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segunda-feira, 14 de julho de 2008

Eí-la que surge!

A fundação de São Paulo se deu por iniciativa do Padre Nóbrega, com a ajuda de Anchieta. Nenhum outro o excedeu no zelo, no senso da oportunidade e na avaliação dos recursos intelectuais e morais disponíveis para a grande obra de trazer a fé cristã as almas dos aborígines, mobilizando para isso a palavra persuasiva no ensino dos meninos, que as tribos confiavam aos Jesuítas, para lhes darem abrigo e alimentação, além de ensino da doutrina e aos pais amparo contra seus inimigos.
O Padre Manoel da Nóbrega teve papel importantíssimo na educação e catequeses dos Brasis, da gente da terra. Nóbrega aportou em São Vicente no começo de 1553, dando início por inspiração própria a catequese dos indígenas. Para que tudo fosse mais eficiente em seus objetivos, Nóbrega decidiu evitar a dispersão dos centros de catequese, por ser também diminuto o número de Irmãos para o ensino e resultar menos custosa em dispêndios a obra missionária e mandou que se unissem numa só as Três Aldeias dos Campos de Piratininga, lugar que lhe pareceu por muitas razões o mais propício, pelo clima, da feracidade e até mesmo por facilidades estratégicas da defesa contra as sempre perigosas incursões das tribos rebeldes (Tupinambás do Vale do Paraíba e Litoral Norte). Não lhe faltaram companheiros do mais alto quilate para o trato dos catecúmenos e progressiva conquista dos aborígines e entre eles um jovem de nome José de Anchieta, vindo das Canárias e ligado à família de Ignácio de Loyola, o fundador da austera, conspícua e venerável Companhia de Jesus.
Nele Nóbrega encontrou o entusiasmo, a tenacidade, o talento de bem servir, pendores para a criação poética a que juntava o dom carismático de impor-se não só à sensibilidade infantil dos meninos e dos chefes das tribos, mas inda e sobretudo a seus companheiros pela amabilidade associativa, espantosa resistência física em corpo aparentemente de tanta fragilidade, que o tempo e o clima tornaram mais vigoroso, em viagens conciliatórias e uma vis política e trabalhos literários impressionantes pela diversidade de suas competências, veio de fato a ser um dos pilares mestres da nacionalidade, em toda a região que se estendia da Bahia às ribas vicentinas, incluindo-se o Rio de Janeiro. Nóbrega divide com Anchieta a dura tarefa de levar adiante o Colégio em São Paulo de Piratininga naquele tempo difícil , no início da colonização, em meados do século 16.

No livro da matrícula da Universidade de Coimbra, fl. 135, Nóbrega descreve ser filho do desembargador Balthazar da Nóbrega, já falecido. Seu pai foi muito estimado d'El-rei, D. João o Terceiro. Por ser homem de muita inteireza, El-rei lhe recomendava assuntos importantes. Em Coimbra, Nóbrega se graduou como Bacharel mesmo sendo muito gago. Continuou seus estudos em Coimbra e tomou ordens de missa. Naquela época se lançavam os alicerces da Companhia de Jesus em Coimbra, havendo grandes fervores de espírito em todos pela salvação das almas. No tempo em que o Padre Nóbrega estava em missão na província de Beira, determinou El-rei D. João com os Superiores da Companhia mandar padres ao Brasil para ajudar aos portugueses como para converter à nossa fé aos Brasis. Thomé de Souza, de partida para o Brasil, leva então Nóbrega consigo, além de alguns outros padres e Irmãos. Ele aporta na Bahia em 1549: "Chegamos a esta Bahia a 29 dias de mez de Março de 1549. Andamos na viagem oito semanas. Achamos a terra de paz e 40 ou 50 moradores na povoação que antes era".
