes de rivalizar com o pensamento moralista. Desde os tempos em que era professor até a sua autobiografia intelectual (“Ecce Homo”), Nietzsche infere, de forma latente ou não, a repetição do mote de “Dionísio contra o Crucificado”. E é na Grécia pré-socrática que o filósofo do Eterno Retorno vai buscar a inspiração para elaborar um pensamento afirmativo capaz de englobar a dor e a partir da realidade dada, não importa qual seja, criar e agir. O fenômeno dionisíaco individualiza o que sofre, devolvendo-lhe o sentimento de pertencimento ao mundo - o que pode ser entendido como uma transformação imanente ao niilismo, que o supera. Do elogio a Wagner ao canto solo de Zaratustra, Nietzsche apostava no retorno dos valores gregos presentificados no palco da modernidade.
Key words: tragedy, nihilism, culture
Abstract: Been supported by the notes made by Gilles Deleuze and Karl Löwith we will try to bring the tragic elements in Nietzsche which are able to rival with moralist thought. Since the time where he was a professor untill his intelectual autobiography (“Ecce Homo”) Nietzsche infers, in a latent way or not, “Dioniso against the Crucified”’s moto repetition. And it is in pre-socratic Greece that the Eternal Return’s philosopher will search the inspiration to create an affirmative thought able to englobe pain and thence, from de given reality, it doesn’t matter which, set out, create and act. The dionisiac phenomenon individualizes the one that suffers, giving him back the world belonging feeling - what could be understood as an immanent transformation to nihilism that surmounts it. From the praise of Wagner to Zarathoustra’s solo singing, Nietzsche bet in greek values’s return presented in modernity’s stage.

ARTE ALÉM DA MORAL E ALTERIDADE NO UNO
A tragédia Ática nasceu e morreu cedo, e passa ao largo da visada de Nietzsche um ingênuo renascimento da tragédia grega na Europa do século XIX. Mesmo sua conturbada amizade com Richard Wagner nutria mais a esperança de que a arte pudesse interferir na vida pública atualizando em nova forma valores presentes na Grécia - tais como a autodeterminação individual e a capacidade de lidar e criar com o sofrimento - do que uma transposição mecânica de ritos, encenações e costumes para a modernidade. A estética seria uma justificativa da existência, num mundo em que a cultura se tornou um sistema de incultura, que impede o surgimento do novo, a criação que faz estranhar a própria cultura. Uma passagem de “O Livro do Filósofo”, conjunto de notas escrito entre 1872 e 1875 e só publicado postumamente, deixa esse projeto romântico claro: “Não nos é possível produzir de novo uma estirpe de filósofos como o da Grécia na época da tragédia. Daqui para frente apenas a arte executa a sua tarefa. Agora um sistema assim só é possível como arte” (Nietzsche, 2001B, p.9). Deleuze aponta com perspicácia que um renascimento da tragédia exigiria que a platéia também renascesse junto com o espetáculo (são uma só e mesma coisa), para que os trágicos isolados que porventura restam sejam, no futuro, libertos da violência dos maus auditores, “(...) que lhe deram um sentido medíocre originado da má consciência” (1988, p.20). “É possível uma cultura ser revigorada com a tragédia?”, postula o pathos. O decaimento da tragédia fez surgir o diálogo no palco, criando o psicologismo de alcova; o coro - que com poucas palavras dá o ritmo à narrativa - e o ritual do despedaçamento na embriaguez da encenação desaparecem. A mudança no teatro é um sintoma dos valores validados e compartilhados. A dor é de toda uma cultura, aí incluídos os deuses, não podendo ser algo privado. A música dionisíaca seria anterior a qualquer singularidade, “pranto tonal” ou “melodia original dos afetos” que dá à luz a linguagem. Se a linguagem é o espelho musical do mundo, a música é o espelho dionisíaco das coisas. O querer universal é ainda informe: prazer e desprazer já sofreram individuação. O modelo musical não se esgota com a linguagem, obrigando-a a efetuar deslocamentos; na reprodução há o fracasso que obriga à repetição. Diante de um sofrimento espetacular, requer-se espectadores: divindades são criadas no espelho