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domingo, 29 de junho de 2008

A Crítica da Razão em Schopenhauer

Tomaz Augusto Bastos*
Chamado por Nietzsche de “cavalheiro solitário”, e por muitos considerado extremamente pessimista, o filósofo Arthur Schopenhauer (1788/1860) foi autor de um dos pensamentos mais instigantes e marcantes da história da filosofia. Grande opositor de seu contemporâneo Hegel, Schopenhauer teve de esperar muito em vida para encontrar o reconhecimento por seus trabalhos. Sua filosofia influenciou pensadores como Nietzsche, Wittgenstein, Horkheimer, Sartre, Cioran, e escritores como Franz Kafka, Thomas Mann, além de Freud, criador da psicanálise. Sua principal obra, publicada em 1819, diante da qual não se pode permanecer impassível, é O Mundo Como Vontade e Representação. Nela encontramos duas proposições chave de sua filosofia, enunciadas por ele mesmo como verdades incontestáveis, são elas: o mundo é a minha representação e o mundo é a minha vontade.
Para chegarmos à tamanha afirmação, cabe-nos deixar claro que o pensamento schopenhauriano parte da filosofia transcendental kantiana – que havia estabelecido uma oposição entre a coisa-em-si, incognoscível, e os fenômenos que são projetados pelo sujeito do conhecimento, através das suas formas a priori da sensibilidade, a saber; espaço e tempo, e pelas categorias do seu entendimento. Tal constatação levou os discípulos de Kant a dividirem-se em duas linhas. Primeiro os que recusaram a existência da coisa-em-si, cujos principais representantes são Hegel e Fichte, idealistas absolutos para o qual há espírito e não há nada fora dele; a segunda linha caracteriza-se pelos que aceitaram a coisa-em-si, porem fazendo dela alicerce permanente do fenômeno e lhe atribuindo outros nomes. Schopenhauer pertence a esse segundo grupo, pois, “a coisa-em-si de Kant se converte no que denomino vontade de viver e se torna substrato explicativo do mundo e da vida, tomados como representação dessa mesma Vontade”[1].
E é partindo de tal constatação, que Schopenhauer encontra todo fundamento para sua filosofia original. Ele mesmo afirma: “o melhor do meu próprio desenvolvimento se deve à impressão das obras de Kant”[2]. Mas fiquemos atentos, pois são os desacordos com Kant que aparecem como marcantes em sua filosofia. Visto que, para Schopenhauer Kant coloca o mundo tal como o conhecemos, como não pertencentes à essência das coisas em si mesmas, permanecendo seu mero fenômeno, estando dessa forma condicionado pelas formas a priori do intelecto humano, portanto nada contendo, visto que “Kant, decerto não chegou a conhecimento de que o fenômeno é o mundo como representação, e a coisa-em-si é a Vontade”[3].
Segundo Schopenhauer, Kant chega unicamente a mostrar que o mundo fenomênico é condicionado pelo sujeito isoladamente, ou seja, pela representação. Para Kant, só se pode conhecer as formas pela sua legalidade inteira, não partindo só do objeto, mas também do sujeito, pois existe um limite comum entre ambos. Para Schopenhauer, “ao seguirmos tal limite, não penetraríamos no interior do objeto nem do sujeito; em conseqüência, nunca conheceríamos a essência do mundo, a coisa-em-si”[4]. Ficaríamos dessa forma reduzidos ao que nos é a priori conhecido, ou seja, aos fenômenos.
Para o autor de O Mundo como Vontade e Representação, se tomarmos tal proposição kantiana como verdadeira, nunca poderíamos conhecer o mundo de forma imediata. Portanto, não se pode tomar como surpresa o fato dos ensinamentos dogmáticos[5] terem fracassado, pois Kant não poderia demonstrar a necessidade desse fracasso já que tinha admitido metafísica e conhecimento a priori como idênticos. Assim, segundo Kant, para encontrarmos a solução do enigma do mundo teríamos que nos remeter a fontes externas, através das formas que somos a priori conhecentes. Segundo Schopenhauer, Kant, ao inferir a coisa-em-si como causa do fenômeno, teria deixado uma brecha para a explicação do mundo por algo fora dele (que poderia ser a inteligência e a Vontade divina). Coisa que, para o autor, não cabe no pensamento filosófico. Tal pensamento se evidencia melhor quando Cacciola faz a seguinte afirmação:

