Buscas

Pesquisa personalizada

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Mitologia.

A Lenda de Uirapuru: O pássaro que não é pássaro.
Kika Cardarelli

Era uma vez uma moça índia, de nome Oribici,
ela amava seu cacique com ardor e na aldeia todos sabiam do seu amor.
Mas o destino quis diferente, derrubando as estrelas do céu e jogando os sonhos de Oribici ao léu. O cacique casou-se com outra índia, e Oribici chorou tanto pelas montanhas e montes, que suas lágrimas formaram córregos e fontes...
Diante de tanta dor, Oribici pediu para Tupã um corpo de pássaro, só para poder ficar perto do seu amor.
Tupã fez o que Oribici pediu : Oribici transformou-se num pássaro cantador...
Seu nome agora era Uirapuru;
“Uirapuru ! Uirapuru ! Voa triste, ô pobre !
Voa triste por toda a parte, Desde o sul até o norte”
Uirapuru não tinha o corpo muito formoso, mas isso não importava, o que Uirapuru queria mesmo, era estar perto do seu amado.
Mas, " Nem tudo é como a gente quer " O Cacique estava realmente apaixonado e só tinha olhos para sua amada !
Com o coração despedaçado, Uirapuru resolveu sair da aldeia e voar ...voar... para nunca mais ser encontrado.
Voou para as matas da Amazônia com uma tristeza que nunca se viu e Tupã, de longe, toda a dor de Uirapuru assistiu.
Tupã, então, resolveu consolá-lo dando-lhe como presente o canto mais belo que já se ouviu... Hoje, quando Uipururu canta encanta toda a floresta todos param para ouvir seu canto feito seresta...
“Canta Uirapuru, canta a todos com fervor, canta enquanto faz seu ninho, só para esquecer o seu amor....”

Fonte:
Recanto das Letras em 03/08/2006Código do texto: T208287

Poesia. O Pássaro Cativo de Olavo Bilac.

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo, Arrepiado e triste, sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes?
Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar! voar! ... “
Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar. E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição: E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O Nome e o Aspecto Cognoscível do Ser.


Crátilo é um diálogo do filósofo grego Platão (428 a.C.-347 a.C.), e uma obra de grande importância porque, tratando do problema da linguagem, aborda uma questão mais profunda, que é o aspecto cognoscível do ser. Em cena, Hermógenes e Crátilo (este, discípulo de Heráclito) estão discutindo sobre a natureza dos nomes, o primeiro sustentando que estes se devem a uma simples convenção, daí poderem variar como num divertimento; e o segundo, ao contrário, argumentando que os nomes correspondem à íntima natureza das coisas que os designam. Dessa forma, os nomes seriam como o único meio de se conseguir o conhecimento das coisas. Sócrates intervém, e Hermógenes lhe confia o problema: o grande mestre objeta que, se os entes designados são falsos, também os nomes que os designam serão falsos, pois que deve haver uma correlação entre as coisas e o modo de denominá-las. Os homens devem ter examinado as coisas e tentado exprimir com vocábulos a impressão reportada. Nesse momento, Sócrates parece estar do lado de Crátilo, pois que ele se reporta a numerosas etimologias para demonstrar como tantos nomes conservam a impressão do motivo que o primeiro homem deve ter experimentado. Chega-se, portanto, ao ponto decisivo: afinal, pode-se ou não atingir a íntima natureza das coisas, por meio da linguagem? Em oposição a Crátilo, Sócrates revela que os nomes correspondem à imagem que o homem faz das coisas, e portanto, não às coisas propriamente, e que, se os nomes servem para se conhecer as coisas, o primeiro a nomeá-las, não podendo servir-se delas para as conhecer, nomeou-as ao acaso; e por fim, que se tivesse sido um deus a criar a linguagem, não teria deixado lugar para incertezas e contradições. Portanto, para se atingir o conhecimento das coisas, não se deve recorrer a seus nomes, mas às idéias, pois que, do contrário, ter-se-ia o conhecimento de imagens imperfeitas. Assim Sócrates conclui, exortando Crátilo a não se fiar excessivamente nos nomes.
Dizionario Bompiani delle opere e dei personaggi di tutti i tempi e ti tutte le letterature. Vol. 2: Opere. Milano: Bompiani, 1989.
Fonte: Crátilo: Revista discente de Estudos Lingüísticos
http://www.unipam.edu.br/cratilo/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=7&Itemid=7
Centro Universitário de Patos de Minas

Fotografia. Rua Chile (Salvador-BA), na década de 40.

