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domingo, 5 de julho de 2009

Poesia.

Eros e Psiquê
Fernando Pessoa
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Arte. Jessier Quirino.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Concerto para violino em lá menor, de Bach.

A Segunda Navegação.


Platão e a descoberta da Metafísica
Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Platão, cujo verdadeiro nome era Aristócles, nasceu em Atenas, em 428/427 a.C., e lá morreu em 347 a.C. Platão é um nome que, segundo alguns, derivou de seu vigor físico e da largueza de seus ombros (platos significa largueza).

Ele era filho de uma abastada família, aparentada com famosos políticos importantes, por isso não espanta que a primeira paixão de Platão tenha sido a política.Inicialmente, Platão parece ter sido discípulo de Crátilo, seguidor de Heráclito, um dos grandes filósofos pré-Socráticos. Posteriormente, Platão entra em contato com Sócrates, tornando-se seu discípulo, com aproximadamente vinte anos de idade e com o objetivo de se preparar melhor para a vida política. Mas os acontecimentos acabariam por orientar sua vida para a filosofia como a finalidade de sua vida.Platão tinha cerca de vinte e nove anos quando Sócrates foi condenado à beber o cálice de cicuta (veneno fortíssimo). Ele havia acompanhado de perto o processo de seu mestre, e o relata na Apologia de Sócrates. O fato de Atenas, a mais iluminada das cidades-estados gregas, ter condenado à morte "o mais sábio e o mais justo dos homens" - como falara mediunicamente o oráculo de Apolo, em Delfos - lhe deixou marcas profundas que determinariam as linhas mestras de toda a sua atividade de filósofo.Acredida-se que todas, ou uma boa parte da obra de Platão nos chegou inteira. Além de cartas e da Apologia de Sócrates, Platão escreveu cerca de trinta Diálogos que têm sempre invariavelmente Sócrates como protagonista. Nestas obras excepcionais, Platão tenta reproduzir a magia do diálogo socrático, imitando o jogo de perguntas e respostas, com todos os meandros da dúvida, com as fugazes e imprevistas revelações que impulsionam para a verdade, sem, contudo, revela-la de modo direto. O motivo pelo qual sua obra nos chegou praticamente intácta reside no fato de Platão ter fundado uma escola que se tornou famosa, e que era dedicada ao herói Academos. Daí o nome Academia.Platão foi o responsável pela formulação de uma nova ciência, ou, para ser mais exato, de uma nova maneira de pensar e perceber o mundo. Este ponto fundamental consiste na descoberta de uma realidade causal supra-sensível, não material, antes apenas esboçada e não muito bem delineada por aluguns filósofos, embora tenha sido um pouco mais burilada por Sócrates. Antes de Sócrates, era comum tentar-se explicar os fenômenos naturais a partir de causas físicas e mecânicas. Platão observa que Anaxágoras, um dos pré-socráticos, tinha atinado para a necessidade de introduzir uma Inteligência universal para conseguir explicar o porquê das coisas, mas não soube levar muito adiante esta sua intuição, continuando a atribuir peso preponderante às causas físicas. Entretanto, se perguntava Platão, será que as causas de caráter físico e mecânico representam as "verdadeiras causas" ou, ao contrário, representam simples "concausas", ou seja, causas a serviço de causas mais elevadas? Não seria o visível fruto de algo mais sutil?Para encontrar a resposta às suas dúvidas, Platão empreendeu aquilo que chamou simbolicamente de "a segunda navegação". A primeira navegação seria o percurso da filosofia naturalista. A segunda navegação seria a orientação metafísica de uma filosofia espiritualista, do inteligível. O sentido do que seja essa segunda navegação fica claro nos exemplos dados pelo próprio Platão.Se se deseja explicar por que uma coisa é bela, um materialista diria que os elementos físicos como o volume, a cor e o recorte são bem proporcionais e causam sensções prazerosas e agradáveis aos sentidos. Já Platão diria que tudo isso seria apenas qualidades que evocariam uma lembrança de algo ainda mais belo, vista pela alma no plano espirtiual, mas que não está acessível ao plano físico. O objeto seria apenas uma cópia imperfeita, por ser material, de uma "Idéia" ou forma pura do belo em si.Vejamos um outro exemplo:Sócrates está preso, aguardando a sua condenação. Por que está preso? A explicação mecanicista diria que é porque Sócrates possui um corpo corpulento, composto de ossos e nervos, etc, que lhes possibilitam e lhe permitiram locomover-se e se deslocar por toda a vida, até que, por ter cometido algum erro, tenha-se dirigido à prisão, onde lhe sejam postas as amarras. Ora, qualuer pessoa sabe a simplificação desse tipo de argumento, mas é justamente assim que falam o materialistas-mecanicistas até os dias de hoje. Mas este tipo de explicação não oferece o verdadeiro "porquê", a razão pela qual Sócrates está preso, explicando apenas o meio pelo qual pode uma pessoa ser posta num cárcere devido ao seu corpo. Explica o ato, descrevendo-o, e não suas causas. A verdadeira causa pela qual Sócrates foi preso não é de ordem mecânica e material, mas de ordem superior, da mesma forma que um computador não executa um complexo cálculo matemático pela ação de seus componentes em si, mas devido a algo de ordem superior e mais abstrato: o seu programa, o software. Sócrates foi condenado devido a um julgamento de valor moral usado a pretexto de justiça para encobrir ressentimentos e manobras políticas das pessoas que o odiavam. Ele, Sócrates, decidiu acatar o veredicto dos juízes e submerter-se à lei de Atenas, por acreditar que isso era o correto e o conveniente, pois ele era cidadão de Atenas, mesmo ciente da injustiça de sua condenação. E, em conseqüência disto, dessa escolha de ordem moral e espritual, ele, em seguida, moveu os músculos e as pernas e se dirigiu ao cárcere, onde se deixou ficar prisioneiro.A segunda navegação, portanto, leva ao conhecimento de dois níveis ou planos do ser: um, fenomênico e visível (a nível do hardware, como diríamos em linguagem de computação); outro, invisível e metafenomênico, (a nível do software), inteligível e compreensível pela razão e pela intuição.
Podemos afirmar, como falam Reale & Antiseri, que a segunda navegação platônica constitui uma conquista e assinala, ao mesmo tempo, a fundação e a etapa mais importante da história da metafísica. Todo o pensamento ocidental seria condicionado definitivamente por essa "distinção" entre o físico (o hardware) e o causal (o software, a ordem implicada que causa a ordem explicada), tanto na medida da sua aceitação quanto de sua não aceitação através da história. Se ela não é aceita, a pessoa que não a aceita terá de justificar a sua não aceitação, gerando uma polêmica que continuará dialeticamente a ser condicionada ao fato de que existe - ao menos filosoficamente - algo que se chama metafísica.Só após a "segunda navegação" platônica é que se pode falar de material e espiritual. E é à luz dessas categorias que os físicos anteriores a Sócrates, e muitos físicos modernos, podem ser tachados de materialistas, mas agora a natureza não pode mais ser vista como a totalidade das coisas que existem, mas como a totalidade das coisas que aparecem. Como diria o Físico David Bohm, a ordem explícita é apenas conseqüência de uma ordem implícita, superior e invisível. O "verdadeiro" ser é constituído pela "realidade inteligente" e "inteligível" que lhe é transcendente.
Fonte: http://www.geocities.com/Vienna/2809/platao.html