A proibição schopenhauriana de postular uma causa inteligente para o mundo torna-se explícita quando ele identifica a coisa-em-si com vontade. Assim, é essa metafísica da vontade que vem suprir a ausência da metafísica exigida, segundo Schopenhauer, pela filosofia critica. Sua fonte é deslocada do supra-sensível para a experiência interior que cada um tem de seu próprio corpo em ação, surgindo, da impossibilidade mesma de uma metafísica transcendente, a metafísica imanente que decreta a ausência de Deus e a presença do homem como ser finito.[6]

Diante de tal afirmação, vê-se que, para Schopenhauer, não teríamos razão alguma para tentarmos encontrar uma explicação para o mundo numa fonte externa a ele. Dessa forma, não devemos nos privar de todas as fontes de conhecimento, ou seja, a experiência externa e interna. Vejamos isso em suas palavras:

Digo, por isso, que a solução do enigma do mundo tem que provir da compreensão do mundo mesmo; que, portanto, a tarefa da metafísica não é sobrevoar a experiência na qual o mundo existe, mas compreendê-la a partir de seu fundamento, na medida em que a experiência, externa e interna, é certamente a fonte principal de todo conhecimento; que, em conseqüência, a solução do enigma do mundo só é possível através da conexão adequada, e executada no ponto certo, entre experiência externa e interna, e pela ligação, por aí efetuada, dessas duas fontes tão heterogêneas do conhecimento, embora apenas dentro de certos limites, impensáveis de nossa natureza finita, por conseguinte, de tal forma que chegamos a correta compreensão do mundo mesmo sem, no entanto atingir uma explanação conclusiva de sua existência que suprimiria todos os seus problemas anteriores.[7]

Seguindo o pensamento schopenhauriano, vemos, como outrora mencionado, que o maior mérito de Kant foi ter separado o fenômeno da coisa-em-si, e ter explicado todo esse mundo visível como fenômeno. Tendo, dessa forma recusado suas leis e sua validade para além do fenômeno. Mas, segundo Schopenhauer, é notável o fato de Kant não ter deduzido a existência do fenômeno, por uma verdade tão inegável e tão imutável como essa: “Nenhum Objeto Sem Sujeito”[8].
E é partindo de tal definição, que Schopenhauer acusa Kant de caracterizar sua filosofia de forma desordenada, pois, para ele a filosofia kantiana “não tem analogia alguma com a arquitetura grega”[9]. Para Schopenhauer, a filosofia de Kant mais parece uma arquitetura gótica, alheia a qualquer forma simétrica, essa é uma característica que parece peculiar a todo seu pensamento, pois, para demonstrar seus pensamentos, Kant recorre a todo momento a ordens e a subordens, exatamente como encontramos nas igrejas góticas. E essa inclinação, segundo Schopenhauer, “vai tão longe que pratica violência manifesta contra a verdade”[10]. Esse pensamento se evidencia melhor, quando o filosofo faz a seguinte afirmação numa passagem importante de sua obra:

Após Kant ter tratado espaço e tempo isoladamente – e ter concluído todo esse mundo da intuição que preenche o espaço e o tempo, no qual existimos e vivemos, com palavras que nada dizem “o conteúdo empírico da intuição nos é DADO” – ele chega logo, com UM salto, ao FUNDAMENTO LOGICO DE SUA FILOSOFIA INTEIRA, À TÁBUA DOS JUIZOS. Dessa deduz uma dúzia bem exata de categorias, simetricamente dispostas sobre quatro títulos, as quais força a entrar violentamente todas as coisas do mundo e tudo que se passa no homem, não evitando pratica violenta alguma, não desprezando sofisma algum, só pra poder em toda parte repetir a simetria daquela tabua.[11]