A rua mais elegante de Salvador na década de 40.
Atentem para a chic carruagem!

domingo, 5 de julho de 2009

Poesia.

Eros e Psiquê
Fernando Pessoa
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Concerto para violino em lá menor, de Bach.

A Segunda Navegação.


Platão e a descoberta da Metafísica
Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Platão, cujo verdadeiro nome era Aristócles, nasceu em Atenas, em 428/427 a.C., e lá morreu em 347 a.C. Platão é um nome que, segundo alguns, derivou de seu vigor físico e da largueza de seus ombros (platos significa largueza).

Ele era filho de uma abastada família, aparentada com famosos políticos importantes, por isso não espanta que a primeira paixão de Platão tenha sido a política.Inicialmente, Platão parece ter sido discípulo de Crátilo, seguidor de Heráclito, um dos grandes filósofos pré-Socráticos. Posteriormente, Platão entra em contato com Sócrates, tornando-se seu discípulo, com aproximadamente vinte anos de idade e com o objetivo de se preparar melhor para a vida política. Mas os acontecimentos acabariam por orientar sua vida para a filosofia como a finalidade de sua vida.Platão tinha cerca de vinte e nove anos quando Sócrates foi condenado à beber o cálice de cicuta (veneno fortíssimo). Ele havia acompanhado de perto o processo de seu mestre, e o relata na Apologia de Sócrates. O fato de Atenas, a mais iluminada das cidades-estados gregas, ter condenado à morte "o mais sábio e o mais justo dos homens" - como falara mediunicamente o oráculo de Apolo, em Delfos - lhe deixou marcas profundas que determinariam as linhas mestras de toda a sua atividade de filósofo.Acredida-se que todas, ou uma boa parte da obra de Platão nos chegou inteira. Além de cartas e da Apologia de Sócrates, Platão escreveu cerca de trinta Diálogos que têm sempre invariavelmente Sócrates como protagonista. Nestas obras excepcionais, Platão tenta reproduzir a magia do diálogo socrático, imitando o jogo de perguntas e respostas, com todos os meandros da dúvida, com as fugazes e imprevistas revelações que impulsionam para a verdade, sem, contudo, revela-la de modo direto. O motivo pelo qual sua obra nos chegou praticamente intácta reside no fato de Platão ter fundado uma escola que se tornou famosa, e que era dedicada ao herói Academos. Daí o nome Academia.Platão foi o responsável pela formulação de uma nova ciência, ou, para ser mais exato, de uma nova maneira de pensar e perceber o mundo. Este ponto fundamental consiste na descoberta de uma realidade causal supra-sensível, não material, antes apenas esboçada e não muito bem delineada por aluguns filósofos, embora tenha sido um pouco mais burilada por Sócrates. Antes de Sócrates, era comum tentar-se explicar os fenômenos naturais a partir de causas físicas e mecânicas. Platão observa que Anaxágoras, um dos pré-socráticos, tinha atinado para a necessidade de introduzir uma Inteligência universal para conseguir explicar o porquê das coisas, mas não soube levar muito adiante esta sua intuição, continuando a atribuir peso preponderante às causas físicas. Entretanto, se perguntava Platão, será que as causas de caráter físico e mecânico representam as "verdadeiras causas" ou, ao contrário, representam simples "concausas", ou seja, causas a serviço de causas mais elevadas? Não seria o visível fruto de algo mais sutil?Para encontrar a resposta às suas dúvidas, Platão empreendeu aquilo que chamou simbolicamente de "a segunda navegação". A primeira navegação seria o percurso da filosofia naturalista. A segunda navegação seria a orientação metafísica de uma filosofia espiritualista, do inteligível. O sentido do que seja essa segunda navegação fica claro nos exemplos dados pelo próprio Platão.Se se deseja