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Gótico Tardio - Gerard David.

O Descanso durante a fuga para o Egito.

Sobre “El Filósofo Autodidacta”


Rafael Lanzetti


Depois de muito procrastinar, pus-me a redigir este texto sobre uma das obras que mais me marcaram até hoje - El filósofo Autodidacta, de Ibn-Tufayl.
Abu Bakr Muhammad ibn 'Abd al-Malik ibn Tufayl (conhecido simplesmente como Ibn-Tufayl ou Abentofail), filósofo, poeta, teólogo, matemático, astrônomo e médico, nasceu Guadix, na Andaluzia, no começo do século XII. Durante toda a chamada Baixa Idade Média, até o final do século XV, a Espanha, mais especificamente a Andaluzia (Al-Andalus) figurou-se esplêndida em termos de arte, ciência, enfim, civilização. Foi uma das poucas regiões na geografia e história da humanidade onde viveram em paz judeus e muçulmanos. O primeiro Renascimento, muito antes do Renascimento Ocidental, ocorreu ali, por mãos e cabeças de árabes e judeus. Para os que estudam tradução, é extremamente importante investigar o que ocorreu na Escola de Toledo, a primeira instituição organizada de tradutores do mundo, onde foram estabelecidos os primórdios das teorias de tradução com as quais lidamos até hoje, principalmente através de Maimônides.
Abentofail cresceu neste ambiente iluminado, teve uma vida solitária e dedicada ao conhecimento e morreu no Marrocos por volta do ano 1185, deixando um legado intelectual incalculável. Sua obra mais conhecida é O filósofo autodidata.
No prólogo da novela, Abentofail já expressa sua maior inquietude - o conflito entre razão e fé. Sua tese, bem parecida com a dos primeiros apologistas cristãos, era a de que, ao usar boa razão, se chega à fé. É possível chegar à fé por revelação divina, mas também é possível chegar a Deus através da observação do mundo fenomênico.
No começo da novela, Abentofail introduz o protagonista, Hay Benyocdan e dá duas versões para o seu nascimento: a primeira, que teria sido criado por uma estranha conjunção de elementos a partir de um punhado de barro. A segunda, mais aceita, que teria nascido bastardo e lançado ao mar numa pequena balsa por sua mãe, temerosa de que alguém descobrisse seu delito. A partir daí, Abentofail descreve como o menino Hay cresceu numa ilha deserta (que alguns acreditam ser o Sri Lanka), e foi criado por uma gazela.
Assim como Adão, Hay logo se descobre nu e cobre suas vergonhas. Ao observar os outros animais, descobre que é o único que não está coberto com pelagem natural, e se sente sozinho, assim como Robinson Crusoé. Aliás, Borges chamou Hay de "Robinson Crusoé metafísico", daqui a pouco explico o porquê.
Dois acontecimentos, no entanto, mudam o curso de sua vida - a morte da gazela que o criara e o descobrimento do fogo. Quando a gazela morre, Hay, em sua angústia, começa a se perguntar o que existe na essência dos seres que os faz estar vivos. Assim, começa a dissecar o cadáver da gazela e a remexer em suas vísceras em busca do que seria a sua alma, tudo em vão. Ao descobrir acidentalmente o fogo, através de um raio, Hay fica maravilhado e imagina que o princípio da vida dos seres, a alma, deve ser algo similar ao fogo.
Depois disso, Hay começa a trabalhar - aperfeiçoa a arte da construção de cabanas, a confecção de roupa, a culinária e a domesticação de animais. Ao reparar, um dia, em seu rebanho, começa a pensar que a alma dos animais devia ser diferente da alma das plantas.
Para entender o mundo que o cerca, Hay começa a observar os astros e seus movimentos rotatórios. Neste ponto, Hay chega ao ápice de sua viagem filosófica - à conclusão de que, para existir tudo o que existe, no céu e na terra, para existir um mundo vivo e móvel, deve existir um ser superior que tudo comanda, e que tudo criou, que colocou no mundo tudo o que há. Hay chega a Deus - sem língua, sem civilização, sem escolaridade sistemática.
Depois disso, Hay considera que comer animais e arrancar frutos das árvores é uma afronta ao plano divino e se converte em um asceta fanático. Para assemelhar-se aos astros, decide imitar seus movimentos rotatórios e começa a rodar em volta de si mesmo e ao redor da ilha. Segundo meu amigo Pablo Maurette, filósofo argentino que me apresentou o texto de Abentofail em meados de 2001, em uma de nossas conversas,
