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segunda-feira, 4 de março de 2013

A FILHA DO TEMPO



Suely Monteiro
Desde os tempos imemoriais o homem busca a Verdade.  Procura encontrá-la na natureza, nas coisas, em si mesmos, de forma que formaram muitas correntes de pensar e agir, cada uma defendendo um ponto de vista diferente, ou com alguns pontos em comuns.  No entanto, é preciso reconhecer que a Filha do Tempo se mantém escondida num jogo interminável, num desafio que o obriga a crescer e progredir, mas que poucas vezes lhe dá chances de encontrá-la. E mesmo nessas ocasiões, ela consegue uma forma de mostrar que o que ele viu foi somente uma de suas múltiplas partes, e, faceira, deixa- o entregue a seu desesperado desejo de possuí-la e tê-la, definitivamente, sob seu poder.

Com Bacon não foi diferente. Ele não apenas julgou tê-la encontrado na sua ciência, voltada para a experimentação, como também, conseguiu convencer seus pares de que as possibilidades do conhecimento estavam enfeixadas na equivalência entre poder e saber e que o seu domínio estava no aparelhamento instrumental do conhecimento para o controle da natureza, devido à íntima relação entre verdade e utilidade.

Bacon defende, ainda, que a natureza, por si só não desvela seus mistérios, seus segredos. É preciso atormentá-la, dominá-la.

Esta postura cientifica por ele adotada foge, totalmente, aos modelos predecessores de ciência que tinham por objetivo, no dizer do austríaco Fritjof Capra (2001), “a sabedoria, a compreensão da ordem natural e a vida em harmonia com ela”, numa ciência realizada pela “Honra e Gloria de Deus”. E a sua perduração ao longo dos anos desencadeou no que hoje se considera ciência e tecnologia com finalidades antiecológicas.

Ainda, na opinião de Capra, o modo de Bacon referir-se a esse novo método de pesquisa empírica, não era apenas apaixonado, mas rancoroso.  Termos como “obrigada a servir”, “escravizada”, “reduzida à obediência”, quando referidos à natureza, parecem inspirados pelos julgamentos das bruxas, que eram frequentes na Inglaterra do século XVII.  Com Bacon e seus seguidores a Terra perde o conceito de mãe nutriente e gentil, tornando-se um mundo com metáfora de máquina.


A brasileira Marilene Chauí , também, debruça sobre o mesmo tema e, no texto “A Razão Instrumental” (2000), disserta, criticamente, sobre o desenvolvimento do conhecimento cientifico, tomando como ponto de partida de seu discurso, a análise do termo que intitula o mesmo e suas variáveis na filosofia de Adorno, Marcuse e Horkheimer, entre outros.  Conhecer, também para eles, é dominar e controlar a Natureza e os seres humanos.

 A autora lembra que o termo criado por Bacon, a “Natureza atormentada”, significa: "fazê-la reagir a condições artificiais, criadas pelo homem.” E na contemporaneidade,  este significado   se amplia de tal forma que não basta à ciência transformar a natureza  segundo seus objetivos e de acordo com seus métodos, mas ela os cria artificialmente  para aplicá-los segundo critérios pouco científicos, como instrumentos de poder e dominação,  integrados aos poderes político e econômico.  É possível divagar um pouco e verificar que as grandes empresas, na atualidade, fornecem, gratuitamente, celulares, tabletes e notebooks a seus funcionários, criam clubes recreativos e associações de empregados o que, de certa forma, os mantém , sob controle e conectados a elas vinte e quatro horas por dia.

Assim, se em muitos casos, e isto é outro problema, os cientistas não sabem o rumo que suas pesquisas tomam ao saírem de seus laboratórios, o mesmo não se pode dizer dos   executivos e do povo em geral,  que lhes sofrem as consequências através dos “avanços “ científicos que lhes descaracterizam o aspecto de ser pessoal, de ser humano. Sentimentos, emoções, paixões que colorem e dão sabor à vida, que motivam o homem a ser solidário, a reconhecer-se no irmão, perderam valor, foram desatrelados dos laços da ciência à medida que ela emergia na mecanização. 

Mas, a Filha do Tempo, aguarda, pacientemente, que o homem se canse da arrogância e da insensatez, para ajudá-lo a construir uma ciência inclusiva, ocasião em que lhe mostrará, verdadeiramente, todas as suas faces. 

Baseado em :

A Razão Instrumental,Chauí, (2000); e um trecho da obra O ponto de mutação (Capra, 1994) falando sobre A Máquina do Mundo Newtoniana.
 

Imagens:
- Filha do Tempo
- Francis Bacon
- LIV ULLMAN


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