Entrou o Padre Nóbrega neste mundo novo com os padres Leonardo Nunes, João de Aspicuelta Navarro, Antonio Pires e com os Irmãos Vicente Rodriguez e Diogo Jacome, todos eles homens de singular virtude e dignos fundadores de uma tão santa e dilatada província. Já depois da chegada, Nóbrega dava notícias sobre a nova terra. Afirmava haver notícias de Santo Tomé nessas terras (na verdade um mito ameríndio que depois foi verificado em diversas partes da América):
"Dizem eles (os índios) que São Thomé, a quem eles chamam Zomé, passou por aqui. E isto lhes ficou por dito de seus passados e que suas pisadas estão signaladas junto de um rio, as quaes eu fui ver por ter mais certeza da verdade e vi com os proprios olhos quatro pisadas mui signaladas com seus dedos, as quaes algumas vezes cobre o rio quando enche. Dizem tambem que quando deixou estas pisadas, ia fugindo pelos Indios, que o queriam frechar, e chegando ali se abrira o rio e passara pelo meio a oura aprte sem semolhar e dalli fora para a India. Assim mesmo contam que quando o queriam freacahr os Indios, as frechas se tornavam apra eles e os matos lhes faziam caminhos por onde passasse. Dizia tambem que prometeu que havia de tornar a vel-os." Noutra carta diz: "Tambem me contou pessoa fidedigna que as raizes de que cá se faz pão, que Santo Thomé as deu, porque cá não tinham pão nenhum e isto se sabe da fama que anda entre eles."
No ano de 1553, indo o Governador Thomé de Souza para visitar a costa do sul, foi com ele o padre Nóbrega, assim para ajudar os das naus, como para visitar os nossos Religiosos, que ali estavam em diversas partes. Indo para São Vicente, não longe do porto, houve uma cruel tempestade, na qual se foi ao fundo o navio em que ia o padre Nóbrega. Bem se vê o sentimento que haveria, sendo tão amado e venerado por suas excelentes virtudes. Porém não quis o Senhor que o tinha para cousas grandes que alli acabasse; com espanto de todos e do mesmo Padre, por andar elle mui fraco e não saber nadar, foi visto sobre as ondas, com grande socego, até que uns Indios nadadores cortando as ondas o tomaram em braços e puzeram em salvo em uma ilhota; onde o vieram buscar e foi levado a S. Vicente com alegria tão geral em todos como se a cada um lhe resustára seu pae.
Mandara o padre Nóbrega á Bahia, para conduzir os novos obreiros ao Padre Leonardo Nunes. Este trouxe comsigo alguns dos quaes era o Irmão Joseph de Anchieta. Achando-se o Padre com este novo socorro, por boas razões e muitas conveniencias (...) em Janeiro de 1554 mandou Padres e Irmãos, que déssem principio a um collegio nos campos de Piratininga, distane de S. Vicente a 12 ou 13 léguas (...) Padeceram alli muitos on nossos Religiosos em fundar esta nova colonia, d'onde ao depois se recolheram fructos copiosos. Correu o Padre Nobrega grandes perigos em querer tirar daqueles barbaros o insaciavel appetite de comer carne humana; no que teve mui gloriosas victorias. Nas partes de S. Vicente se deteve o padre Nobrega até os principios do anno de 1556, e deixando alli em seu logar ao padre Luiz da Grã que lhe era collateral no governo com iguaes poderes, elle se voltou a ter cuidado com as cousas da Bahia.
No anno de 1558, indo por Governador do Estado Men de Sá, teve com elle o padre Nobrega estreita amisade. Fez leis mui proveitosas ao bem dos Indios, como foram prohibir-lhe aos confederados conosco comerem carne humana; que não fizessem guerra, sem que elle e o seu conselho o aprovasse; que vivessem em aldeias grandes, fizessem igrejas e a casas aos Padres, que os cultivassem. Tambem promulgou outra lei em favor dos Indios, que fossem postos em liberdade os que estavam em captiveiro injusto feitos escravos dos Portuguezes.