En el siglo XIII, menos de cien años luego de la muerte de Abentofail, unmístico y poeta conocido como Rumi fundaría en Turquía la orden de los dervichesmevlevís, que subsiste hasta el día de hoy (aún se los puede ver girar comotrompos en sus templos de Estambul y de Konia). Los mevlevís, al igual que HayBenyocdan, giran imitando a los planetas para entrar en vertiginoso trance yacercarse a la divinidad.
Finalmente, Hay se entrega à meditação, recolhendo-se a uma caverna. Dentro da caverna, tem um encontro místico com Deus, assim magistralmente descrito por Abentofail:
De este modo escuchó la voz de Dios que se le reveló como único y omnipotente,como rey de reyes. En aquella cueva Hay Benyocdan se abismó y contempló lo queojo no vio, ni oído oyó, ni pudo ocurrírsele al corazón del hombre.
Um dia, chega à ilha Asal, um teólogo, pregador muçulmano renegado que fugia de seus perseguidores. Asal encontra Hay e ensina-lhe árabe e o Corão. Hay confirma, no texto sagrado dos muçulmanos, tudo aquilo que havia aprendido sozinho a partir da contemplação da natureza. Asal, espantando com aquela sabedoria incivilizada, decide se juntar a Hay em sua vida reclusa.
As interpretações do magistral texto de Abentofail são muitas, e não teria condições físicas e capacidade filosófica para fazê-las todas aqui. Quero focalizar apenas duas de minhas interpretações e deixar o texto para quem quiser comentar com suas próprias idéias.
A primeira coisa que podemos extrair do texto é que Hay, sem língua, possui pensamento, que vai se tornando tão complexo, que chega a Deus. É possível pensar sem língua? Prometo voltar a esse assunto em breve, mas, resumindo, posso dizer que, nós, seres humanos, somos dotados de uma habilidade ímpar denominada Linguagem. A Linguagem, Lógos em grego, é o que nos permite interagir com o mundo, é o que me faz acreditar que, se me puser de pé, o chão me servirá de base, que o objeto que vejo em cima de uma mesa pode ser palpado se estiver ao alcance de minhas mãos, que um sibilar na mata pode significar que uma cobra está a espreita. A Linguagem é inata, e não há como nos desvencilhar dela - ela é condição sine qua non para a vida. Num âmbito agora cultural, social, existe a língua, ligada diretamente ao grupo social em que estou inserido. A língua me permite pura e simplesmente comunicar com outros que partilham do mesmo meio social. A pergunta é: onde estaria o pensamento? Primordialmente na linguagem, ou apenas na língua? Se a resposta for a primeira, isso quer dizer que a lógica independe de rótulos, ou seja, é possível pensar sem palavras. Se a resposta, no entanto, for a segunda, a isso equivale dizer que só podemos pensar porque conhecemos: 1. os rótulos dos pensamentos (das palavras que os formam) e 2. as estruturas lógicas que podem ser formuladas a partir dos sistemas das línguas humanas. A tese de Abentofail é a de que o pensamento reside na Linguagem, é tão primordial e inato quanto ela. Abentofail estava certo? Deixo minha resposta para outro dia.
A segunda interpretação, um pouco mais ética e moral, tem a ver com o fato de Hay ter chegado a Deus. Abentofail sugere, com isso, que fé e lógica não são, como diz meu amigo Pablo, como duas mulheres do mesmo homem - quando se agrada uma, entristece-se a outra. Através da lógica também é possível chegar à fé. Pelo contrário, através do emprego da boa razão e da boa fé é possível, segundo o filósofo Andaluz, chegar ao mesmo destino.
Hay é o "Robinson metafísico", segundo Borges, justamente por estas duas razões - ele é um solitário eremita que, sem língua, sem civilização, tece pensamentos cada vez mais complexos, até que chega à fé, à crença naquilo que não se vê. É um Robinson Crusoé meio-oriental muito mais complexo filosoficamente e esquecido pela tradição ocidental.
Gostaria de saber o que meus leitores pensam sobre o texto de Abentofail. Se quiserem, escrevam comentários com suas interpretações. Todas as opiniões serão bem-vindas
.
Texto retirado de: http://polipoiesis.blogspot.com/2007/08/o-filsofo-autodidata.html
Ilustração de Hay de autor desconhecido.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Arte. Pintura. O Gato de Miró.