explicar por que uma coisa é bela, um materialista diria que os elementos físicos como o volume, a cor e o recorte são bem proporcionais e causam sensções prazerosas e agradáveis aos sentidos. Já Platão diria que tudo isso seria apenas qualidades que evocariam uma lembrança de algo ainda mais belo, vista pela alma no plano espirtiual, mas que não está acessível ao plano físico. O objeto seria apenas uma cópia imperfeita, por ser material, de uma "Idéia" ou forma pura do belo em si.Vejamos um outro exemplo:Sócrates está preso, aguardando a sua condenação. Por que está preso? A explicação mecanicista diria que é porque Sócrates possui um corpo corpulento, composto de ossos e nervos, etc, que lhes possibilitam e lhe permitiram locomover-se e se deslocar por toda a vida, até que, por ter cometido algum erro, tenha-se dirigido à prisão, onde lhe sejam postas as amarras. Ora, qualuer pessoa sabe a simplificação desse tipo de argumento, mas é justamente assim que falam o materialistas-mecanicistas até os dias de hoje. Mas este tipo de explicação não oferece o verdadeiro "porquê", a razão pela qual Sócrates está preso, explicando apenas o meio pelo qual pode uma pessoa ser posta num cárcere devido ao seu corpo. Explica o ato, descrevendo-o, e não suas causas. A verdadeira causa pela qual Sócrates foi preso não é de ordem mecânica e material, mas de ordem superior, da mesma forma que um computador não executa um complexo cálculo matemático pela ação de seus componentes em si, mas devido a algo de ordem superior e mais abstrato: o seu programa, o software. Sócrates foi condenado devido a um julgamento de valor moral usado a pretexto de justiça para encobrir ressentimentos e manobras políticas das pessoas que o odiavam. Ele, Sócrates, decidiu acatar o veredicto dos juízes e submerter-se à lei de Atenas, por acreditar que isso era o correto e o conveniente, pois ele era cidadão de Atenas, mesmo ciente da injustiça de sua condenação. E, em conseqüência disto, dessa escolha de ordem moral e espritual, ele, em seguida, moveu os músculos e as pernas e se dirigiu ao cárcere, onde se deixou ficar prisioneiro.A segunda navegação, portanto, leva ao conhecimento de dois níveis ou planos do ser: um, fenomênico e visível (a nível do hardware, como diríamos em linguagem de computação); outro, invisível e metafenomênico, (a nível do software), inteligível e compreensível pela razão e pela intuição.
Podemos afirmar, como falam Reale & Antiseri, que a segunda navegação platônica constitui uma conquista e assinala, ao mesmo tempo, a fundação e a etapa mais importante da história da metafísica. Todo o pensamento ocidental seria condicionado definitivamente por essa "distinção" entre o físico (o hardware) e o causal (o software, a ordem implicada que causa a ordem explicada), tanto na medida da sua aceitação quanto de sua não aceitação através da história. Se ela não é aceita, a pessoa que não a aceita terá de justificar a sua não aceitação, gerando uma polêmica que continuará dialeticamente a ser condicionada ao fato de que existe - ao menos filosoficamente - algo que se chama metafísica.Só após a "segunda navegação" platônica é que se pode falar de material e espiritual. E é à luz dessas categorias que os físicos anteriores a Sócrates, e muitos físicos modernos, podem ser tachados de materialistas, mas agora a natureza não pode mais ser vista como a totalidade das coisas que existem, mas como a totalidade das coisas que aparecem. Como diria o Físico David Bohm, a ordem explícita é apenas conseqüência de uma ordem implícita, superior e invisível. O "verdadeiro" ser é constituído pela "realidade inteligente" e "inteligível" que lhe é transcendente.
Fonte: http://www.geocities.com/Vienna/2809/platao.html