Corria o anno de 1560 e davam aos Portuguezes muito cuidado as cousas do Rio de Janeiro, porque tendo alli os annos antes entrado os Francezes, se iam fortificando e si não se acudisse a este mal, seguir-lhe-hia grande detrimento aos Portuguezes. Continuava o padre Nobrega na capitania de S. Vicente,na qual havia muito desassossego por causa das invasões dos Tamoyos. Andavam em canoas mui equipadas de remeiros, faziam crueis assaltos e captiveiros. Entendia o Padre que tudo era castigo de Deus por muitos desmandos dos Portuguezes. Correndo o anno de 1563, depois de renovados os votos na oitava Paschoa, se despediu dos mais Padres e Irmãos e tomando por companheiro ao padre Joseph de Anchieta, que ainda era Irmão, se pôz em caminho para os Tamoyos. Levou em sua embarcação João Francisco Adorno, Genovez, homem rico da terra e grande amigo da Companhia. Tendo partido a 21 de Abril, a 4 de Maio do dito anno chegaram ás praias do principal logar dos Tamoyos. Ao principio se assustaram, cuidando serem inimigos. Porém vendo os Padres, dos quaes entre elles era cousa sabida sere amigos dos Indios, fallando-lhes o padre Anchieta na sua lingua, tomaram confiança e entraram na barca sem algum assombro. No dia seguinte acudiram os prinicpaes, entendendo vinham a tratar de pazes. Deram por refens 12 mancebos, que foram na barca para S. Vicente elles levaram para suas terras os Padres. Foram hospedados na casa de um principal chamado Caoquira.
Primeiro que tudo armaram um arvoredo uma igreja coberta de palmas: nesta se disse aos 9 de Maio a primeira missa que viram aquellas terras. Foi em acção de graças pelos benefícios recebidos e para pedir a Deus o bom successo de cousas tanto do seu serviço. Assim foam continuando co grande espanto dos Tamoyos: porque nao havia sino, a vozes chamavam os meninos e mais gente, para ouvir a santa doutrina, que o padre Josepch lhes explicava com phrases e demonstrações de sua lingua, de que eles gostavam tanto, que si a terra fosse outra, segundo tomavam bem o que lhes dizia, poderiam ser baptizados muitos delles. Fazia nelles grande impressão o terror dos castigos que diziam estar apparelhados aos maus que comiam carne humana e faziam outras maldades.
A mesma doutrina pregavam nas aldeias circumvizinhas. Tinham os Tamoyos respeito aos Padres e como se os reconheciam por paes dos Indios, lhes descobriram seus segredos, dizendo o modo com que tinham disposto a guerra, para acabar com os Portuguezes; era este por duzentas canôas por mar, e or terra no mesmo tempo muitos mila rcos dos que habbitavam as margens do ri Parahiba. Aqui viram os Padres o perigo da capitania de S. Vicente, pois não havia nella poder que pudesse resistir a tanto apparato de guerra.
Logo se divulgou pelos Indios da costa a chegada dos Padres e a causa de sua vinda. Com esta nova se alteraram os Indios do Ri de Janeiro, a quem a guerra servia mais que a paz. De diversas partes acudiram em suas canoas com intento de matar os Padres e impedir as pazes. Chegou primeiro logar Aimbiré, amigo dos franceses e aparentado com elles, inimigo cruel do nome Portuguez. Trazia este bravo Tamoyo 10 canoas, todas a ponto de guerra. le chegando tomou por melhor assaltar de noite os Padres, matal-os e tomar o barco que os trouxera, o qual ainda não era partido.
Estando o barbaro neste pensamento, se ajuntaram os Principaes da terra a tratar das pazes. Pareceu bem estar no conselho Aimbiré. Assistiu á junta com muitos Indios armados. Bem viram os Padres o seu perigo, porém estavam muito confiantes em Deus. indo correndo os votos, o de Aimbiré foi em primeiro logar que lhe haviam os nossos de entregar tres Indios seus para os matar e comer, porque lhe tinham feito guerra com os christãos.