Arte - Ballet.

Rudolf Nurejev e Margot Fonteyn in Swanlake.

FILOSOFIA DA IDADE CONTEMPORÂNEA

Juán Manuel NAVARRO CORDÓN; Tomás CALVO MARTÍNEZ.
Consideramos como contemporânea a filosofia que se estende, dentro da imprecisão cronológica própria das produções culturais, a longo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX. A filosofia contemporânea, nas suas linhas mais fundamentais e características, só pode ser adequadamente compreendida em relação com a obra de Hegel. Com efeito, a filosofia contemporânea constitui em grande medida uma reação contra o sistema hegeliano,ao mesmo tempo que retoma poucas das suas análises e interrogações.
A mais notável e radical reação contra o sistema de Hegel é feita por
Marx, pelo marxismo. O marxismo, entroncado originalmente na esquerda hegeliana, distingue e separa o sistema hegeliano (idealista) do método dialético. Aceitando e transformando este último, a filosofia marxista "inverte" o sistema de Hegel, propondo uma visão dialéctica-materialista da consciência, da sociedade e da história.
Outra reação contra o hegelianismo - reação estreitamente vinculada à situação econômica, social e intelectual resultante da revolução industrial - é representada pelo positivismo, especialmente o de Comte. Neste caso, reage-se contra o "racionalismo" hegeliano naquilo que possa ter de menosprezo da experiência, com a pretensão de instaurar um saber positivo, capaz de fundamentar uma organização político-social nova. Como Marx, Comte conserva, no entanto, embora transformando-o, um momento importante do hegelianismo: a ideia de "espírito objetivo".
O positivismo (tomado, em geral, como uma atitude renitente à especulação filosófica e propenso a considerar a ciência como forma de conhecimento, não só modelar, mas exclusiva) constitui, além disso, uma constante na história do pensamento. Apesar das suas notáveis diferenças na maneira de pôr os problemas, é possível reconhecer esta linha no empirismo do século XVIII, no positivismo do século XIX e no positivismo lógico ou empirismo lógico do século XX. O empirismo lógico ou positivismo lógico do séc. XX constitui um dos movimentos (juntamente com o "atomismo lógico" e a filosofia analítica, integrantes da corrente analítica dos nossos dias, cuja máxima originalidade consiste em haver transformado o próprio conceito de filosofia: para a corrente analítica, a filosofia não tem por objecto a realidade, mas a análise da linguagem acerca da realidade, quer se trate da linguagem ordinária ou comum, ou da linguagem científica acerca da realidade.
Outras correntes da filosofia contemporânea tomaram como objecto principal de consideração o fenômeno da história, da vida e da irredutibilidade da existência pessoal: as filosofias historicistas, vitalistas, existencialistas e personalistas. O
existencialismo constitui, originalmente, uma reacção contra o hegelianismo e em favor da individualidade, colocando em primeiro plano a categoria de singularidade, preferida pelo "sistema dialéctico" de Hegel (Kierkegaard). No seu desenvolvimento no século XX (Heidegger, Sartre), a par da reacção anti-hegeliana já apontada, o existencialismo depende directamente da fenomenologia de Husserl, no tocante às suas análises da existência humana. Quanto ao vitalismo d e Nietzsche, representa uma reacção não apenas contra Hegel, mas contra toda a tradição intelectualista-religiosa que se opôs à vida e aos valores vitais, desde que se verificou a aliança do platonismo com o cristianismo.
Mesmo quando as correntes filosóficas que mencionámos remetem directa ou indirectamente para Hegel, seria errado deduzir dele, por oposição ou continuação (ou por ambas as coisas), todo o pensamento contemporâneo. O descrédito geral da especulação filosófica subsequente ao hegelianismo conduziu a atitudes
relativistas e cépticas contra as quais se levantou também a filosofia. Este enfrentamento com o relativismo e o cepticismo tornou-se patente a partir de diferentes posições, tanto na fenomenologia de Husserl (intento de fazer da filosofia uma ciência de rigor), como nas investigações acerca da vida e da história levadas a cabo por Dilthey e Ortega y Gasset. Estes dois filósofos pretendem compreender a vida e a história com base em categorias especificas rigorosas.
Talvez a característica externa mais saliente da filosofia contemporânea seja a disparidade de enfoques, sistemas e escolas, face ao desenvolvimento, de certo modo mais uniforme e linear, da filosofia moderna (racionalismo, empirismo, Kant, idealismo hegeliano). Para esta proliferação de pontos de vista e de escolas, contribuíram, em grande medida, factores sócio-culturais, como: a crise contemporânea dos sistemas políticos, o avanço espectacular das ciências naturais e lógico-formais e o desenvolvimento das ciências humanas, cujos métodos e resultados tiveram repercussões e consequências de interesse no campo e nos problemas da filosofia (psicanálise, estruturalismo).
Juán Manuel NAVARRO CORDÓN; Tomás CALVO MARTÍNEZ
História da Filosofia, 3º vol., p. 7-9
Texto retirado do blog http://ocanto.esenviseu.net/apoio/fcntmpor.htm em 20/05/09.