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Gótico Tardio - Gerard David.

O Descanso durante a fuga para o Egito.

Sobre “El Filósofo Autodidacta”


Rafael Lanzetti


Depois de muito procrastinar, pus-me a redigir este texto sobre uma das obras que mais me marcaram até hoje - El filósofo Autodidacta, de Ibn-Tufayl.
Abu Bakr Muhammad ibn 'Abd al-Malik ibn Tufayl (conhecido simplesmente como Ibn-Tufayl ou Abentofail), filósofo, poeta, teólogo, matemático, astrônomo e médico, nasceu Guadix, na Andaluzia, no começo do século XII. Durante toda a chamada Baixa Idade Média, até o final do século XV, a Espanha, mais especificamente a Andaluzia (Al-Andalus) figurou-se esplêndida em termos de arte, ciência, enfim, civilização. Foi uma das poucas regiões na geografia e história da humanidade onde viveram em paz judeus e muçulmanos. O primeiro Renascimento, muito antes do Renascimento Ocidental, ocorreu ali, por mãos e cabeças de árabes e judeus. Para os que estudam tradução, é extremamente importante investigar o que ocorreu na Escola de Toledo, a primeira instituição organizada de tradutores do mundo, onde foram estabelecidos os primórdios das teorias de tradução com as quais lidamos até hoje, principalmente através de Maimônides.
Abentofail cresceu neste ambiente iluminado, teve uma vida solitária e dedicada ao conhecimento e morreu no Marrocos por volta do ano 1185, deixando um legado intelectual incalculável. Sua obra mais conhecida é O filósofo autodidata.
No prólogo da novela, Abentofail já expressa sua maior inquietude - o conflito entre razão e fé. Sua tese, bem parecida com a dos primeiros apologistas cristãos, era a de que, ao usar boa razão, se chega à fé. É possível chegar à fé por revelação divina, mas também é possível chegar a Deus através da observação do mundo fenomênico.
No começo da novela, Abentofail introduz o protagonista, Hay Benyocdan e dá duas versões para o seu nascimento: a primeira, que teria sido criado por uma estranha conjunção de elementos a partir de um punhado de barro. A segunda, mais aceita, que teria nascido bastardo e lançado ao mar numa pequena balsa por sua mãe, temerosa de que alguém descobrisse seu delito. A partir daí, Abentofail descreve como o menino Hay cresceu numa ilha deserta (que alguns acreditam ser o Sri Lanka), e foi criado por uma gazela.
Assim como Adão, Hay logo se descobre nu e cobre suas vergonhas. Ao observar os outros animais, descobre que é o único que não está coberto com pelagem natural, e se sente sozinho, assim como Robinson Crusoé. Aliás, Borges chamou Hay de "Robinson Crusoé metafísico", daqui a pouco explico o porquê.
Dois acontecimentos, no entanto, mudam o curso de sua vida - a morte da gazela que o criara e o descobrimento do fogo. Quando a gazela morre, Hay, em sua angústia, começa a se perguntar o que existe na essência dos seres que os faz estar vivos. Assim, começa a dissecar o cadáver da gazela e a remexer em suas vísceras em busca do que seria a sua alma, tudo em vão. Ao descobrir acidentalmente o fogo, através de um raio, Hay fica maravilhado e imagina que o princípio da vida dos seres, a alma, deve ser algo similar ao fogo.
Depois disso, Hay começa a trabalhar - aperfeiçoa a arte da construção de cabanas, a confecção de roupa, a culinária e a domesticação de animais. Ao reparar, um dia, em seu rebanho, começa a pensar que a alma dos animais devia ser diferente da alma das plantas.
Para entender o mundo que o cerca, Hay começa a observar os astros e seus movimentos rotatórios. Neste ponto, Hay chega ao ápice de sua viagem filosófica - à conclusão de que, para existir tudo o que existe, no céu e na terra, para existir um mundo vivo e móvel, deve existir um ser superior que tudo comanda, e que tudo criou, que colocou no mundo tudo o que há. Hay chega a Deus - sem língua, sem civilização, sem escolaridade sistemática.
Depois disso, Hay considera que comer animais e arrancar frutos das árvores é uma afronta ao plano divino e se converte em um asceta fanático. Para assemelhar-se aos astros, decide imitar seus movimentos rotatórios e começa a rodar em volta de si mesmo e ao redor da ilha. Segundo meu amigo Pablo Maurette, filósofo argentino que me apresentou o texto de Abentofail em meados de 2001, em uma de nossas conversas,