Depois de varios dares e tomares, se acabou Aimbiré, que este ponto dos tres que queria fossem entregues, se propuzesse aos Prinicpaes da capitania de S. Vicente. Vindo elle neste partido, quiz ser o embaixador da proposta. Tomaram os Padres este conseho para metter tempo, o qual costuma em negocios intrincados desfazer grandes embaraços e descobrir novos caminhos. Os Padres escreveram aos Principaes de S. Vicente, que por nenhum caso fizesem o que Aimbiré requeria, ainda lhes houvessem por isso de ser comidos dos Tamoyos, em cujo poder estavam. Fizeram-se em S. Vicente tão boas passagens a Aimbiré, que depoz sua fereza e se contentou com as razões que lá se lhe deram.
Após este perigo, veiu outro mais apertado. Andando ambos na praia viram que vinha voando com trinta remeiros uma canoa e nella certo Indio, filho do Principal da aldeia, em que estavam os Padres; ficaram atraz outras oito canoas desta sua esquadra. Os intentos era matar os Padres por serem, como dizia, perniciosos ao bem commum com as pazes que intentavam. Dera ordem aos seus que em chegando lançassem mão dos Padres, que elle os mataria.
Vendo os padres o fio que trazia a canoa, suspeitaram o que poderia ser. A toda pressa se foram recolhendo para a aldeia. Apressou-se o padre Nobrega quanto poude e mais do que poude até passar a praia; no fim da qual havia um ribeiro (Rio da Perobas em Ubatuba) que dava pela cinta. Não tendo o padre Nobrega tempo para descalçar as botas que trazia por cauisa de muitas chagas, o irmão Joseph de Anchieta o tomou ás costas, mas como ellas eram fracas, não odendo acabar de passar, deu o Padre comsigo no meio do ribeiro e passou todo ensopado em agua. Apenas houve tempo de se encobrirem no mato. Como a aldeia estava em um oiteiro alto e o Padre não podia ir por deante, tioru o fato, descalçou-se, até ficar em camisa. O Irmão que todo estava molhado, tomou ás costas o fato do padre Nobrega e começaram a andar: mas nem com isso o Padre podia ir, sinão de vagar e lançando a alma pela boca. Vendo o Irmão seu trabalho e que era impossivel daquella maniera chegar á aldeia, lhe disse, que se escondesse no matto. NEste aperto acudiu Nosso Senhor, porque vindo da aldeia um Indio, a poder de promessas acabou o Irmão com elle, que lhe ajudasse a levar o Padre. Assim meio ás costas, meio puxado por um bordão, entrou na aldeia mui pouco antes que chegassem da canôa.
Era isto em conjuração que ahi não estava o Principal que os abrigava, por ser mais o evidente favor de Deus. Entrou o da canoa em casa de seu pae, que estava ausente; um seu tio lhe deu conta das pazes. Não se deteve mais que emquanto o Padre resou vesperas de Corpus Christi, que era no dia seguinte. Dissimulou o barbaro seus intentos, fallou com os Padres sobre as pazes e se tornou quieto; confessou depois todo o proposito em que viera do Rio de Janeiro. mas que vendo aquele velho e ouvindo suas palavras, ficara fraco e sem forças e de todo mudado, dizendo que similhantes pessoas não vinham com traição e bem podiam fiar dellas.
Os Indios destas aldeias, principalmente o maioral desta chamado Pindobuçú, trataram largamente com o Padre e o Irmão, assim das pazes como do seu modo de viver. Por tudo lhe perguntavam mui particularmente. Offereciam-lhes suas filhas e irmãs por mulheres como costumavam aos mais christãos, quando tratavam com elles de pazes, porque tinham este uso por mais firmeza das mesmas pazes. Porém, entendendo o modo de vida continente, que os Padres guardavam, ficavam espantados. Quasi incredulos nisto lhe chegava a perguntar pelos pensamentos e desejos dizendo: Nem quando vedes mulheres formosas não as desejais? A isto respondeu o Padre Nobrega mostrando-lhes umas disciplinas e dizendo-lhes: Quando vêm similhantes pensamentos e tentações acudimos com este remédio.