quarta-feira, 18 de março de 2009

SANTO ANSELMO



SOBRE A RELAÇÃO ENTRE A FÉ E A RAZÃO

José Roldão

Santo Anselmo sublinha o fato de que o intelecto deve pôr-se à procura daquilo que ama: quanto mais ama, mais deseja conhecer.
Quem vive para a verdade, tende para uma forma de conhecimento que se inflama num amor sempre maior por aquilo que conhece, embora admita que ainda não fizera tudo aquilo que estaria no seu desejo: ‘Ad te videndum factus sum; et nondum feci propter queuod factus sum’. Assim, o desejo da verdade impele a razão a ir sempre mais além; esta fica como que embevecida pela constatação de que a sua capacidade é sempre maior do que aquilo que alcança. Chegada aqui, porém, a razão é capaz de descobrir onde está o termo do seu caminho: ‘Penso efetivamente que, quem investiga uma coisa incompreensível, se deve contentar de chegar, pela razão, a reconhecer com a máxima certeza a sua existência real, embora não seja capaz de penetrar, pela inteligência, o seu modo de ser (…).
Aliás, que há de tão incompreensível e inefável como aquilo que está acima de tudo? Portanto, se aquilo de cuja essência suprema discutimos até agora, ficou estabelecido sobre razões necessárias, ainda que a inteligência não o possa penetrar de forma a conseguir traduzi-lo em palavras claras, nem por isso vacila minimamente o fundamento da sua certeza.
Com efeito, se uma reflexão anterior compreendeu de maneira racional que é incompreensível (rationabiliter comprehendit incomprehensibile esse) o modo como a sabedoria suprema sabe aquilo que fez (…), quem explicará como ela mesma se conhece e exprime, dado que sobre ela o homem nada ou quase nada pode saber?’.
Para Santo Anselmo ‘A prioridade da fé não faz concorrência à investigação própria da razão. De fato, esta não é chamada a exprimir um juízo sobre os conteúdos da fé; seria incapaz disso, porque não é idônea. A sua tarefa é, antes, saber encontrar um sentido, descobrir razões que a todos permitam alcançar algum entendimento dos conteúdos da fé.
Santo Anselmo sublinha o fato de que o intelecto deve pôr-se à procura daquilo que ama: quanto mais ama, mais deseja conhecer.
Quem vive para a verdade, tende para uma forma de conhecimento que se inflama num amor sempre maior por aquilo que conhece, embora admita que ainda não fizera tudo aquilo que estaria no seu desejo: ‘Ad te videndum factus sum; et nondum feci propter queuod factus sum’. Assim, o desejo da verdade impele a razão a ir sempre mais além; esta fica como que embevecida pela constatação de que a sua capacidade é sempre maior do que aquilo que alcança. Chegada aqui, porém, a razão é capaz de descobrir onde está o termo do seu caminho: ‘Penso efetivamente que, quem investiga uma coisa incompreensível, se deve contentar de chegar, pela razão, a reconhecer com a máxima certeza a sua existência real, embora não seja capaz de penetrar, pela inteligência, o seu modo de ser (…).
Aliás, que há de tão incompreensível e inefável como aquilo que está acima de tudo? Portanto, se aquilo de cuja essência suprema discutimos até agora, ficou estabelecido sobre razões necessárias, ainda que a inteligência não o possa penetrar de forma a conseguir traduzi-lo em palavras claras, nem por isso vacila minimamente o fundamento da sua certeza.
Com efeito, se uma reflexão anterior compreendeu de maneira racional que é incompreensível (rationabiliter comprehendit incomprehensibile esse) o modo como a sabedoria suprema sabe aquilo que fez (…), quem explicará como ela mesma se conhece e exprime, dado que sobre ela o homem nada ou quase nada pode saber?’.
Para Santo Anselmo ‘A prioridade da fé não faz concorrência à investigação própria da razão. De fato, esta não é chamada a exprimir um juízo sobre os conteúdos da fé; seria incapaz disso, porque não é idônea. A sua tarefa é, antes, saber encontrar um sentido, descobrir razões que a todos permitam alcançar algum entendimento dos conteúdos da fé.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Entrevista.


Por Marcelo Morais Caetano

Carioca de Santa Teresa, Ana Maria Machado foi militante estudantil contra a ditadura militar, presa, exilada política, repórter, redatora, radialista, pintora profissional, tradutora, professora doutora em Linguística e Semiologia pela universidade francesa Sorbonne, empresária, esposa, mãe e, sempre, escritora. Vivendo parte de sua infância em Manguinhos, no litoral do Espírito Santo, aprendeu com os pescadores locais o sabor da oralidade e das tradições populares. Por outro lado, tendo na família jornalistas e intelectuais fortemente engajados em movimentos políticos, pôde conhecer desde cedo o valor da ética e o quanto se deve lutar por ela. Além de ter se iniciado, na mais tenra infância, com a leitura dos grandes clássicos da literatura, como Dom Quixote, Ilíada, Huckleberry Finn – experiência que registra em Como e por que ler os clássicos universais.

Assim, Ana privilegiou a palavra (bem) trabalhada como sua principal ferramenta de expressão, unindo desde sempre a delicadeza do universo infantil, a erudição do ambiente acadêmico e a profundidade emocional do mundo adulto. Seus personagens representam um pouco de tudo o que há no Brasil, real e folclórico: a mistura de etnias, os contos populares passados de boca em boca, as tradições que o povo leva pelas gerações (como o carnaval), além de um mundo mágico de elfos, fadas, dragões, unicórnios, sereias, bois voadores... enfim, toda essa riqueza imaterial que faz parte do inconsciente coletivo do brasileiro.