da encenação, na celebração do horror de existir. Novos símbolos expressivos surgem no desvairo da orgia; por exemplo, a dança (Nietzsche, 1999, p.35). Dionísio prega o caráter saudável da fabricação de novas ilusões.Há a mesma paixão e o mesmo martírio tanto em Dionísio quanto no Cristo: “É o mesmo fenômeno, mas com dois sentidos opostos”. Se, de um lado, a vida justifica e afirma o sofrimento, por outro crê numa injustiça essencial, onde o sofrimento testemunha contra a vida (Deleuze, 1988, p.16). A “taça de vida”, o sagrado leite felliniano a transformar Roma no “Boccacio 70”, é a metáfora escolhida por Karl Löwith para mostrar tão discordante atitude em relação à existência: “Zaratustra quer esvaziar a taça da abundância de ouro”, ao passo que Cristo “(...) esvazia a taça do amargo sofrimento” (1998, p.226). O cristianismo nega os valores estéticos gregos. Temos aqui o niilismo cristão, a forma cristã de se negar a vida com o fenômeno da “má consciência” ou “interiorização da dor” - também denunciado por Deleuze como “ideologia cristã”. O homem que assim funciona é uma verdadeira “máquina de culpa”: responde à dor com o castigo, multiplica a dor e faz dela uma justificativa para seus atos. A visão de Nietzsche seguiria Feuerbach em sua apreciação do cristianismo: “A alegria cristã é a alegria da ‘resolução’ da dor: a dor é interiorizada, oferecida a Deus por esse meio, conduzida a Deus por esse meio”. A crença em Deus é atrelada à dor; sofre-se por amor a Deus. Quando se diz que a dilaceração e a transvaloração independem da crucificação e da transubstancialização é porque o “caminho do salvador” nega a “vida santa que se acrescenta à dor”. A essência do trágico é a afirmação múltipla ou pluralista que coloca sua angústia na pergunta: “pode tudo vir a ser objeto de afirmação, quer dizer, de alegria?”. Atenção: o trágico não é a angústia ou a falta, “a nostalgia da unidade perdida”; sua alegria não é sublimação ou a solução moral da dor. A tarefa de Dionísio é a de nos tornar leves, dançarinos. No cristianismo e na tragédia há um problema em comum, o do sentido da existência. Em Nietzsche essa é a mais alta questão da filosofia, reunindo a interpretação do que existe e a avaliação para o uso criativo. Pode-se elaborar essa pergunta em outros termos: “O que é a justiça?”. Um ponto fixo e eternamente idêntico a si mesmo - Deus - interpretava a existência, julgada por um valor sempre igual, o “mesmo”. Seu dispositivo consistia em “acusar para recuperar e recuperar para acusar”. A valoração aceita correspondia ao ponto de vista da má consciência (Deleuze, 1988, p.17-21). Com Nietzsche a vida deve englobar o sofrimento ao invés de ser julgada por ele; o sofrimento é um de seus múltiplos. A vida olha com amor o seu Nowhereman, sentado em sua Waste Land, e lhe diz, fortemente: “Eu sou tu; já tu, para que continuemos livres e dignos, deves criar, ser outro, como eu diante de ti. Venha”, ordena por fim.“A Repetição Anticristã da Antigüidade no Auge da Modernidade” é o título do quarto capítulo do estudo de Karl Löwith sobre o Eterno Retorno. Título este que aponta para um retorno da diferença do modus vivendi grego que, repetido em outro período, pode trazer o velho sentimento de pertencimento do homem ao mundo. Dionísio contra o Crucificado, esse é o mote do pensamento nietzscheano. Exemplo dessa busca ética é o fragmento segundo de Empédocles, em que a racionalidade aparece como uma aceitação - trágica - da physis, o que faz o homem naturalizar uma defesa contra o niilismo e o não sentido da vida. A extrema clareza desse filósofo que também foi político mostra que o “isolamento” não é físico, mas diz muito mais respeito a uma escolha intelectual: “Pois estreitamente limitadas são as forças de que são dotados os membros dos homens; e numerosos são os males que caem sobre eles, entorpecendo os pensamentos. E em sua vida vêem apenas fraca parte da vida, e, condenados à morte próxima, são levados e dissipam-se como a fumaça no alto. Cada um convencido tão só daquilo que encontrou ao azar de seus muitos e incertos caminhos, embora se vanglorie de ter encontrado o todo. A tal ponto são estas coisas difíceis