Ficaram com esta resposta mui espantados e tinham para si que os Padres fallavam com Deus e que lhes descobria tudo quanto pasava. Este Principal pregava aos da sua aldeia como aos do Rio de Janeiro, que com seu filho iam a matar os Padres, que os Padres eram muito amados de Deus; que si algum agravo se lhes fizesse, logo havia de vir mortandade sobre elles. Com isto os maus se intimidavam e o bom Indio lhes rogava pedissem a Deus por elle, já que os defendia e fallava em seu favor.
Tratando das pazes, dizia o bom velho aos Padres: "Antigamente fomos vossos amigos e compadres; mas os vossos tiveram toda a culpa das nossa guerras, porque nos começaram a saltear e tratar mal. Quando nós começamos a ter guerra com os Temiminós, gente do Mato Grande, os nossos confiados na multidão de nossos inimigos que eram muito mais do que nós e juntamente inimigos vossos, que tinham mortos muitos de vós outros, se metteram com elles contra nós; mas Deus ajudou-nos e pudemos mais."
Como padre Nobrega sabia ser tudo verdade, cada vez folgava mais de ter tomado entre suas mãos esta empresa desejando aplacar a ira de Deus contra os Portuguezes. Por isso, quando tratava com elles nesta materia dizia: "Porque sei que Deus está irado contra os meus pelos males que vos têm feito, sendo vos seus amigos, vi cá a fazer pazes com vós outros para aplacar a Deus e fazer que perdoa aos meus, os quaes da sua parte não hão de quebrar estas pazes; por isso trago cá minha cabeça e de meu irmão sem medo nenhum porque trato verdade; mas si vós outros as quebrais, entendei que a ira de Deus se ha de virara contra vós outros e ha Dizia estas cousas não como ameaças e medo, que lhes quizesse metter, si nao com tanta certeza e firmeza que parecia ter-lh'o Deus revelado. elles assim o criam. Portanto estes fronteiros nunca tornaram atraz, antes quebrando as pazes os do Rio de Janeiro e Cabo Frio, que era toda multidão dos Tamoyos, estes se foram apra o sertão, pelos não ajudar contra os Portuguezes. A prophecia do padre Nobrega ficou tão cumprida nos demias que toda aquella nação por temos foi destruida, excepto alguns que no Rio de Janeiro se tornaram christãos e os descendentes dos Indios destas aldeias. Esteve o Padre Nobrega com os Tamoios quasi dous mezes. Nelles dizia missa todos os dias. Neste tempo jámuitos do rio de Janeiro caminhavam para S. Vicente e estavam lá alguns dias: portanto parecendo já ao Capião que estvam as pazes fixas, mandou um bergantim ao padre Nobrega, em que pudesse retirar. Portanto consentiram os Indios que fosse só o padre Nobrega e que ficasse o irmão Anchieta, sabendo que em quanto consigo o tivessem não receberiam damno algum dos Portuguezes.veis de ser destruidos de todo".
Não havia acabar com o padre Nobrega ir-se e deixar alli o Irmão só; mas enfim á instancia do mesmo Irmão se embarcou e partiu. No caminho padeceu uma noite tal tempestade, que já todos se davam por perdidos e dous valentes mestiços tratavam entre si de levar o Padre á praia sobre uma escotilha; porém abrandandoa tormenta,no fim de Junho chegaram a S. Vicente. Com sua chegada se dava tal tractamento aos Tamoyos, que se deixavam estar lá muitos dias, como sem suas casas. O padre Nobrega levou ás aldeias dos Indios nossos discipulos, onde se abraçavam uns aos outros sem lembrança das guerras passadas. O mesmo se fazia em Piratininga, indo os Tamoyos do sertão muito seguros, tractando com muita paz com os Portuguezes e com os nossos Indios.
