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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os Filósofos Podam a Árvore do Conhecimento: A Estratégia Epistemológica da Encyclopedie.

Juliana Kureke
O enciclopedismo surge para classificar o saber, o conhecimento passa a ser delimitado por esquemas de classificação. Classificações estas, que tem a meta exercícios que exprimem poder, pois a enciclopédia enfoca questões de relações entre conhecimento e poder. Ao classificar, elencar, categorizar as formas de conhecimento e saberes o filósofo teria em suas mãos um exercício de poder. Assunto sério, que a enciclopédia pelas mãos de d`Alembert e Diderot busca uma nova ordem do conhecimento, colocam em processo uma nova construção dos saberes.
A tarefa é árdua, pois outros filósofos já se arriscaram “rearrumando a mobília” (DARNTON, 1988, p.250), pensadores durante a Idade Média e o Renascimento se especializaram em delimitar esquemas de conhecimento, o enfoque sobre os métodos e disposição dos saberes mexeu com a república das letras, no século XVI. Esse raciocínio na esquematização dos saberes, em um diagrama de lógica ramista deu combustível a máquina do enciclopedismo.
A Encyclopédie de Diderot, porém, com relação a diagramação apresentava um projeto audacioso, o cabeçalho continha


“a famosa árvore do conhecimento, tirada de Bacon e Chambers, representava algo de novo e audacioso. Em vez de mostrar como as disciplinas podiam ser deslocadas dentro de um padrão estabelecido, expremia uma tentativa de construir uma divisa entre o que se conhecia e o incognoscível, de maneira a eliminar a maior parte do que os homens consideravam sagrado no mundo do saber. Acompanhando os philosophes, em suas caprichadas tentativas de podar a árvore do conhecimento que haviam herdado de seus predecessores, podemos formar uma idéia mais clara de tudo que estava em jogo na versão iluminista do enciclopedismo” (DARNTON, 1988, p.250 -251).

A construção da enciclopédia de d`Alembert e Diderot tem o objetivo de apontar de forma esquematizada a concatenação das ciências, do conhecimento humano. A enciclopédia seria nada mais que um mapa mundi do conhecimento, esperando os navegadores para desbravarem seus saberes e conhecimentos, a famosa metáfora dos enciclopedistas era o “Mappemonde”.
As fontes principais de d`Alembert e Diderot, foram Ephraim Chambers e Francis Bacon, com suas construções da árvore do conhecimento. Chambers constrói uma árvore do conhecimento submetida a teologia, como coroamento dos saberes apontados nos ramos dessa grande árvore. Os enciclopedistas deixam essa concepção de Chambers e partem para a construção epistemológica de Bacon.
Bacon possuía resquícios ainda da época escolástica em seus pensamentos, porém foram de grande valia para a construção na nova árvore do conhecimento dos enciclopedistas. A grande diferença é a de que “onde Bacon via escuridão, eles {d`Alembert e Diderot} viam luz e se orgulhavam de seu papel de abastecedores do Iluminismo.” (DARNTON, 1988, p. 257). As divergências no pensamento terminam por podar a árvore do conhecimento e apontar a estratégia epistemológica da Encyclopédie.

Outro ponto importante é que “os argumentos morfológicos e epistemológicos combinaram-se para tirar o mapa a religião ortodoxa, para consigná-la ao incognoscível e, portanto, excluí-la do mundo moderno do saber.” (DARNTON, 1988, p.265). A religião é colocada em segundo plano, o conhecimento passa a ter uma carga maior de responsabilidade na modernidade, a história se comprometeu com o encargo de difundir esse ideal.
Para d`Alembert a história é como o triunfo das civilizações, e estas são o trabalho dos homens de letras, os grandes homens da história: os filósofos. A visão histórica de d`Alembert, propunha ser dos grandes homens, na última seção do Discours préliminaire, lamenta a Era das Trevas e celebra o Renascimento e refugia-se no pensar dos quatro grandes filósofos: Bacon, Descartes, Newton e Locke
[III]. D`Alembert apresenta: 1º - Bacon, como o pai da filosofia; 2º - Descartes, o Descartes questionador; 3º - Newton, o perfeito filósofo moderno e 4º - Locke, àquele que fixou limites finais para o cognoscível.
Por fim, Darton aponta que d`Alembert enfatiza que o grande homem das letras, os filósofos tem a grande batalha pelo conhecimento, que muitas vezes são humilhados e ignorados, o que do ponto de vista dele é errado, ora, se um pensador está preocupado com os indivíduos que compõe uma sociedade que necessita de organização, quem melhor que um filósofo?!

[I] Apontamentos do texto retirado de DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 363 p.
[II] Graduanda do 4º período do curso de Licenciatura em Filosofia da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), câmpus Curitiba.
[III] “Bacon aparecia neste grande quadro como o pai da filosofia, o primeiro homem a dissipar as trevas e a restringir a razão à sua esfera própria, o estudo dos fenômenos naturais.” (DARNTON, 1988, p. 266-267);
“(...) Descartes, que destruiu as algemas que haviam tolhido a filosofia desde os tempos de Santo Tomás de Aquino, senão de Aristóteles. D`Alembert saudou Descartes o questionador e não o Descartes metafísico.” (DARNTON, 1988, p.267);
“O Newton de d`Alembert servia como o perfeito filósofo moderno, não simplesmente porque descobrira as leis fundamentais do sistema solar, mas pelo fato de ter limitado a filosofia ao estudo dos fenômenos observados.” (DARNTON, 1988, p.267);
“Locke representava o máximo em modéstia, o definitivo sofreamento da filosofia, porque fixou limites finais para o cognoscível. Reduzindo todo conhecimento à sensação e à reflexão, eliminou, afinal, a verdade extraterrestre do mundo do saber.” (DARNTON, 1988, p.267)





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