de serem vistas ou ouvidas ou apreendidas pelo espírito. Tu, porém, saberás, pois dos outros te separaste - mas não mais do que permite a inteligência do espírito mortal” (1972, p.68).Todavia, a oposição entre essas duas figuras - Cristo e Dionísio - não é tanto a respeito do sofrimento, mas ao que se faz com ele, realidade trazida pelo retorno da vida. Há um sofrimento cristão e um sofrimento bem diverso, o trágico. O cristão deve lutar para ter acesso a um ser sagrado que, com aparelhos institucionais, coordena toda uma grade de valores; o homem trágico, por sua vez, é “suficientemente sagrado” para justificar qualquer sofrimento. “O Deus na cruz”, diz ele, “é uma blasfêmia contra a vida, um signo para que nos libertemos dele” (Löwith, 1998, p.294-5). A constatação de que o cristianismo é contra a natureza não perfaz de si “um novo continente da alma”. Esse primeiro momento da verdade é o nada da moral de até então. E descobrir esse nada da moral é descobrir o não valor dos valores. A moral encarada por olhos trágicos é um conjunto de “mentiras fatais”, que assim o são - levam à morte e à loucura - porque fascinam a princípio. Em “O Nascimento da Tragédia” já se queria converter o “estado de espírito trágico”, típico da Grécia, num “pathos filosófico”, numa ferramenta de compreensão da realidade. A Grécia antiga se ergue como modelo de nossas possibilidades para o pensar, como uma cultura que recebeu outra cultura (op. cit., p.134-5). Trata-se, no século XIX e hoje, de refazer o Nó Górdio, de trazer os fragmentos dispersos ao léu, simplificar o mundo ao lhe dar uma forma, helenizar o que se orientalizou, dar ser ao devir (Nietzsche in idem, p.136-7). Esse “mundo simplificado” do qual fala Nietzsche na intempestiva sobre Wagner não é só o anel dos Nibelungos: “O ‘fragmento’ homem se completa no conjunto desse anel da história universal por uma vontade que quer atingir o que ainda poderia ser querendo retornar em direção do que já foi”. Liberta-se o futuro do pretérito, o homem do niilismo. No entanto, não se volta à Grécia - ou a qualquer localidade -, mas é algo dela que aparece. Todos os pontos de relação com os gregos antigos foram cortados, salvo seus conceitos (Löwith, 1998, p.137) e sua produção cultural. Em um fragmento Nietzsche delibera que é preciso passar das fórmulas às formas (in Löwith, 1998, p.137). Dizer não é a pré-condição para se dizer sim ao que é. Assim agir é tornar-se mais grego, novo Colombo do mundo antigo. A Grécia faz a síntese com o oriente, dando origem à Europa: a resistência e a disciplina de si ganham a “saúde mediterrânea”. Entrar em contato com o mundo antigo - e, por que não, com a história - é uma experiência, muito além da representação: “Para a lembrança do mundo antigo Nietzsche parou de viver intelectualmente e começou a viver”. A contraposição de Nietzsche a Sócrates passa, sobretudo, por Heráclito. Constata Löwith que o homem está “alienado do cosmos” e que, a partir de Sócrates, a metafísica se tornou história, no sentido moral ou grade de valores que norteiam as ações (Löwith, 1998, p.141-2). A tese de que o fogo é o gerador do processo cósmico pode ser conferida no fragmento 30: “Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida”. A unidade dos contrários no ser de tudo que é e existe, homem e mundo, pode ser facilmente depreendida dos fragmentos 51 e 67, por exemplo: “Eles não compreendem como, separando-se, podem harmonizar-se: harmonia de forças contrárias, como o arco e a lira”; e “Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Mas toma formas variadas, assim como o fogo, quando misturado com essências, toma o nome segundo o perfume de cada uma delas”. A dialética dos extremos do ser que mostra o devir tem seu registro no fragmento 88: “Em nós, manifesta-se sempre uma e a mesma coisa: vida e morte, vigília e sono, juventude e velhice. Pois a mudança de um dá o outro e reciprocamente” (1972, p.38-41). Segundo Löwith, aí estariam as primeiras bases para o Eterno Retorno.Nietzsche retira do efésio a noção de que tudo o que existe deve ter a “forma suprema do orgulho”; o orgulho se transforma então em pathos nobre, numa “identificação voluntária