En el siglo XIII, menos de cien años luego de la muerte de Abentofail, unmístico y poeta conocido como Rumi fundaría en Turquía la orden de los dervichesmevlevís, que subsiste hasta el día de hoy (aún se los puede ver girar comotrompos en sus templos de Estambul y de Konia). Los mevlevís, al igual que HayBenyocdan, giran imitando a los planetas para entrar en vertiginoso trance yacercarse a la divinidad.
Finalmente, Hay se entrega à meditação, recolhendo-se a uma caverna. Dentro da caverna, tem um encontro místico com Deus, assim magistralmente descrito por Abentofail:
De este modo escuchó la voz de Dios que se le reveló como único y omnipotente,como rey de reyes. En aquella cueva Hay Benyocdan se abismó y contempló lo queojo no vio, ni oído oyó, ni pudo ocurrírsele al corazón del hombre.
Um dia, chega à ilha Asal, um teólogo, pregador muçulmano renegado que fugia de seus perseguidores. Asal encontra Hay e ensina-lhe árabe e o Corão. Hay confirma, no texto sagrado dos muçulmanos, tudo aquilo que havia aprendido sozinho a partir da contemplação da natureza. Asal, espantando com aquela sabedoria incivilizada, decide se juntar a Hay em sua vida reclusa.
As interpretações do magistral texto de Abentofail são muitas, e não teria condições físicas e capacidade filosófica para fazê-las todas aqui. Quero focalizar apenas duas de minhas interpretações e deixar o texto para quem quiser comentar com suas próprias idéias.
A primeira coisa que podemos extrair do texto é que Hay, sem língua, possui pensamento, que vai se tornando tão complexo, que chega a Deus. É possível pensar sem língua? Prometo voltar a esse assunto em breve, mas, resumindo, posso dizer que, nós, seres humanos, somos dotados de uma habilidade ímpar denominada Linguagem. A Linguagem, Lógos em grego, é o que nos permite interagir com o mundo, é o que me faz acreditar que, se me puser de pé, o chão me servirá de base, que o objeto que vejo em cima de uma mesa pode ser palpado se estiver ao alcance de minhas mãos, que um sibilar na mata pode significar que uma cobra está a espreita. A Linguagem é inata, e não há como nos desvencilhar dela - ela é condição sine qua non para a vida. Num âmbito agora cultural, social, existe a língua, ligada diretamente ao grupo social em que estou inserido. A língua me permite pura e simplesmente comunicar com outros que partilham do mesmo meio social. A pergunta é: onde estaria o pensamento? Primordialmente na linguagem, ou apenas na língua? Se a resposta for a primeira, isso quer dizer que a lógica independe de rótulos, ou seja, é possível pensar sem palavras. Se a resposta, no entanto, for a segunda, a isso equivale dizer que só podemos pensar porque conhecemos: 1. os rótulos dos pensamentos (das palavras que os formam) e 2. as estruturas lógicas que podem ser formuladas a partir dos sistemas das línguas humanas. A tese de Abentofail é a de que o pensamento reside na Linguagem, é tão primordial e inato quanto ela. Abentofail estava certo? Deixo minha resposta para outro dia.
A segunda interpretação, um pouco mais ética e moral, tem a ver com o fato de Hay ter chegado a Deus. Abentofail sugere, com isso, que fé e lógica não são, como diz meu amigo Pablo, como duas mulheres do mesmo homem - quando se agrada uma, entristece-se a outra. Através da lógica também é possível chegar à fé. Pelo contrário, através do emprego da boa razão e da boa fé é possível, segundo o filósofo Andaluz, chegar ao mesmo destino.
Hay é o "Robinson metafísico", segundo Borges, justamente por estas duas razões - ele é um solitário eremita que, sem língua, sem civilização, tece pensamentos cada vez mais complexos, até que chega à fé, à crença naquilo que não se vê. É um Robinson Crusoé meio-oriental muito mais complexo filosoficamente e esquecido pela tradição ocidental.
Gostaria de saber o que meus leitores pensam sobre o texto de Abentofail. Se quiserem, escrevam comentários com suas interpretações. Todas as opiniões serão bem-vindas
.
Texto retirado de: http://polipoiesis.blogspot.com/2007/08/o-filsofo-autodidata.html
Ilustração de Hay de autor desconhecido.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Arte. Pintura. O Gato de Miró.