O irmão Anchieta ficou entre os Tamoyos, dizendo-lhe o padre Nobrega, que quantos meios se lhes offerecessem para se poder ir, todos lh'os deixava mandados. Deteve-se alli o Irmão quasi tres mezes, nos quaes lhes succederam cousas mui notaveis, que se contam em sua prodigiosa vida e não são d'este logar. Depois os mesmos Tamoyos o levaram para S.Vicente, ode chegou dia d S. Matheus. Estas tão proveitosas pazes quebraram depois os Tamoyos do Rio de Janeiro, do que se lehs originou sua destruição e o principio da cidade, que alli têm hoje os Portuguezes e do nosso Collegio, que nella ha. Aquele bom Indio, que foi amparo dos padres entre os tamoyos, em premio desta sua obra o fez Deus filho pelo batismo e veiu a morrer como bom christão.
Havendo em Portugal noticia do estado das cousas no Rio de Janeiro (...) mandou a Rainha D. Catharina alguns galeões e por capitão delles Estácio d Sá, sobrinho de Men de Sá, o qual sujeito em tudo ás ordens do tio fosse povoar o Rio de Janeiro e lançar de todo fóra os Francezes. nada mais desejava Men de Sá. avisou com presteza o sorinho e o despediu para o Rio nos princípios do anno de 1564, com regimento que tudo se regesse pelo conselho do padre Nobrega e lhe obedecesse como a elle em pessoa, tendo para si, que pelo grande ser que reconhecia no padre Nobrega, teriam as coisas o desejado acerto, como em verdade o tiveram.
Em chegando Estacio de Sá ao Rio, despediu um barco a S. Vicente a chamar o padre Nobrega. Logo se embarcou com dous companheiros e chegou ao Ri em Abril, sexta-feira da Semana Santa,á meia noite, com grande tempestade, onde correu evidente perigo de ser tomado dos tamoyos, que tinham já quebrado as pazes. Acudiu Deus neste aperto, porque amanhecendo viu entrar no porto a armada de Estacio de Sá, que o padre Nobrega imaginára estar dentro. Fôra o caso que Estacio de Sá cuidando pelo que lhe disseram um tamoyo, que a capitania de S. Vicente estava em guerra e que esta era a causa da tardança do padre Nobrega, se resolvêra o dia antes partir para ella e quiz Deus que o mesmo vento tempestuoso que meteu ao Padre Nobrega dentro do rio, obrigou os galeões a nella se recolherem. Em que bem se viu o favor que Deus fizer a todos, pois o Padre por não poder sahir para fóra, seria tomado dos tamoyos e Estacio de Sá faria a jornada debalde porque nem S. Vicente estava em guerra em lá acharia ao padre Nobrega.
Em dia de Paschoa se disse missa na ilha dos Francezes (já tomada pelos Portugueses), onde o padre Nobrega fez uma pratica a todos, em que procurou tirar-lhes o grande medo que tinham dos Tamoyos, pelo que delles tinha experimentado. Exortou-os a cofiar em Deus, cuja vontade era que se povoasse o Rio. Ficaram todos mui animados. Houve contudo muitas difficuldades em continuar a empresa, assim por falta de canoas sem as quaes nada si podia obrar, como de mantimentos; e de tudo estava o inimigo mui pujante como em paiz proprio. Portanto, assentaram ir-se a S. Vicente, para onde se partiram com boa viagem.
O padre Nobrega como tinha por mui certo ser vontade de Deus esta empresa e grandissima confiança, por não dizer certesa, que se havia de povoar o Rio, se poz contra todos em invencivel constancia, assim nas pregações como em praticas particulares. Ia muitas vezes a S. Vicente a outra villa, que distava dahi duas leguas, onde estava o Capitão-mór, a esforçal-o e animal-o, ajudando em tudo.