Sua primeira publicação foi a tese de doutorado, orientada pelo semiólogo francês Roland Barthes, Recado do nome (1976). Logo em seguida, publicou sua primeira obra infantil, Bento que bento é o frade (1977), ganhadora do título “Altamente recomendável” concedido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Já seu primeiro romance para adultos, Alice e Ulisses, veio alguns anos depois (1983).

Ana Maria Machado foi eleita em 24 de abril de 2003 para ocupar a cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras. Além disso, é detentora de vários prêmios no Brasil e no exterior, incluindo muitos dos mais importantes que existem, como o Casa de las Américas (Cuba, 1980), o Hans Christian Andersen, pelo conjunto da obra infantil (2000), o Prêmio Machado de Assis da ABL pelo conjunto da obra (2001), além do Jabuti, Prêmio da Bienal de São Paulo e APCA, entre outros, e prestigiosas menções como a da Apple (Associação pela Promoção do Livro Infantil, Instituto Jean Piaget, Genebra), e a do Americas Award (Estados Unidos). Nesta entrevista, a autora fala de como consegue transitar entre universos tão distantes e, para muitos, inconciliáveis.


Marcelo Morais Caetano

Recado do nome foi sua tese de doutorado, orientada por Roland Barthes, e é sobre linguística e semiologia. A seu ver, essa incursão no campo da semiótica influenciou, consciente ou inconscientemente, os títulos de suas obras, o nome dos personagens e sua própria construção frasal, estilisticamente tão rica de significantes e jogos sonoros entre as palavras? É claro que sim. Eu só não saberia dizer exatamente o nível de consciência que tenho sobre essa criação. Mas comecei fazendo uma pesquisa sobre o nome próprio no engendramento do texto literário. Então, é claro que tenho uma consciência do papel que ele desempenha, da importância dele. Alice e Ulisses, especificamente, surgiu num momento em que eu estava na França. E, em francês, eles rimam ainda muito mais do que em português: é “Alice et Ulisse”. Então, eu parei e pensei: meu Deus do céu, isso dá o maior samba! “Alice et Ulisse”, você tem aí um encontro que é capaz de detonar uma carga explosiva de muitos megatons. E são dois arquétipos. “Feliz aquel que como Ulisses quer voltar ao seu reino, a Ítaca!” Aquele homem que leva 18 anos fora de casa, em todas as aventuras, e sempre tentando voltar. E a Alice, entrando de peito aberto no país das maravilhas, topando qualquer coisa que venha. Ela está sempre disponível: ela prova, ela come, ela bebe, ela conversa, ela faz qualquer coisa... Então, acho que esse encontro tinha um valor simbólico, arquetípico tão forte que pedia um livro. Senti que eu tinha que fazer, senão outra pessoa ia acabar fazendo. Foi um insight. Levei cinco anos fazendo. Inicialmente, ele tinha 250 páginas e era narrado em primeira pessoa, pela mulher. Aí, achei que, por ser o primeiro romance de uma escritora mulher, todo mundo ia pensar que era um romance autobiográfico, confessional. Todo esse preconceito. Já era uma história de amor... Então, resolvi inverter, fazer com que fosse narrado pelo homem, e reduzi para 170 páginas. Depois, achei que o melhor ia ser ficar na terceira pessoa e reduzi para 80.

Sobre esse processo de reduzir o texto. Como você consegue fazer isso? Tive muita prática como editora. Em rádio, por exemplo, você tem às vezes dois minutos para dizer algo. E não pode passar desse tempo. Então, a gente precisa de uma imagem, que vale mil palavras... Creio que, entre os infinitos tipos de escritores, há dois que me vêm à mente: um escritor como Guimarães Rosa, que estava sempre acrescentando coisas em seus originais, a tal ponto que o seu editor uma bela hora lhe dizia: “Chega!”; e há autores como Graciliano Ramos que, diante de seus originais, a cada vez que se defrontava com eles, retirava alguma coisa. Então, acho que a minha maneira de escrever, não o meu estilo, mas a minha forma de ir cortando, editando, é do Graciliano. No momento em que estou escrevendo, não me preocupo com isso, não me policio. Depois, corto. No caso de Alice e Ulisses, eu realmente queria muito chegar ao sumo. É diferente de meu segundo romance, por exemplo, Tropical sol da liberdade, em que eu não tinha essa necessidade, porque tinha muitas ações paralelas, além de uma mistura de gêneros - tem uma parte que é carta, uma que é peça de teatro, outra que é diário... Agora, Alice e Ulisses é linear, tinha que ser uma novela, então, tudo precisava convergir para isso. E ficava uma chatice se deixasse com 250 páginas! Foi meu primeiro romance, então, eu tinha muito medo.