Arte - Ballet.

Rudolf Nurejev e Margot Fonteyn in Swanlake.

FILOSOFIA DA IDADE CONTEMPORÂNEA

Juán Manuel NAVARRO CORDÓN; Tomás CALVO MARTÍNEZ.
Consideramos como contemporânea a filosofia que se estende, dentro da imprecisão cronológica própria das produções culturais, a longo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX. A filosofia contemporânea, nas suas linhas mais fundamentais e características, só pode ser adequadamente compreendida em relação com a obra de Hegel. Com efeito, a filosofia contemporânea constitui em grande medida uma reação contra o sistema hegeliano,ao mesmo tempo que retoma poucas das suas análises e interrogações.
A mais notável e radical reação contra o sistema de Hegel é feita por
Marx, pelo marxismo. O marxismo, entroncado originalmente na esquerda hegeliana, distingue e separa o sistema hegeliano (idealista) do método dialético. Aceitando e transformando este último, a filosofia marxista "inverte" o sistema de Hegel, propondo uma visão dialéctica-materialista da consciência, da sociedade e da história.
Outra reação contra o hegelianismo - reação estreitamente vinculada à situação econômica, social e intelectual resultante da revolução industrial - é representada pelo positivismo, especialmente o de Comte. Neste caso, reage-se contra o "racionalismo" hegeliano naquilo que possa ter de menosprezo da experiência, com a pretensão de instaurar um saber positivo, capaz de fundamentar uma organização político-social nova. Como Marx, Comte conserva, no entanto, embora transformando-o, um momento importante do hegelianismo: a ideia de "espírito objetivo".
O positivismo (tomado, em geral, como uma atitude renitente à especulação filosófica e propenso a considerar a ciência como forma de conhecimento, não só modelar, mas exclusiva) constitui, além disso, uma constante na história do pensamento. Apesar das suas notáveis diferenças na maneira de pôr os problemas, é possível reconhecer esta linha no empirismo do século XVIII, no positivismo do século XIX e no positivismo lógico ou empirismo lógico do século XX. O empirismo lógico ou positivismo lógico do séc. XX constitui um dos movimentos (juntamente com o "atomismo lógico" e a filosofia analítica, integrantes da corrente analítica dos nossos dias, cuja máxima originalidade consiste em haver transformado o próprio conceito de filosofia: para a corrente analítica, a filosofia não tem por objecto a realidade, mas a análise da linguagem acerca da realidade, quer se trate da linguagem ordinária ou comum, ou da linguagem científica acerca da realidade.
Outras correntes da filosofia contemporânea tomaram como objecto principal de consideração o fenômeno da história, da vida e da irredutibilidade da existência pessoal: as filosofias historicistas, vitalistas, existencialistas e personalistas. O
existencialismo constitui, originalmente, uma reacção contra o hegelianismo e em favor da individualidade, colocando em primeiro plano a categoria de singularidade, preferida pelo "sistema dialéctico" de Hegel (Kierkegaard). No seu desenvolvimento no século XX (Heidegger, Sartre), a par da reacção anti-hegeliana já apontada, o existencialismo depende directamente da fenomenologia de Husserl, no tocante às suas análises da existência humana. Quanto ao vitalismo d e Nietzsche, representa uma reacção não apenas contra Hegel, mas contra toda a tradição intelectualista-religiosa que se opôs à vida e aos valores vitais, desde que se verificou a aliança do platonismo com o cristianismo.
Mesmo quando as correntes filosóficas que mencionámos remetem directa ou indirectamente para Hegel, seria errado deduzir dele, por oposição ou continuação (ou por ambas as coisas), todo o pensamento contemporâneo. O descrédito geral da especulação filosófica subsequente ao hegelianismo conduziu a atitudes
relativistas e cépticas contra as quais se levantou também a filosofia. Este enfrentamento com o relativismo e o cepticismo tornou-se patente a partir de diferentes posições, tanto na fenomenologia de Husserl (intento de fazer da filosofia uma ciência de rigor), como nas investigações acerca da vida e da história levadas a cabo por Dilthey e Ortega y Gasset. Estes dois filósofos pretendem compreender a vida e a história com base em categorias especificas rigorosas.
Talvez a característica externa mais saliente da filosofia contemporânea seja a disparidade de enfoques, sistemas e escolas, face ao desenvolvimento, de certo modo mais uniforme e linear, da filosofia moderna (racionalismo, empirismo, Kant, idealismo hegeliano). Para esta proliferação de pontos de vista e de escolas, contribuíram, em grande medida, factores sócio-culturais, como: a crise contemporânea dos sistemas políticos, o avanço espectacular das ciências naturais e lógico-formais e o desenvolvimento das ciências humanas, cujos métodos e resultados tiveram repercussões e consequências de interesse no campo e nos problemas da filosofia (psicanálise, estruturalismo).
Juán Manuel NAVARRO CORDÓN; Tomás CALVO MARTÍNEZ
História da Filosofia, 3º vol., p. 7-9
Texto retirado do blog http://ocanto.esenviseu.net/apoio/fcntmpor.htm em 20/05/09.

OBRA DE ARTE

OBRA DE ARTE
Amores na bela Capital Catarinense.