Diante dessa vasta ordem categórica exposta por Kant – da qual, para Schopenhauer pouco pode se aproveitar, visto que, se quisermos ir além do fenômeno (representação), e perguntarmos sobre a coisa-em-si (Vontade), como qualquer metafísica em geral, vê-se que Kant não fornece teoria alguma sobre o surgimento de uma intuição – isso aparece em seu pensamento como algo dado – que se identifica como mera intuição dos sentidos, e quando juntas as formas da intuição espaço e tempo, nos parecem como provenientes da sensibilidade. Sendo assim, para Schopenhauer, não se poderia de modo algum fazer brotar uma representação objetiva, de modo que essa exige obrigatoriamente referência da sensação à sua causa, dessa forma, logo teríamos que aplicar a lei de causalidade. Essa lei para Schopenhauer é a única das expostas por Kant que possibilita a prova de uma intuição empírica objetiva. Assim sendo, para o filósofo:

Sempre que Kant deseja dar um exemplo em vista de um esclarecimento mais apurado, quase sempre se serve da categoria da causalidade, quando então o que é dito se apresenta de maneira correta, justamente porque a lei da causalidade é a real, mas também é a única forma do entendimento, e as restantes onze categorias são apenas janelas cegas.[12]

Desse modo, para Schopenhauer, a lei da causalidade se coloca para nós como conhecimento dado a priori, de forma que, tem sua origem na subjetividade. E até mesmo as sensações do nosso sentido, que regulam a lei da causalidade nos aparecem de forma subjetiva. Para Schopenhauer, o espaço, no qual situamos a causa das sensações como objetos, se coloca como uma forma do nosso intelecto dada a priori, portanto, tendo também sua origem na subjetividade. Dessa maneira, vê-se que toda a intuição empírica permanece assentada em funções subjetivas, como um simples processo que nos é dado, e diferente disso nada pode ser trazido como uma coisa-em-si.
E ai se dá à pedra de toque da filosofia schopenhauriana, para o autor, se tomarmos como puramente verdadeira a teoria kantiana, seria impossível pensar o mundo por completo, isto porque, existem limites que o cercam. Dessa forma, o homem jamais conseguiria atingir a essência intima do mundo em-si, e as coisas que nele se encontram. Para Schopenhauer, a intuição empírica é mera representação do sujeito, é o mundo como representação. Cabe-nos ainda observar o outro lado da moeda, pois se por um lado o mundo se dá como representação, por outro lado ele é unicamente Vontade. Encero assim essa pequena explanação, frente á grandeza do pensamento schopenhauriano com uma passagem de Brum:

A partir desse momento a filosofia de Schopenhauer adquire o movimento que lhe é característico: se o mundo enquanto fenômeno é representação, o mundo enquanto coisa-em-si será Vontade. O movimento schopenhauriano obedecerá ao esquema analógico: a Vontade essência do Mundo, será atingida por meio de uma analogia com o ser humano. O homem submetido como tudo que vive ao império da Vontade, é o lugar um que a vontade se objetiva e se revela. O homem descobre em seu corpo, a imagem de uma vontade cega que compartilha com os outros seres vivos. Essa força obscura vital é o aspecto do mundo que não pode se reduzir à representação, é o mundo enquanto coisa-em-si, é o mundo enquanto Vontade.[13]
[1] SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação. São Paulo SP.: Brasil Editora, 1963, p. XII. (prefacio do tradutor).
[2] SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação. São Paulo SP.: Ed. UNESP.,2005. p.525
[3] Ibidem, p. 531.
[4] Ibid.
[5]
[6] CACCIOLA, Maria Lúcia. Schopenhauer e a Questão do Dogmatismo. São Paulo SP.: Ed. Edusp., 1994, p. 23.
[7] SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação. São Paulo SP.: Ed. UNESP., 2005, p.538.
[8] Ibidem, p. 546.
[9] Ibidem, p. 540.
[10] Ibidem, p. 541.
[11] Ibidem.
[12] Ibidem, p. 560.
[13] BRUM, José Thomas. O Pessimismo e suas Vontades: Schopenhauer e Nietzsche. Rio de Janeiro RJ.: Ed. Rocco, 1998, p. 23.

* Tomaz Augusto Bastos é aluno do Curso de Pós-graduaçao em Filosofia Contemporânea da Faculdade São Bento da Bahia.
Contato com o autor pelo e-mail: tomaz_bastos@yahoo.com.br
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