O romance Uma vontade louca também trata de um homem e uma mulher que discordam diametralmente de pontos de vista em relação à vida. É, mas, engraçado, nesta obra, só por acaso, os personagens são um homem e uma mulher. Podia ser qualquer pessoa. Na minha cabeça, o tema verdadeiro do romance é o contraste das visões de mundo: espírito científico e artístico. Mas acho que ele nasce realmente de um caso pessoal. Fiz científico, pois me preparava para cursar química ou arquitetura. Meu avô era físico e matemático, e sempre tive um lado de economista muito marcante, sempre lidei muito bem com números, já cheguei a exercer funções nas quais isso era obrigatório. Então, sempre tive uma atração pelas duas visões de mundo, a exata, numérica, matemática, e a artística. Uma vontade louca traduz bem isso. E a síntese dele, que é quando essas visões divergentes convergem no carnaval, é também uma experiência bem minha. Passei por anos e anos o carnaval em Manguinhos, no Espírito Santo, e essa lembrança fica em mim de forma muito eloquente. É uma festa com uma tradição de 60 anos. Havia muito tempo que eu queria contar essa experiência, essa lembrança.
Uma grande preocupação que pode ser observada em sua obra é a questão da ética, ou das éticas em convívio, conflito, contraste, harmonia e desarmonia. Em Era uma vez um tirano, por exemplo, chega a ser o tema central. Por que você o escreveu e como ele chegou ao Berliner Ensemble (o teatro de Bertolt Brecht), onde ocorreram leituras dramatizadas do texto? Este é um livro infantil e já estava traduzido para o alemão. No ano em que houve essas leituras dramáticas, o Brasil estava sendo homenageado em Frankfurt. Eu quis fazer num momento em que a Ruth Rocha, que é uma grande amiga, além de minha cunhada, havia escrito quatro obras chamadas A tetralogia dos reis [
O reizinho mandão, O rei que não sabia de nada, O amigo do rei(esgotado), Sapo vira rei, vira sapo(esgotado)]. Isso, durante a ditadura, questionando o autoritarismo; eu tinha escrito o Bento que bento é o frade, e ela tinha feito o dos reis. E aí, de repente, já era 1980 ou 81, já havia acontecido anistia, e então pensei: vamos experimentar dar nome aos bois... O AI-5 ainda estava em vigor. Resolvi experimentar o que acontecia se a gente, em vez de chamar de rei, chamasse de ditador, tirano. Como ditador era sempre usado, tirano dava o recado direitinho. Era uma questão de testar isso. Já havia sido suspensa a censura prévia, mas ainda havia a censura ao rádio e à televisão. Então, era uma maneira de testar um limite. E ele foi muito calcado na situação do Chile, mais até que na do Brasil. O nível de proibição no Chile era muito maior do que aqui. Era o Chile de Pinochet.

Como e por que você começou a escrever livros infantis? Na verdade foi um convite da revista Recreio. No começo, não entendi muito bem o porquê, mas deu muito certo. Quando a história que a Recreio publicava era minha ou da Ruth Rocha, a revista vendia 5 vezes mais nas bancas. Se antes ela vendia 50 mil, quando uma de nós escrevia, ela vendia 250 mil. Os leitores nos quiseram, por isso, é claro, que o editor queria alternar uma história dela e uma das minhas, foi nos encomendando e nós fomos fazendo. No começo, eu tinha muita dificuldade, mas depois passou a vir com muita naturalidade. Então, fui para o exílio e comecei a escrever a história do papagaio longe de casa num lugar frio. Falava de mim, falava dos meus filhos, da minha vida, sob a aparência daquela história, e descobri que era um espaço de liberdade extraordinário, e me permiti fazer uma experiência linguística que para mim foi um desafio, a possibilidade de trabalhar com linguagem coloquial, oralizante, familiar, brasileira, de criar uma obra cheia de sentidos, poética, humorística, ambígua, divertida, plurissêmica. Esse desafio foi fascinante. Senti-me assim pegando o bastão do Manuel Bandeira, aquele negócio da língua errada do povo, a língua certa do povo, a língua gostosa do povo. Vamos fazer uma coisa gostosa com isso, com diálogos como as pessoas falam. Então, a literatura infantil me deu essa possibilidade com a linguagem.

Você acha equivocado que se trate uma grande parte de sua obra infantil como livros didáticos ou paradidáticos, como os que tratam do uso correto das letras, dos fonemas, dos encontros consonantais, dos dígrafos etc? Não são didáticos. Na verdade, para mim, eles não são uma porção de livros: são um só publicado em fascículos. São um único projeto: a série Mico Maneco. Começou no exílio, quando vi meu filho aprendendo a ler em inglês sem ler em português. Aí, fiquei preocupada. Foi uma experiência terrível de desenraizamento. Ele falava português, mas não sabia escrever. Tive que bolar um sistema que ensinasse a ler, mas não sabia como. Não estudei pedagogia, mas estava me doutorando em linguística, então, pude formular uma hipótese científica de como poderia se dar isso. Imaginei que a ordem de aquisição daqueles fonemas deveria se dar na mesma ordem em que a gente aprende a falar, que se dá exatamente nos músculos pelos quais aprendemos a mamar: “mã”, “pã”. Então, vieram as bilabiais, as plosivas. Fiz famílias de sílabas com esses fonemas e criei um jogo. A gente sentava no chão e pegava cartas com fonemas e inventava histórias. Eu tinha trabalhado um pouco com método Paulo Freire e usei com eles as palavras geradoras. Ou seja, eles trouxeram o universo deles. O que é que eles queriam? Cavalo, que é coisa de menino. Fiquei com isso. E rapidamente vi que, desde a primeira sessão, dava para formar não só palavras, mas frases. Então, escrevi o que a gente tinha feito. Fizemos quatro histórias diferentes com a mesma sílaba. Depois, parti para outras, como Uma gota de mágica. No fim, vi que podia escrever livros com essas histórias. Não acho que devam ser chamados só de didáticos, porque têm toda uma exploração como "a lua na taba alumia tudo", tem preocupação com certos arcaísmos, com ritmos, "Caiu um toco no pé do tatu", é uma proposta poética.