de si com a verdade”. O ser justifica o devir, não o pune - isso jaz no mundo desde sempre, e já era dito na Grécia (Löwith, 1998, p.142-3). “Ecce Homo” assume que a hipótese de Heráclito é possível e que mesmo o Eterno Retorno poderia ter sido ensinado por quem Nietzsche considerava ser seu antecessor (1957, p.79-80). Ao mostrar o devir do que a essência é o logos, Heráclito chega a uma “(...) medida transformada do tempo da percepção sensível, para a qual a duração aparente do mundo se dissolve numa ‘tempestade do devir’”. O jogo de Zeus e do fogo é como a criança a brincar e o artista que contempla sua obra - na aproximação secular da filosofia. O devir desconstrói a teleologia e, portanto, a noção de causalidade - pelo menos no sentido cosmológico, de uma natureza dotada de Razão ou de uma objetividade fetichizada, já que a vontade estabelece metas, que podem ser atingidas ou não, que realizam algo esperado ou não. Referenciando o homem no devir ao acontecimento específico da morte de Deus, os elementos em relação mudam, mudando também a relação. A morte de Deus desperta uma nova compreensão do mundo: “A história do pensamento preenche sempre um esquema fundamental de maneiras de pensar possíveis, e sob a influência de uma necessidade ele retorna sempre em direção de uma imemorial ‘organização interna da alma’”. A contingência histórica muda “a idéia imemorial do Eterno Retorno”. O Eterno Retorno de Nietzsche se debruça diante da absurdidade da fé cristã que destruiu a racionalidade do cosmos arbitrariamente. O cristianismo transvalorara o paganismo e agora é o ponto de partida. O pensamento de Nietzsche não é mais “grego”, não é a atualização do passado: a vontade de potência quer o futuro. Nietzsche era tão contraditório - cristão e anticristão - que somente o desejo de futuro e a vontade de criar o levariam adiante na tarefa de “desalienar o mundo” (Löwith, 1998, p.144-8). Enquanto a cosmologia grega acredita que o movimento das esferas celestes “revelava o logos cósmico e a perfeição divina”, Nietzsche depara-se com a contradição do retorno natural com a vontade que quer se libertar; enquanto um pensa no homem mortal - “Oh, alma minha, não almejai a vida eterna, mas esgota o campo do possível!” (Píndaro, Pítica III in Camus, 1967, p.9) - Nietzsche tentava imortalizar o homem (Löwith, 1998, p.149). Löwith também aponta semelhanças entre o pensamento de Empédocles e o de Nietzsche. No que chegou a nós de seus poemas é possível retirar a tese de que a vida sempre retorna a si - o que seria um dos primórdios do Eterno Retorno do ser. O fim de ambos filósofos foi bem distinto, contudo: enquanto o grego teve uma morte beirando o relato mítico - louco e cercado pelo povo foi tragado pelo vulcão Etna e, poucos antes de desaparecer nas incandescentes frestas da terra, anunciou “a verdade do renascimento” -, o pensador do Eterno Retorno faleceu vigiado por moralizantes e paralizantes quatro paredes, num quarto de doente (op. cit., p.215). O fragmento 17, excerto do poema “Sobre a Natureza”, talvez seja o mais representativo da obra de Empédocles. A fragmentação das coisas e a dissolução dos corpos faz parte do processo de geração do ser, ritmo do ciclo cósmico regido pelo amor e pelo ódio: “Dupla é a gênese das coisas mortais, duplo também seu aparecimento. Pois uma gera e destrói a união de todos [elementos]; a outra, [apenas] surgida, se dissipa, quando aqueles [os elementos] se separam. E esta constante mudança jamais cessa: às vezes todas as coisas unem-se pelo amor, outras, separam-se novamente [os elementos] na discórdia do ódio”. A vida não é imutável na geração cíclica da constante mudança: a criação faz o múltiplo do uno e também o uno do múltiplo (1972, p.69-70).
BIBLIOGRAFIA:
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Fonte: a) Texto: Revista Eletrônica em Ciências Humanas- Conhecimento e Sociedade - publicação on-line semestral - ISSN 1676-2924
http://www.unirio.br/morpheusonline/index.htm
b) Imagem: textando.zip.net/arch2005-03-01_2005-03-31.html
E-mail: chate@matrix.com.br

OBRA DE ARTE

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Amores na bela Capital Catarinense.