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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

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Uma política da cultura
Por Renato Janine Ribeiro

Os artistas se queixam da pouca importância que os candidatos dão à cultura, em seus programas de governo. E infelizmente o próprio fato de que a reclamação venha deles já atesta o caráter secundário do tema. Porque não são eles quem deveria defender a cultura – mas nós, o público. Se essa defesa cabe aos artistas, sua demanda acaba se tornando corporativa – o que não significa que seja ilegítima, mas apenas que falta, ainda, no Brasil a percepção de que a cultura é gênero de primeira necessidade.

É o público que deve pedir, nos programas de governo, por cultura. A idéia-chave é que ela aumenta a democracia e amplia a liberdade. Por isso mesmo, vai além do mero entretenimento. Nada contra nos distrairmos, nos divertirmos, mas o importante mesmo é podermos sair, de uma experiência cultural, diferentes de como éramos antes.



Isso, aliás, vale mesmo para os meios de comunicação mais populares. Não fossem as novelas das últimas duas ou três décadas, a condição feminina no Brasil seria pior do que é. A TV foi criticando o machismo, valorizando a mulher que trabalha, que defende seus direitos, que escolhe o amor contra a conveniência.

Seria bom um ministro, ou um secretário, de Cultura promover uma espécie de censo cultural, mesmo que por amostragem. A hipótese é que haja, digamos, quatro faixas de trabalho com a cultura em nosso país. Primeira, e numericamente a menor: a dos criadores culturais, aquelas pessoas, talvez dezenas ou centenas de milhares, que criam ou ajudam a criar. Eles vivem da cultura, talvez vivam para a cultura.

Segunda, e a mais importante: a de quem precisa da cultura para viver, isto é, para sua qualidade de vida. Talvez esses se meçam em apenas alguns milhões de brasileiros. Mas são quem tem experiências culturais: aqueles que saem de um concerto, de um filme, da leitura de um livro, modificados. Para eles, a cultura é vital. Faz parte de sua identidade. Amplia o sentimento de sua dignidade. Sofrem, sim, abalos (quem sai alegre de um filme como Abril despedaçado?), mas a longo prazo suas vivências culturais os fortalecem.

É por isso que a cultura, qualquer cultura, dá algum poder a quem a freqüenta. Um projeto de cidadania, isto é, de constituição dos brasileiros enquanto reais detentores de direitos, deve ter um lugar importante para a pintura, a música, o cinema, o teatro.

Terceira faixa, talvez a mais numerosa: a de quem vê na cultura apenas o entretenimento. Isso não é errado. É bom que as pessoas relaxem, se distraiam, sintam prazer com a cultura. Ninguém cultiva a cultura só pelo soco no estômago que de vez em quando ela lhe dá. Mas é pena que dezenas de milhões de brasileiros não retirem, de seu contato com as artes, mais que um passatempo. Passar, preencher e matar o tempo não são as melhores coisas a fazer com o tempo livre. O preço desse tipo de experiência rala é que as pessoas nessa faixa não consigam tanta dignidade, tanto poder em suas vidas, quanto poderiam e deveriam ter.

Finalmente, quarta faixa: a das pessoas que mal têm contato com a cultura, nem mesmo como passatempo. São os excluídos, reduzidos a um analfabetismo em termos de seu imaginário.

O que deve ser uma política governamental de cultura? É claro que ela deve apoiar os criadores culturais, nossa primeira faixa. E deve também suprimir a quarta faixa, dando a todos os brasileiros pelo menos o direito ao entretenimento. Mas sua legitimidade democrática não virá de dar dinheiro aos criadores, e sim de tornar estas obras acessíveis – e mais que isso, enriquecedoras – para nós, o público. A meta deve consistir, então, em fortalecer o que eu chamei de segunda faixa, isto é, a das pessoas que crescem pelo contato com a cultura.

No planejamento da área de Cultura essa ação deve ser definida como prioridade, fixando-se até mesmo metas quantitativas. O objetivo é levar quem se distrai com as obras de arte a, também, se enriquecer humanamente com elas – isto é, a "subir" da terceira faixa para a segunda, da cultura-passatempo para a cultura-vida.

Pode se exigir, dos programas apoiados com dinheiro público, incluindo a renúncia fiscal, que tornem públicos seus resultados e benefícios. Um exemplo: cansei de ver igrejas barrocas, nas cidades históricas de Minas Gerais, fechadas à visitação. Foram construídas com o que era dinheiro público, no século XVIII, e restauradas, nos últimos anos, também com nosso dinheiro. Não podem abrir ou fechar ao arbítrio de seus vigários, ou só quando há missa. São de todos nós, inclusive dos brasileiros não católicos.

E cada programa que for apoiado, dentro ou fora da estrutura de governo, deve ter explicitado seu benefício para a sociedade. Mais um exemplo: museus que fecham no final de semana (que hoje são poucos) ou de noite (quase todos) talvez respeitem mais os seus funcionários do que os seus freqüentadores. Quem trabalha no horário comercial dificilmente tem tempo, durante a semana, para ver uma exposição.

Mas o importante é a idéia: que fique cada vez mais claro que a cultura não se faz para o bem de quem a faz, por exemplo, os artistas, mas para o bem de quem a vê, consome ou vivencia. É só isso o que lhe dá força social. E que fique claro qual é esse bem: a cultura fortalece. Dá dignidade.
Fonte: O Globo - Setembro de 2002
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