Você disse que Tropical sol da liberdade, Um avião e uma viola e O mar nunca transborda foram bastante difíceis para escrever. Por quê? O Tropical sol foi mexendo com elementos biográficos e de pesquisa histórica. Tive que ir para a Biblioteca Nacional, ver microfilme, coisas da imprensa da época. E não sou historiadora.
Um avião e uma viola, levei muitos anos escrevendo, porque é uma brincadeira com palavras, ou um poema que não rima no final, mas tem uma rima interna no início do sintagma. Então, você diz "um avião, uma viola", "uma labareda, um malabarista", “uma lambisgóia, um alambique", "um mafuá, uma fuinha". Deu trabalho para encontrar um nível de nonsense, de absurdo, em torno de palavras muito concretas, capaz de comunicar para uma criança, pois eu não podia usar palavras abstratas. O mar nunca transborda foi bastante trabalhoso, porque teve também uma experiência de pesquisa, são cinco séculos de História do Brasil e, em cada um, uso o sotaque da época. Quando saiu, destoava de todos os meus demais, mas em seguida escrevi dois outros em que uma parte se passa no século 19, que foram A audácia dessa mulher e Palavra de honra.

Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa para você? Alarido. Não pelo significado, eu detesto barulho, mas pelo som.

Qual a palavra mais feia?

Ignóbil. O que a faz chorar?

Muita coisa, sou uma manteiga derretida. Eu choro com jornal, com noticiário na televisão, choro com a enchente em Santa Catarina, com tiroteio na favela, chorei ontem com um olhar de um menino na TV... O que a faz rir? Muita coisa também. Devo ser muito rica, porque rio à toa. Tenho um ótimo humor. Eu acordo feliz. Agora, quer me ver de péssimo humor, me põe para fazer palestra às nove da noite. Sinto sono cedo. Não consigo responder minimamente à plateia. Do que você tem medo?

De perder a independência. De não ser autônoma, de ter que depender dos outros. Isso seguramente é uma das coisas. E tenho medo de abandono na velhice. Acho que as duas coisas até têm a ver.

Que pergunta para você não tem resposta?

Olha, aprendi na minha pré-adolescência, com a minha família, que tem coisas que você não precisa responder, não tem que responder e, se não quiser, não responde. Por exemplo, quanto você ganha, com quem você dorme, qual é a sua doença, onde operou... Hoje em dia, se perguntam isso, eu sei que não preciso responder.

O que traz alegria para você?

Gente que eu gosto. Acho que a principal coisa é gente, amigos, família...

Um elogio inesquecível?

Uma vez, uma repórter mexicana me entrevistou na Colômbia e me pediu que autografasse dois livros para um escritor, porque eram os melhores que os netos dele liam. Perguntei: quem é o escritor? Ela disse: Gabriel García Márquez.

O que não tem perdão?

Traição, gente que não merece a confiança depositada por nós.

Há alguma coisa que a faça perder a calma, a elegância? Com frequência. Odeio me sentir acuada, não ter para onde ir, viro bicho e vôo no pescoço.

Você é mística, tem religião?

Não, mas não desprezo a transcendência.

E Canteiros de Saturno, esse título não tem algo a ver com o fato de você ser capricórnio?

É, me disseram que Saturno tinha a ver com capricórnio. Eu comprei um kit de fazer mapa astral e nesse livro cada personagem tem o seu próprio mapa natal. Isso não é mostrado na obra, mas sei que cada um deles tem o seu.

Como você acha que as crianças e os jovens estão hoje se relacionando com a literatura?

Bom, você olha na lista dos mais vendidos e estarão sempre Harry Potter, O senhor dos anéis etc. Então, dizer que as crianças e os jovens não estão lendo me parece errado...

Diga uma frase, um pensamento, uma reflexão. Bom, vou dizer duas, uma do Drummond e outra do Galbraith. Este diz que gostaria de, com o trabalho dele, levar um pouco de conforto para os aflitos e um pouco de aflição para os confortados. E o Drummond diz que este é o segredo e a arte do bem viver: uma fuga relativa, uma não muito estouvada confraternização.

Uma definição ou reflexão para o conceito de cultura? Tem uma observação de que gosto muito; originalmente nem é minha, parte de uma análise etimológica que o Alfredo Bosi faz. Ele lembra que toda ocupação de um espaço para o plantio, enfim para a "agricultura", é uma aposta no futuro. Esse "ura" era o particípio futuro do latim: "nascituro", aquele que vai nascer. Então "cultura" é aquilo que vai ser colhido. Cultura é aquilo que, plantado, num determinado momento pela humanidade, vai construir o futuro. A cultura tem um olho no futuro.

Cinema

Os maravilhosos cinemas antigos no Rio de Janeiro, com seus inesquesciveis lanterninhas.

OBRA DE ARTE

OBRA DE ARTE
Amores na bela Capital Catarinense.