Não contente com isso, levou-o com muitos dos seus a Piratininga, onde havia mais abundancia de mantimentos: alli os proveu muitos dias com o de casa e mandou mensageiros aos Principaes do sertão, que ainda estavam de guerra, dando-lhes seguro da parte do Capitão-mór que viessem a fazer pazes. Elles vieram e as fizeram e tornou a ficar o serão quieto, como antes: d'onde se seguiu tambem virem muitos a receber o santo baptismo.
Com ajuda de Deus e zelo incansavel, acabou de vencer todos os impedimentos que difficultavam a jornada: ella se veiu a pôr em effeito no Janeiro seguinte de 1965, dia de S. Sebastião, a quem logo tomaram por Padroeiro da empresa. Nesta armada mandou o padre Nobrega a dous nossos, o Padre Gonçalo de Oliveira e Irmão Joseph de Anchieta. Nos principios de Março, lançou ancora junto as ilhas visinhas á barra do Rio de Janeiro, esperando até chegar a capitanea, que vinha mais devagar.
Houve nesta guerra cousas mui notaveis e toda ella foi cheia de prodigios e favores do ceu; em que em se via elejava alli Deus pelos Portuguezes, para desempenhar a seu servo. Podem vê-las os curiosos no livro terceiro da primeira parte da Historia de nossa Provincia do Brasil. Durante esta conquista mandou o padre Nobrega ao Irmão Joseph de Anchieta, que fosse tomar ordens á Bahia e elle em pessoa acudiu ao ri de Janeiro; aonde de S. Vicente de continuo fazia acudir com bastimentos e canoas, que de novo or sua agencia se armavam, em fórma que se póde bem dizer que o muito que alli tem o reino, se deve ao zelo deste santo Padre.
Havendo na Bahia muito miudas noticias de todas estas cousas por relação do padre Joseph de Anchieta, e que ainda que os sucessos eram prosperos de nossa parte, por ser muito o inimigo ajudado dos Francezes, a guerra se dilataria mais do que era conveniente, tomou resolução Men de Sá de passar com novo poder em pessoa e acabar de uma vez com o inimigo. Em 18 de janeiro de 1567 entrou com uma boa armada pelo rio. Logo dia de S. Sebastião deu com tal furia nos inimigos, que estavam bem fortificados, que os entrou e desbaratou e poz fim a tão portifiada guerra. Como não ha gosto prefeito, houve geral sentimento de perda de Estacio de Sá, o qual no conflicto foi no rosto ferido com uma frecha, e desta ferida veiu a morrer dahi a um mez. Era um homem de tanta christandade, que quando se transladaram seus ossos despediam de si um cheiro sauvissimo.
Achou-se nesta conquista o santo varão Ignacio de Azevedo, que viera de Portugal por Visitador do Brasil e passára a estas partes com Men de Sá e com grandes ancias de tratar ao padre Nobrega. Portanto, acabada a conquista, partiu para S. Vicente em companhia do bispo D.Pedro Leitão e dos padres Luiz da Grã, Provincial, e do Padre Joseph de Anchieta. Não é explicavel o gosto que houve entre estes santos homens. Andava o padre Nobrega mui gastado de trabalhos, annos e enfermidades. Alli assentaram entre si a fundação de um Collegio no Rio de Janeiro, conforme a vontade e dote que para isso dava El-rei D. Sebastião.
De S. Vicente voltou o Padre Visitador ao rio. levando consigo o padre Nobrega, que pois era pae daquella Provincia, o fosse do novo Collegio e alli como em doce remanso, grangeado com suas fadigas e orações passasse o restante de sua cansada velhice. Nesta viagem succedeu junto a uma paragem chamda Britioga, que sahindo os quatro Padres a terra em um batel para diserem missa, se chegou ao batel uma baleia assanhada e esteve a ponto de o metter no fundo; mas por orações de taes servos de Deus, a tempo que tinha a cauda levantada para descarregar no batel, se foi saindo sem lhe fazer mal.
Chegando ao rio, acaharam Men de Sá dando ordem á nova cidade. Deu sitio aos Padres para o Collegio no logar que escolheram e em nome d'El-rei, cuja era a fundação, lhes assignou dote para cincoenta Religiosos. Ficou o padre Nobrega por Superior deste novo Collegio e das outras casas, que havia para aquellas partes. Men de Sá deixando por capitão-mór a seu sobrinho Salvador Corrêa d Sá, lhe ordenou se governasse pelo conselho do padre Nobrega.
Andando o Padre dispondo das cousas do Collegio e ajudando a fundação da nova cidade, sentiu vir-se chegando seu ultima hora: padecia de muitas enfermidades com todas ellas não affrouxava em seu zelo.
Acudia aos Portuguezes com pregações, dirigia ao governador Salvador Corrêa de Sá. Junto com isto, teve cuidado de doutrinar os Indios, que da capitania do Espirito Santo tinham vindo á conquista. Fez que se ajuntassem em uma grande aldeia nas terras do Collegio, pelos ter mais quietos. Esta aldeia foi sempre em grande aumento e veiu a ser um valente defensão da cidade contra Tamoyos, Francezes e Inglezes.
Passou no Rio o padre Nobrega o restante de sua vida, que foram tres annos, sempre com muito trabalho; porque como era muito doente e a terra nova, na qual não se ousavam os moradores ainda estender com medo dos inimigos, havia muita falata do necessario para o sustento corporal. Os maiores mimos que tinha eram alguma esmola que lhe mandava o Superior de S. Vicente. E assim quiz Nosso Senhor delles carecesse de tudo abraçado com a cruz da obediencia, que alli o deixou falto do corporal, mas mui cheio de consolações espirituaes.
Sentindo elle muito antes que se lhe acabava a vida, assim o escreveu para S. Vicente. Quanto mais se lhe chegava o tempo, tanto mais se chegava a Deus, recolhendo-se com as meditações de Santo Agostinho e gastando muita parte do dia em colloquios e suspiros, porque era mui terno, devoto e facil nas lagrimas. Dois dias ou tres antes de seu fallecimento se andou pela cidade despedindo dos amigos e devotos da Companhia: perguntando-lhe elles onde queria ir, pois não havia no porto embarcação ? Respondia: À nossa patria celestial.
Sobrevieram-lhe umas grandes dôres causadas do sangue, que havia muito tempo se lhe não sangrava. Cahiu em cama, onde esteve um só ou dous dias. Logo se preparou com os Sacramentos que no tal aperto costumam receber. Chamou um Padre dando-lhe muita pressa, para logo o ungisse. Recebia a extrema unção, disse a um dos Padres que disesse logo missa, antes que elle expirasse e o outro ficasse para depois.
D'ahi apouco espaço de tempo, lançando um pouco de sangue corrupto pela bocca, deu seu espirito ao Senhor, em 18 de Outubro de anno 1570, dia de S. Lucas, no qual dia elle nasceu. O santo padre Anchieta tem que nelle entrára também na Companhia; mas o disse no principio desta vida, é o que consta dos livros das entradas dos noviços do Collegio de Coimbra.
Foi sua morte mui sentida, porque era como pae de toda aquella nova cidade do Rio de Janeiro, em cujo Collegio falleceu e na sua Igreja foi sepultado, entre as lagrimas de seus filhos e dos seus Indios e Portuguezes, que muito o amavam. Era este grande homem como um pae universal das christandades do Brasil, que viu copiosamente fundadas e feitas numerosas aldeias de gente bruta trazida dos matos , onde vivia a modo de feras e a viu cultivada com costumes christãos. ”
(Excertos do texto do P. Antonio Franco, na grafia original in Cartas Jesuíticas 1 - Coleção Reconquistando o Brasil, 2º ed., Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1988).
Coleção Reconquistando o Brasil, 2º ed., Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1988).
Retirado de http://www.itanhaemvirtual.com.br/Historia_Nobrega.htm
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OBRA DE ARTE

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